Polícia venezuelana dispara gás lacrimogêneo em nova marcha da oposição

CARACAS — A oposição venezuelana voltou a se mobilizar nesta quarta-feira para exigir um referendo revogatório contra Nicolás Maduro, o primeiro protesto sob um estado de exceção, com o qual o presidente pretende bloquear as tentativas de tirá-lo do poder. Dez estações de metrô foram suspensas na capital, Caracas, enquanto policiais lançaram gás lacrimogêneo contra os manifestantes para dispersas o protesto.

Convocados pela coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD), os opositores pretendem marchar em direção à sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) em 20 cidades, exigindo que o organismo acelere a revisão das assinaturas que entregaram no dia 2 de maio como requisito para ativar a consulta. Na semana passada, a oposição teve que interromper um protesto prematuramente após militares e policiais bloquearem a passagem até o CNE e lançarem gás lacrimogêneo contra os manifestantes.

— O revogatório pode e deve ocorrer neste ano, como quer a maioria dos venezuelanos. Dá tempo, mas temos que estar nas ruas exigindo que as normas sejam cumpridas — disse o líder opositor Henrique Capriles, principal promotor do referendo.

No entanto, Maduro afirmou que a consulta não tem viabilidade porque houve uma tentativa de “fraude nas assinaturas apresentadas”, e denunciou que “há planos para converter as marchas em Caracas em eventos de insurreição e violentos, razão pela qual as autoridades são obrigadas a garantir a paz”.

As marchas desta quarta-feira são as primeiras sob o estado de exceção decretado por Maduro na última quinta-feira, no qual ele concedeu a si próprio faculdades extraordinárias para governar em quase todos os âmbitos.

Em Caracas, a mobilização não foi autorizada pelas autoridades governistas, mas Capriles e outros líderes da oposição reiteraram o chamado a marchar e ignorar o decreto.

Enquanto a tensão política cresce, nas ruas o mal-estar social também aumenta, diante da dramática escassez de alimentos básicos e remédios essenciais, e da inflação mais alta do mundo (180,9% em 2015 e projetada em 700% para 2016).

— As pessoas estão cansadas. A situação está muito ruim, isso a qualquer momento arrebenta — declarou à AFP Lilimar Carrillo, uma enfermeira de 39 anos, que fazia fila para comprar comida na cidade de Guarenas, a 45 km de Caracas, onde na terça-feira foi registrado um protesto devido à escassez de alimentos.

DECRETO REVELA DEBILIDADE

Rejeitado na terça-feira pelo Congresso de maioria opositora, o estado de exceção contém medidas para enfrentar a profunda crise econômica.

Capriles convocou na terça-feira a desconsiderar o decreto, e sustentou que chegou a hora de os militares decidirem se “estão com a Constituição ou com Maduro”.

O estado de exceção também autoriza operações especiais de segurança diante do que Maduro denuncia como uma ameaça de intervenção estrangeira, instigada pela oposição e pelos Estados Unidos.

Maduro sustenta que entre as estratégias para precipitar uma intervenção estão propagar a ideia de que a Venezuela enfrenta uma “crise humanitária”, junto com atos de violência.

— Longe de constituir um alarde de força, este decreto revela uma grande debilidade — afirmou o presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, que acredita que o Tribunal Supremo de Justiça autorizará o que considera um desmonte da Constituição.

O CNE disse que no dia 2 de junho finalizará a auditoria das assinaturas. Se forem aceitas, 200 mil pessoas precisarão revalidar sua assinatura com a impressão digital. Em uma segunda etapa, a MUD deve reunir quatro milhões de assinaturas em três dias.

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