Possibilidade de saída britânica gera risco de crise existencial na UE

BERLIM – Os países da União Europeia (UE) estão em estado de alerta diante da possibilidade de perder um dos seus membros mais importantes no referendo de quinta-feira, quando os britânicos decidem se querem permanecer ou sair do bloco. Embora analistas e políticos tenham certeza de que o Reino Unido sofrerá os maiores prejuízos, a perspectiva de saída ameaça pôr a UE em crise existencial e causar um efeito dominó que poderia terminar no esvaziamento do maior projeto político do continente desde a Segunda Guerra Mundial.

— Um dos primeiros efeitos seria uma reação em cadeia que vai começar com a saída dos países escandinavos, Suécia e Dinamarca, do bloco. Os dois estão sempre ameaçando fazer um referendo para deixar a UE, um projeto que parece mais concreto com o crescimento dos partidos de direita — diz a cientista política Tanja Börzel, da Universidade Livre de Berlim.

Para a Alemanha, o cenário de uma UE sem o Reino Unido tem a dimensão de uma catástrofe. Desde que o então chanceler federal Helmut Kohl assumiu o governo, em 1983, o país apostou muito na união continental, colocando em risco a solidez das suas finanças com o ingresso da Grécia, em 1981, dos ibéricos Espanha e Portugal, em 1986, com o projeto do euro e, mais uma vez, com o ingresso de candidatos de risco, como Polônia, Hungria, Romênia e Bulgária.

— É verdade que, desde que o Reino Unido entrou no então Mercado Comum Europeu, o debate sobre o excesso de influência do bloco sobre os países é interminável, mas ninguém acreditava que mesmo (a então primeira-ministra) Margaret Thatcher levasse a sério as suas ameaças de deixar o grupo — afirma a analista.

A ex-premier, que morreu há três anos, deixou o governo britânico em 1990, mas suas ameaças e frases de efeito (para o próprio eleitorado), como a famosa “I want my money back” (“Quero meu dinheiro de volta”), com a qual ela conseguiu o famoso “abatimento inglês” — os britânicos pagam menos do que deveriam, segundo o seu peso econômico —, continuam gravadas na memória coletiva europeia.

Wolfgang Schäuble, que foi vice-presidente da União Democrata Cristã (CDU) na era de Kohl, é hoje ministro das Finanças de Merkel, tendo o poder de decidir se países do grupo do euro, como a Grécia, entram em falência ou continuam recebendo a ajuda da UE. Schäuble foi o único político europeu que esteve pessoalmente em Londres para participar da campanha pelo Remain (permanecer) e considera bastante negativos os riscos de uma saída do país, como afirmou em entrevista à revista “Der Spiegel”.

— Se houver uma saída, naturalmente teria efeitos negativos e riscos para os países parceiros do Reino Unido. Nós nos preparamos para todos os cenários possíveis para reduzir os perigos — disse ele à publicação alemã.

Na mesma entrevista, Schäuble apontou, como uma ameaça a Londres, os enormes riscos para os próprios ingleses, inclusive o de ruptura interna no Reino Unido. Na opinião dele, é provável que a Escócia queira continuar no bloco.

‘Nem britânicos nem Europa vão desmoronar’

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy também falou sobre o “risco de catástrofe” para os ingleses, sublinhando ainda as consequências negativas para a UE. Em entrevista ao jornal “Die Welt”, ele disse: “A União Europeia perderia sua segunda maior potência econômica. Isto seria um grande problema, mas para os nossos amigos ingleses a saída seria uma catástrofe”.

O ministro francês da Economia, Emmanuel Macron, disse ao jornal “Le Monde” que uma saída do bloco tornaria o Reino Unido irrelevante no cenário global e que a UE deveria mandar um “recado firme” sobre as consequências disso.

Mas a pior consequência da vitória do Leave (sair) para a UE, como diz Tanja Börzel, seria a perda de peso político no cenário mundial:

— O prejuízo será ainda maior na politica externa e na segurança do que no setor financeiro, embora este não deva ser menosprezado.

Sem os britânicos, a União Europeia seria um anão no aspecto militar. Londres é a garantia de funcionamento das ações militares fora do continente, diz Börzel. Segundo ela, ainda que o eventual Brexit — abreviação de british exit (saída britânica) — provoque uma reação em cadeia, o país com menor risco de deixar o bloco é a França, mesmo se a líder de extrema-direita Marine Le Pen subir ao poder.

— Marine Le Pen critica a UE, mas ela quer no máximo que o bloco passe por reformas.

Já o porta-voz de política externa da CDU, Karl Georg Wellmann, prefere que o tema seja debatido com mais sobriedade.

— Não devemos pensar que se trata do ser ou não ser. Por muitos motivos, precisamos do Reino Unido dentro do bloco. Mas nem o país nem a UE vão desmoronar se os ingleses votarem pela saída do bloco.

Suíça, Noruega e Islândia, ‘ausentes famosos’, inspiram campanha do Brexit

Enquanto a Turquia e outros países do Leste Europeu lutam há anos para ingressar na União Europeia, outras economias, riquíssimas, fazem tudo para ficar fora. É o caso de Suíça, Noruega e Islândia, que têm acordos bilaterais que lhes permite acesso ao mercado de cerca de 500 milhões de consumidores, e que já votaram, em referendos, para não entrarem na UE.

A Noruega, país de 5 milhões de habitantes, mas rico em petróleo e com o terceiro maior PIB per capita do mundo (US$ 68.430 ou cerca de R$ 240 mil), votou em 1972 e em 1994 contra o ingresso no bloco. A Suíça, com 8 milhões de habitantes e renda per capita de US$ 58.551 (mais de R$ 200 mil), também votou contra, em 1992.

Para o economista Peter Schwendner, da Universidade de Zurique, o modelo suíço seria ideal para a Inglaterra depois da saída da UE.

— Londres pode conseguir salvar seu setor financeiro. Não é fácil, mas é possível — avalia.

Também a Noruega, que não faz parte da UE mas é país membro do “Espaço Econômico Europeu”, é vista como modelo para o Reino Unido se o país deixar a UE. Mas o cientista político Olvind Bratberg, da Universidade de Oslo, alerta sobre os custos do exemplo norueguês. O país não tem direito de voto e paga caro pelo acesso ao mercado da UE. Até 2021, para exportar 80% dos seus produtos para o bloco, Oslo precisará pagar aos cofres europeus 390 milhões de euros.

— Como a Inglaterra tem um PIB muito maior, os custos para os ingleses seriam proporcionalmente maiores — diz.

Bratberg admite que o processo de negociação será muito mais difícil para os ingleses. Ele deverá durar dois anos, e muitos políticos da UE dizem que, se os ingleses querem sair do bloco, que então o façam, mas não esperem que a UE corra para socorrê-los depois.

A conclusão dos especialistas é que o Reino Unido deverá se isolar inteiramente da UE para evitar a imigração, ou vai ter de negociar acordos que implicariam em preservar as fronteiras abertas, pelo menos para os cidadãos do bloco.

Mas, na lista dos “ausentes famosos” da UE, a Islândia é o país que mais chama a atenção e alimenta a campanha a favor do Brexit. No ano passado, a ilha de 320 mil habitantes retirou a candidatura para entrar na entidade. Os riscos da concorrência europeia para a pesca, principal força do país ao lado do turismo, eram maiores que os benefícios. Além disso, a crise do euro e o ingresso de países pobres fizeram os islandeses mudarem de opinião.

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