Suspeitos por sumiço de estudantes mexicanos relatam tortura policial

CIDADE DO MÉXICO — As investigações sobre o desaparecimento de 43 estudantes no México em setembro de 2014 já foram alvo de muitos questionamentos por especialistas internacionais. Mas agora surge uma nova acusação contra as autoridades mexicanas: tortura contra os suspeitos de envolvimento no caso que abalou o país. Documentos recentes revelam os relatos de dez pessoas forçadas a confessar após serem submetidas a procedimentos brutais.

Segundo a Associated Press, que teve aceso aos documentos, os suspeitos descrevem um roteiro muito similar. Primeiro, foram interrogados. Em seguida, vieram socos, choques elétricos e asfixiamento parcial com sacolas plásticas. Por fim, eles relataram ter recebido ameaças de morte contra seus familiares caso não confessassem ter cometido os crimes.

Alguns dos investigados disseram ainda que receberam provas plantadas ou histórias pré-fabricadas que iam de acordo com as conclusões anunciadas pelo governo mexicano.

— Eles me deram choques elétricos nos testículos e no corpo todo. Durante todo este tempo, que durou cerca de duas horas e meia, eu estava com os olhos vendados e eles me batiam. — disse o suspeito Patricio Reyes Landa, membro de uma gangue que foi preso um mês após o desaparecimento dos estudantes, a um juíz no último mês de julho. — Uma pessoa veio, tirou minha venda e me mostrou uma foto da minha família: minhas duas filhas, minha mulher e meu irmão. Ele disse que se eu não fizesse tudo que eles me mandaram, eles estuprariam minhas filhas. Eu disse que faria tudo que eles pedissem.

O depoimento de Landa é considerado crucial para o caso, porque ele foi um dos primeiros a confessar a autoria dos crimes, que incluem matar os estudantes e queimar seus corpos na cidade de Cocula antes de atirar seus restos carbonizados perto de um rio.

Relatórios médicos publicados no mês passado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos confirmam as alegações de tortura. O grupo revisou cinco dos dez depoimentos e encontrou evidências de tortura credíveis em todos eles. Médicos que examinaram Landa dois meses após sua prisão disseram que ele tinha hematomas, arranhões, cicatrizes e lesões possívelmente causadas por dispositivos elétricos conectados ao seu abdômen e suas coxas.

Além destas confissões, a procuradoria praticamente não tem outras evidências contra estes suspeitos. Apenas um fragmento ósseo foi encontrado e, em seguida, atribuído a um dos estudantes por um teste de DNA.

A legislação mexicana prevê que confissões obtidas com métodos de torturas não devem ser admitidas pela Justiça. No caso dos estudantes, as alegações de tortura envolvem tropas do governo e policias federais que prenderam os suspeitos, que teriam supostas ligações com o notoriamente violento cartel Guerreros Unidos.

— Se as confissões forem descartadas e não houver outra evidência, basicamente não há caso judicial — disse Denise Gonzales, especialista em direitos humanos e legislação internacional.

Outro suspeito, Garcia Reyes também disse ter sido vítima de tortura por horas, além de ter sido treinado para confessar ao ser levado até o rio onde os restos dos estudantes teriam sido atirados.

— Eles colocaram uma sacola na minha cabeça e começaram a me bater. Então eu disse que não sabia de nada — disse Reyes. — Eles me levaram ao rio e no caminho até lá disseram “Você vai agir como se tivesse jogado as sacolas com os restos no rio e, se você não fizer isso, vamos continuar a te bater.

Apesar as acusações, Reyes não tinha sinais de tortura no vídeo apresentado pelos procuradores. Segundo Gonzalez, também é possível que alguns suspeitos tenham inventado as histórias. No entanto, a conhecida violência das autoridades mexicanas já é motivo para que as alegações sejam consideradas.

— No México, onde a tortura é generalizada, todas as alegações deveriam ser investigadas porque, dado este contexto, é muito possível que elas sejam verdade — diz a especialista.

Algumas semanas após o sumiço dos estudantes, autoridades mexicanas reuniram dezenas de suspeitos e anunciaram que tinham resolvido o caso. Em uma entrevista coletiva, os procuradores mostraram vídeos das confissões de membros de gangues do mercado de drogas. No entanto, as investigações já foram alvo de muitas críticas e questionamentos por especialistas internacionais.

As forças de segurança mexicanas são rotineiramente acusadas de utilizar métodos de tortura em investigações de crimes de drogas. Estas crenças foram reforçadas por um vídeo vazado no mês passado de duas autoridades que tentam sufocar com uma sacola de plástico uma mulher suspeita de envolvimento em outro caso. O Exército confirmou a autenticidade das gravações, que ocorreram durante uma grande operação contra o tráfico de drogas no México.

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