‘O povo se sentia impotente e traído pelos partidos de governo’, diz política alemã

DRESDEN, Alemanha — O risco de uma nova aliança de extrema-direita avança na Europa. Dias após o êxito de Norbert Hofer, do Partido da Liberdade, no primeiro turno das eleições presidenciais austríacas, Frauke Petry, presidente do AfD (Alternativa para a Alemanha), afirmou que considera possível uma cooperação com a Frente Nacional de Marine Le Pen no Parlamento Europeu. Em entrevista ao GLOBO, Petry, doutora em química que cresceu na extinta República Democrática Alemã — como a chanceler Angela Merkel — disse que os dois partidos têm em comum a visão crítica de uma União Europeia forte e poderosa demais em detrimento dos Estados. Segundo ela, a direita está crescendo porque os partidos de governo ignoram as “preocupações reais do povo”.

O AfD alemão planeja alianças com outros partidos de direita no plano europeu, como a Frente Nacional?

A Frente é um partido mais socialista, enquanto que o AfD é conservador liberal. O que pode haver no plano do Parlamento Europeu é cooperação entre os partidos que têm uma visão diferente sobre como deve ser a política europeia no que se refere à limitação dos poderes do bloco ou à política de imigração.

Qual é na sua opinião a receita do êxito da AfD?

O nosso partido surgiu em um contexto de visões, da expressão de como o povo se sentia impotente e traído pelos partidos de governo, que têm ignorado suas preocupações reais. Sobretudo na antiga RDA, onde em 1989 formos às ruas para lutar pelos nossos ideais de liberdade e democracia, havia esse abismo entre o povo e a política. Um dos exemplos é a política de asilo, onde os políticos começaram a agir sem levar em consideração o que a população queria.

A xenofobia é mais forte no Leste, exatamente onde praticamente não vivem imigrantes. Como a senhora explica isso?

Nego essa hipótese, pois no Leste não somos xenófobos. É verdade que há menos imigrantes. A maioria dos habitantes do Leste não tem nada contra estrangeiros. O que criticamos é o abuso do asilo, o tráfico humano organizado por pessoas que ganham muito dinheiro transferindo fugitivos ilegais para a Europa.

A senhora assumiu a presidência da AfD no ano passado depois de uma luta de poder com Bernd Lucke, fundador do partido. É verdade que agora há de novo uma luta, da ala mais direitista que a acusa de ser moderada demais em comparação com o Bjorn Hocke, à frente da AfD na Turíngia?

É verdade que temos um debate entre as diversas tendências do partido, o que assumimos e o que acho super normal. Essa discussão é um processo democrático que dá às diversas tendências a chance de serem ouvidas. Ao contrário de outros partidos, nós assumimos a existência de blocos e tendências diferentes.

Recentemente, Beatriz von Storch, representante da AfD no Parlamento Europeu, defendeu o uso de armas nas fronteiras para evitar o ingresso de refugiados. Qual é a posição oficial do partido?

A nossa posição oficial é que a lei deve ser cumprida, e ela diz que as armas podem ser usadas na fronteira, em último caso, para evitar que sejam transpostas ilegalmente. Essa discussão aqui na Alemanha é um pouco cínica. Quem é contra isso, então deveria lutar para que a lei seja modificada. Mas as leis existem para ser cumpridas.

A crise dos refugiados foi superada?

Não. Houve uma redução do número de refugiados que chegam, mas o problema não foi solucionado. Há na Alemanha centenas de imigrantes que nem sabemos quem são, porque entraram no país sem documentos ou com documentos falsificados. Precisamos de um processamento rápido dos pedidos de asilo do ano passado, quando vieram para a Alemanha mais de um milhão de pessoas, para que os recusados sejam deportados. É importante o restabelecimento das leis europeias e do acordo de Dublin, que diz que o fugitivo deve solicitar asilo logo no primeiro país da UE ao qual tem acesso

A senhora tem algumas características em comum com Angela Merkel: as duas vem do Leste, são doutoras em ciências naturais, e tiveram uma ascensão rápida na politica. Considera essa comparação um elogio ou crítica?

Poderíamos buscar ainda outras semelhanças. Nós duas somos mulheres (diz, sorrindo). Mas eu prefiro encarar as coisas levando mais em consideração o conteúdo. E nisso somos bastante diferentes. Vejo a política de Merkel em diversos setores como fracassada. Isso vai da politica do euro a de refugiados. Além disso, os partidos do governo cometem o erro de ignorar os temas que mais interessam à população, como a política de família ou a política fiscal. O erro mais grave que Merkel cometeu foi convidar os refugiados para vir para a Alemanha no ano passado.

Qual é a sua expectativa para a AfD nas eleições federais do próximo ano? Vai formar aliança com algum partido?

Provavelmente a AfD vai ter um resultado excelente. Mas eu não estou de acordo com os políticos que estão dispostos a qualquer compromisso para fazer parte do poder. Por isso eu acho que nem os outros partidos vão querer fazer uma coalizão com o AfD, nem esse vai querer alianças. Por mais alto que seja o resultado, queremos continuar na oposição. É importante para uma democracia uma oposição forte.

Vai formar uma aliança com o Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente) para crescer ainda mais em votos?

Não temos planos de aliança com o Pegida nem este é favorável a ficar dependente de um partido. O Pegida é um movimento de protestos nas ruas que surgiu como um meio de canalização dos temas que tocavam o povo, como os refugiados e a imigração em geral, um assunto que na Alemanha é capaz de despertar emoções. Eu também não diria que o Pegida é mais direitista do que a AfD. Há uma minoria extremista, mas a maioria vai às ruas pelos mesmos motivos que levaram o povo às ruas por ocasião da revolução pacífica de 1989. Mas não há planos de fusão do AfD com o Pegida.

O AfD e o Pegida defendem uma política rigorosa de imigração. Na sua opinião, onde devem buscar asilo os fugitivos das guerras do mundo?

Os fugitivos das guerras, como da Síria, podem continuar com o direito de asilo. Mas na massa de fugitivos, a maioria vem de outras regiões, como do Norte da África. E estes devem ser recusados.

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