Prometendo protecionismo e taxas a ricos, Trump atrai eleitores de Sanders

WASHINGTON – Ao mesmo tempo em que Donald Trump ainda não consegue unificar o Partido Republicano, o bilionário pode estar conquistando um tipo raro de eleitor: os apoiadores de Bernie Sanders. Seu discurso econômico, com um forte apelo protecionista, típico de esquerda, combina com os eleitores do senador por Vermont, que se declara social-democrata, mas que, nos EUA, é considerado socialista. As pesquisas já começam a mostrar que o virtual candidato da oposição nas eleições presidenciais de novembro tem vantagem sobre Hillary Clinton, sua provável concorrente, neste tema.

O discurso protecionista de Trump é forte. Ele afirma que vai rever o Nafta (Acorde de Livre Comércio da América do Norte, entre EUA, Canadá e México) e taxar produtos chineses em até 45% para trazer empresas e empregos de volta para o país. Além disso, ele parece não se importar com a situação fiscal do país, que “pode imprimir dinheiro”, e adotou uma nova defesa de aumentar os impostos para os ricos, propostas que chegam a ser mais à esquerda que os projetos de Hillary Clinton. Se, por um lado, isso assusta os conservadores republicanos, que viveram uma verdadeira guerra com Barack Obama para evitar a ampliação do teto da dívida pública do país, por outro, ajuda a atrair o eleitor independente, cansado dos políticos e vivenciando a recuperação econômica do país, mas sem uma sensação de retomada da riqueza, por causa do aumento da desigualdade.

— Eu não sou fã de Bernie Sanders, mas ele está 100% certo. Hillary Clinton é totalmente controlada pelas pessoas que colocam dinheiro na campanha. Ela está totalmente controlada por Wall Street — disse Trump em discurso no fim da semana passada, no Oregon.

‘Discurso de esquerda’

O bilionário também coincide com o senador em seu discurso a favor de uma menor intervenção militar americana pelo mundo. Trump tem batido muito na tecla de que o que “destruiu” a economia americana foi o Nafta, que ele diz ter sido assinado na gestão de Bill Clinton — na verdade, o acordo foi firmado por seu antecessor, o republicano George H. W. Bush, mas implementado na gestão do democrata. Agora, começou a defender abertamente o reajuste do salário mínimo nacional, há sete anos congelado em US$ 7,25 a hora, uma das principais bandeiras de Sanders.

Esta seria uma forma de diminuir sua rejeição, alta depois de suas posições polêmicas contra imigrantes, muçulmanos e mulheres. Outra frente tem sido questionar a posição de Hillary quando seu marido teve um caso de adultério e, assim, tentar reduzir a vantagem que ela tem entre o eleitorado feminino. Mas é a economia o grande trunfo para ter a liderança eleitoral.

O jornal inglês “The Guardian” publicou ontem uma reportagem que aponta que uma grande parte dos eleitores de Sanders, principalmente os jovens, estaria se inclinando a votar no bilionário. O “Washington Post” afirmou que seu novo “discurso de esquerda” amplia sua postura populista e abarca praticamente todas as linhas de eleitores, pois os conservadores e de extrema-direita se sentiriam atraídos à candidatura do magnata por causa de suas propostas sociais e contra os imigrantes.

Desta vez, 24 anos depois, a frase “É a economia, estúpido!”, pode ser utilizada nas eleições presidenciais americanas, mas contra Hillary Clinton, ao contrário do contexto original, em 1992, quando ela foi utilizada para explicar a vitória de seu marido sobre Bush pai. Uma pesquisa da Quinnipiac University mostrou Hillary atrás de Trump no debate econômico em três estados cruciais para a vitória pela Casa Branca: Flórida, Ohio e Pensilvânia. O levantamento mostra três empates nos estados considerados “pêndulos” (ou seja, não têm um perfil definido e podem votar em um ou outro partido), que juntos definem 67 votos no colégio eleitoral, ou 24,8% dos 270 necessários para um candidato ser eleito. Hillary teria 43%, contra 42% de Trump na Flórida (29 votos no colégio eleitoral) e na Pensilvânia (20 votos), enquanto em Ohio (18 votos) Trump teria 43%, contra 39% da ex-secretária de Estado. Mas no debate sobre quem teria a melhor gestão para a economia, a vitória do bilionário é expressiva: 54% a 40% na Flórida; 52% a 40% em Ohio; e 51% a 42% na Pensilvânia.

Os dois partidos realizaram primárias na noite de ontem: ambos na Virgínia Ocidental, e os republicanos em Nebraska. Sem concorrentes, Trump levou os dois. Do lado democrata, a disputa começou apertada entre Sanders e Hillary, mas o senador aos poucos foi abrindo distância e a mídia nacional declarou sua vitória, mesmo antes do fim da apuração. No entanto, ele não tem como reverter o favoritismo da rival e a vantagem que ela tem na contagem de delegados que, de fato, definem o nomeado nas convenções de julho.

Fantasma de Cruz assusta

As divisões que Trump traz ao Partido Republicano ainda continuam vivas. Embora sem candidato oficial, o fantasma de Ted Cruz voltou a assombrar o bilionário. Em entrevista a uma rádio, Cruz, que desistiu na semana passada após a derrota em Indiana e ainda sem compromisso de apoiar Trump, deixou em aberto um possível retorno à disputa:

— Lançamos a campanha para vencer. A razão pela qual suspendi foi porque, com a derrota em Indiana, senti que não tinha um caminho para a vitória. Se isso mudar, certamente responderemos de acordo — disse Cruz, que afirmou ainda que a escolha de um candidato presidencial “não é uma escolha que nós, como eleitores temos que fazer hoje”.

A declaração gera ainda mais nervosismo na campanha de Trump, que apesar de ter o caminho livre, não conseguiu unir o partido. O bilionário deverá se encontrar amanhã com Paul Ryan, presidente da Câmara dos Representantes, que disse na semana passada “ainda não estar pronto” para apoiar Trump — oficialmente, o único a disputar a corrida pela nomeação do partido. Ou seja, enquanto parece estar se aproximando dos eleitores, Trump ainda não consegue unir a direção de seu partido em torno de seu nome.

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