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ONGs belgas oferecem ajuda a imigrantes que vivem à margem da sociedade

Da redação | 27/03/2016 06:20

BRUXELAS — A apenas alguns passos de uma enorme loja que vende os objetos mais desejados e caros do design europeu, um grupo multicultural de homens com idade, cor e trajetória de vida variadas, passa horas serrando, cortando e lixando madeira para produzir cadeiras, mesas e outros móveis fabricados sob encomenda. O que estes homens têm em comum? São imigrantes ou belgas filhos da imigração que estariam à margem da sociedade, à procura de trabalho e de um lugar na Bélgica.

Na ausência do Estado, foram ajudados por uma organização fundada por belgas da sociedade civil que querem integrar os estrangeiros no país: o Ateliê Groot Eiland. Não é a única iniciativa do tipo. Quatro belgas de Bruxelas, todos na casa dos 30 anos, criaram o “Duo for Job” (Duo por um trabalho): convenceram belgas aposentados de mais de 50 anos a fazer, voluntariamente, um trabalho de “coach”, ajudando os filhos da imigração ou imigrantes a encontrar trabalho. Durante seis meses, os aposentados acompanham os jovens, ajudando a preparar currículos, projetos e a abordar as empresas. Três anos depois da iniciativa, 150 voluntários conseguiram com que a taxa de inserção dos jovens imigrantes no mercado de trabalho belga atingisse 44% — duas vezes maior que o normal.

Fath Gazmouz, sírio de 22 anos que está sendo ajudado por um antigo proprietário de uma empresa local, contou à TV belga:

— Eu estava afundando. Ele me ajudou e me levantou.

De um encontro entre um belga e um refugiado de Ruanda surgiu, em 1994 o Movimento Convivial, uma organização que ajuda refugiados a se integrar. Em Molenbeek, bairro pobre de Bruxelas, o centro social de integração Le Foyer, criado em 1969, é comandado pelo antropólogo Johan Leman.

Quando os atentados de Paris revelaram que terroristas vinham de Molenbeek, Leman escreveu um artigo no jornal inglês “The Guardian” em defesa dos moradores do bairro, dizendo: “Parem de tratar as pessoas como assassinas potenciais, porque elas não são. Vocês vão precisar delas como colchão social contra os recrutadores do jihadismo, traficantes de droga e pregadores do ódio”.

GERAÇÃO SEM RIQUEZA

Do fim da Segunda Guerra até os anos 70, a Bélgica importou mão de obra barata estrangeira para suprir a falta de trabalhadores em alguns setores da indústria. Assim fizeram vários outros países, como a França. Imaginaram que estas pessoas iriam um dia embora. Não foram. Seus filhos, e a geração que veio depois, cresceu longe da riqueza. Num estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicado ano passado, a Bélgica está como o quarto país com o maior número de imigrantes desempregados, depois de Grécia, Espanha e Portugal.

Os atentados de terça-feira em Bruxelas, cometidos por belgas filhos da imigração, que mataram 31 pessoas e feriram cerca de 300, obrigam agora o país a confrontar uma realidade desconfortável: em algum momento neste processo, a integração falhou. E o fato de a Bélgica ser dividida em três regiões — Flandres (a mais rica), Valônia e Bruxelas — só complica as coisas.

Flandres, onde floresce o nacionalismo xenófobo, anunciou pouco antes dos atentados que, a partir de 2017, vai cortar a ajuda de € 150 mil que dá ao Ateliê Groot Eiland. Eis o motivo:

— Disseram que o dinheiro de Flandres é para os flamengos. É uma pena — lamentou o coordenador do Ateliê, Tom Dedeurwaerder.

Belga de Flandres, ele abriu mão da carreira de engenheiro para trabalhar na ajuda social. Sua ONG educa e dá trabalho a imigrantes ou belgas sem instrução, que estão há muito tempo desempregados, e não recebem mais ajuda do Estado. Samir, belga nascido em Molenbeek, está aprendendo a ser carpinteiro. Ele não tem ilusões. Com o nome Samir, sem muita instrução, muçulmano, pobre e ainda com o endereço em Molenbeek, ele não está certo de conseguir ir muito longe na vida em seu país.

— Meu sobrinho foi convidado a assinar um contrato para um emprego em limpeza, mas quando ele contou onde morava, disseram: ‘não será possível’. Agora com os atentados, vai ser ainda mais difícil.

A seu lado, Mohamed, 34 anos, desempregado e de origem marroquina, revelou não ter ilusões:

— Francamente, com tudo isso que está acontecendo agora (atentados), quero só ganhar dinheiro para partir para o Marrocos — disse Mohamed, que nunca morou neste país.

Dedeurwaerder conta que todos que bateram na porta do Ateliê o fizeram espontaneamente:

— Eles querem mostrar que Molenbeek não é só lugar de preguiçosos e bandidos. Há muitos como eles — afirmou o belga, lamentando que não possa acolher todos.

Dedeurwaerder acha que o governo erra ao colocar muito dinheiro em segurança em vez de investir em educação de qualidade em bairros de imigrantes. Karim (nome fictício) — um belga de origem marroquina, que pediu para não ser identificado — contou que sua escola no distrito não tinha sequer aquecimento.

— Somos estrangeiros aqui, e somos estrangeiros no Marrocos. Só em Molenbeek não me sinto estrangeiro — reagiu.

Para o fotógrafo iraquiano Mohammed Ali, de 24 anos, que aprende a ser carpinteiro no Ateliê, os atentados de Bruxelas tiveram um efeito terrível. Ele trabalhava para o jornal “Nahren”, em Bagdá, mas quis tentar uma vida mais tranquila na Europa escapando do Iraque aos 18 anos rumo à Europa. A família gastou US$ 10 mil no longo trajeto até a Bélgica. Mesmo desempregado, ele tem a esperança de que sua vida será melhor.

— Agora, aqui é o meu país. Estou melhor aqui. Quando ouço outros reclamarem dos belgas, pergunto: por que ficam, se não gostam?

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