Palestina celebra inauguração de museu sem acervo

BIRZEIT, Cisjordânia — Quando o Museu Palestino, obra de US$ 24 milhões, celebrar sua abertura na quarta-feira, terá quase tudo: um novo e impressionante edifício contemporâneo; grandes ambições enquanto um espaço para celebrar e redefinir a arte, a História e a cultura palestinas; um anfiteatro ao ar livre; um jardim com terraço. Mas uma coisa que o museu não terá são exposições.

Há muito tempo planejada — e muito promovida —, a mostra inaugural, “Never Part”, que destaca artefatos de refugiados palestinos, foi suspensa depois de uma desavença entre a chefia do museu e seu diretor, o que levou à expulsão deste. O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e outras personalidades são esperados para participar da cerimônia de abertura, mas uma porta-voz reconheceu no domingo que “não haverá qualquer obra de arte expostas no museu.”

Omar al-Qattan, presidente do museu, disse que os palestinos “têm tanta necessidade de energia positiva que valia a pena abrir até mesmo um edifício vazio”.

— Simbolicamente, é fundamental — disse ele, admitindo que a próxima fase, incluindo as eventuais exposições, “é a mais empolgante”.

Na Cisjordânia, onde os palestinos lutaram por anos para construir instituições políticas e civis enquanto resistem à ocupação israelense, o destino da mostra pode dizer tanto sobre as realidades da sociedade palestina quanto qualquer coleção de arte. Desde a assinatura dos acordos de paz de Oslo nos anos 1990, as iniciativas culturas e sociais palestinas normalmente fracassaram em engrenar e encontrar lideranças consistentes.

Mustafa Bargouthi, chefe da ONG Palestinian Medical Relief Society (Sociedade Palestina de Socorro Médico), diz que a lista das instituições sob ocupação e outras dificuldades é longa. Entre os grupos que sofrem, segundo ele, estão a Orquestra Nacional Palestina, o Centro de Arte Popular de Ramallah, grupos de dança pela Cisjordânia e projetos viários, agrícolas e médicos.

Muitos ativistas palestinos veem o idoso Abbas, 81 anos, e seu Gabinete como cada vez mais ineficazes em suas tentativas de construir um governo eficaz, mas uma nova geração ainda não surgiu para tomar seu lugar. O museu é financiado por um grupo privado, a empresa independente Taawon (“Cooperação”, em árabe).

Sam Bahour, palestino consultor de negócios e ativista pelos direitos humanos, afirma que, considerando o estado “fossilizado” de muitas organizações na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, um diretor ser forçado a sair pode ser considerado um sinal de saúde institucional, ou pelo menos de um debate animado. Mas ele chama de “chocante” a decisão de abrir o museu em meio à disputa.

— Se não houver substância, não o abriria — diz.

“Never Part,” desenvolvida por anos pelo diretor afastado, Jack Persekian, deveria contar com interpretações artísticas de objetos como chaves e fotografias que palestinos pelo mundo levaram das casas das quais fugiram ou foram forçados a sair, no que é hoje Israel. Persekian, que gere a galeria de arte da Fundação al-Mamal para a Arte Contemporânea, em Jerusalém, alega que concordou em sair após a direção do museu dizer que não apoiava mais o projeto, mas sem que o explicassem o motivo.

— Não consigo entender o que aconteceu — afirma, oferecendo uma descrição sucinta do que considera o resultado de seu trabalho para o museu: “Desperdício”.

Qattan diz que ele e sua equipe decidiram que Persekian não havia desenvolvido expertise/competência entre os funcionários do museu durante três anos e meio, e que os artistas haviam criticado sua concepção da mostra.

— Não sentimos que o que foi entregue por ele atendia a nossas expectativas — alega.

Apesar de haver em Cisjordânia e Gaza alguns “museus de nicho”, como Bahour chama, o Museu Palestino se tornaria a maior instituição de seu tipo. Desenhado por um escritório de arquitetura de Dublin, o edifício sediará uma cerimônia de luxo dias após o 68º aniversário do que os palestinos chamam de “Nakba” (“a catástrofe”), a criação de Israel e o conflito que se seguiu, que deslocou centenas de milhares de palestinos.

A porta-voz diz que a cerimônia é apenas para celebrar o fim da construção do edifício. Segundo ela, o local será aberto ao público, de graça, a partir de 1º de junho, apesar de não estar claro o que poderá ser visto dentro dele.

Em um comunicado de imprensa, o museu anunciou que havia nomeado um novo diretor, Mahmoud Hawari, a quem chamou de “curador-chefe do Museu Britânico” e um especialista em arte, arquitetura e arqueologia islâmica. Mas o próprio museu não confirma que Hawari tenha sido curador-chefe, apenas que ele foi um acadêmico em visita no local. A Taawon disse que a informação utilizada na nota era meramente baseada em um currículo fornecido por Hawari. No comunicado, Hawari diz que o museu “será uma instituição que une os palestinos, em casa e no exílio, onde quer que vivam”.

Qattan, por sua vez, diz que as mostras no futuro poderão explorar o significado cultural de martírio, o debate sobre quem habitou a região primeiro — e se essa pergunta faz sentido histórico — e também as recentes partidas de minorias étnicas e religiosas.

— Se nós, como instituição independente, não pudermos entrar nessas questões difíceis, então quem o fará? — questiona. — Ninguém. Esse é o poder da cultura.

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