Novas denúncias contra Cristina Kirchner devem acelerar investigações

BUENOS AIRES – Nos próximos 30 dias, peritos que trabalham para o juiz federal Julián Ercolini — encarregado de investigar uma denúncia sobre suposto pagamento de propina a Cristina Kirchner por dois empresários beneficiados com concessões de obras públicas na província de Santa Cruz — analisarão 400 caixas com documentos que poderiam, segundo advogados, congressistas e jornalistas que acompanham o processo, complicar seriamente a situação judicial da ex-presidente. A ordem dada por Ercolini, que tem em mãos o caso Los Sauces — um dos que mais preocupam o kirchnerismo e ampliado na última sexta-feira com nova denúncia de propina — está em sintonia com a orientação dada ontem pelo ministro da Justiça, Germán Garavano, aos juízes que comandam investigações envolvendo a ex-chefe de Estado: “Avancem seriamente e levem os processos até a etapa de julgamento”.

Depois de anos de paralisia, os tribunais portenhos decidiram dar impulso aos casos de corrupção do kirchnerismo, incluindo as denúncias contra Cristina. As declarações de Garavano buscaram desmentir rumores sobre uma suposta tentativa do governo Mauricio Macri de impedir estas investigações, por temor à reação do kirchnerismo.

— A Justiça deve mostrar resultados finais. O segredo de tudo isso é que os processos cheguem a ser julgados, senão ficamos apenas com os fogos de artifício — enfatizou Garavano.

As especulações sobre um possível futuro da ex-presidente na prisão aumentaram nos últimos dias, em consequência da ação de juízes como Ercolini, que comanda o caso Los Sauces, no qual Cristina foi acusada pela deputada Margarita Stolbizer de receber propina dos empresários Lázaro Báez — preso há mais de um mês por suposta lavagem de dinheiro — e Cristóbal López, vencedores de várias licitações de obras públicas.

Na sexta-feira, Margarita ampliou a acusação.

— Existem elementos para aprofundar as investigações e chegar ao processo de Cristina Kirchner. A prisão será uma decisão do juiz — afirmou a deputada ao GLOBO.

Mais de US$ 7 milhões em propinas

Enquanto a ex-presidente permanece em absoluto silêncio e refugiada em sua residência na província de Santa Cruz, os juízes Ercolini, Claudio Bonadio e Sebastián Casanello surpreendem a opinião pública com ações que apertam o cerco a Cristina. Segundo a advogada da deputada denunciante, Silvina Martínez, o material entregue aos tribunais “prova o pagamento de subornos à ex-presidente”. De acordo com ele, entre 2010 e 2013, Los Sauces recebeu mais de 100 milhões de pesos (cerca de US$ 7 milhões) em propinas. E segundo o “La Nación”, a empresa, que seria a gestora de oito imóveis dos Kirchner, tendo gerado dividendos de US$ 20 milhões, tem apenas um funcionário.

— Los Sauces, uma sociedade que pertence aos Kirchner, alugou imóveis a Báez e López que nós suspeitamos que nunca foram ocupados. Era a maneira como o dinheiro das obras públicas, todas com superfaturamento, retornava à ex-família presidencial — explicou. — Esperamos que, em breve, seja aberto um processo judicial.

O objetivo de Margarita, confirmou a advogada, é que “a ex-presidente seja condenada e inabilitada para exercer cargos públicos pelo resto da vida”. A deputada também é a autora da acusação que levou à abertura do caso Hotesur, em que Cristina está sendo investigada pela utilização dos hotéis de luxo da família na Patagônia como elemento central de um esquema de pagamento de suborno por parte de Báez. A sociedade administra hotéis como Alto Calafate, no qual as empresas de Báez reservaram quartos durante vários anos que, de acordo com a deputada, nunca foram ocupados. Além de Cristina, seu filho mais velho, o deputado Máximo Kirchner, também foi denunciado.

O caso fica ainda mais rumoroso com a constatação de que das 51 obras concedidas a empresas construtoras do empresário, que foi amigo pessoal do ex-presidente Néstor Kirchner, apenas 24 foram executadas. Juntas, as licitações representam 16 bilhões de pesos (US$ 1,1 bilhão). No domingo, a deputada mostrou na TV “a estrada mais cara da Argentina”: a 47, construída por Báez, que teria custado dez vezes mais que o preço de mercado.

— A expectativa, no curto e no médio prazo, é que Cristina seja processada nos dois casos — assegurou o jornalista Hernán Cappiello, do “La Nación”, que acredita ser prematuro pensar numa futura prisão de Cristina. — Tudo vai se acelerar na segunda metade do ano.

O jornalista não acredita que Báez, protagonista do caso sobre a “rota do dinheiro K”, possa abrir a boca e complicar ainda mais o panorama judicial da ex-presidente, que está sendo investigada pelo juiz Casanello, encarregado do processo. Nas últimas semanas, ele se tornou famoso por ordenar inspeções em terras e propriedades do empresário em Santa Cruz, usando até máquinas escavadeiras para buscar dinheiro supostamente enterrado.

— Enquanto crescia o patrimônio de Báez, ele transferia dinheiro para os Kirchner através do aluguel de imóveis e quartos de hotel. Foi uma devolução de favores — insistiu Margarita, um virou verdadeiro pesadelo para a família Kirchner.

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