No Peru, um confronto de conservadores nas urnas

BUENOS AIRES — Ela prometeu “reconciliação” e ele apostou, até o último minuto de campanha, em pedir um voto pela “democracia”. Suas principais bandeiras são diferentes, mas Keiko Fujimori e Pedro Pablo Kuczynski, que hoje disputam o segundo turno presidencial no Peru, representam o que existe de mais conservador na política local. Há muito tempo, os peruanos não presenciavam uma disputa pela Presidência entre dois candidatos de direita, categoria que, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO, continua vigente no país.

O resultado da queda-de-braço entre os dois partidos conservadores era considerado nas últimas horas absolutamente incerto. Segundo pesquisas, a filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), de 41 anos, que chegou a ter uma vantagem de oito pontos percentuais antes do último debate, teria sido ultrapassada no sábado por Kuczynski por pouco mais de um ponto.

— PPK (como é chamado o ex-ministro de Finanças, de 77 anos) foi mais sólido no debate e atacou Keiko onde mais lhe dói: denúncias de corrupção contra colaboradores (um deles alvo de investigação da DEA, agência antidrogas dos EUA) e o passado do pai — comentou Luis Benavente, diretor da empresa de consultoria Vox Populi.

Para ele, “os dois candidatos representam uma direita bastante tradicional, não extrema”.

— Em termos econômicos, praticamente não existem diferenças importantes. Keiko e PPK vão manter o mesmo modelo, como fizeram todos os presidentes depois de Fujimori. Um modelo de economia aberta, dos mais ortodoxos do continente — disse Benavente.

A derrota da deputada e ex-candidata Verónika Mendoza, da Frente Ampla, no primeiro turno, deixou a esquerda fora da corrida presidencial. A liderança de Keiko nas pesquisas durante toda a segunda etapa de campanha levou Verónika a terminar respaldando a candidatura do ex-ministro. Para a deputada e seus seguidores, o candidato do Peruanos pela Mudança é “um mal menor”. Digamos, uma direita que pode ser digerida.

— A esquerda e o fujimorismo são e serão inimigos eternos. PPK representa uma direita mais liberal, que aceita direitos civis como a união civil entre gays — explicou Fernando Tuesta, professor da Universidade Católica de Lima.

POPULISMO COM RESSALVAS

Embora Keiko tenha se comprometido a promover a reconciliação dos peruanos, para a esquerda, apontou o professor, “o passado do fujimorismo, que inclui iniciativas como a esterilização forçada de mulheres indígenas, é imperdoável”. O pai da candidata está preso desde 2007, condenado a 25 anos por delitos de lesa-Humanidade e corrupção.

— No combate à segurança, Keiko tem uma visão mais policial e disse que acionará as Forças Armadas. Existe certo temor de uma volta ao passado — disse Tuesta.

Ciente de suas fraquezas, a candidata do partido Força Popular tentou instalar, durante toda a campanha, a ideia de que seu adversário é “o candidato do mercado e das grandes corporações”.

Keiko assegurou que quando era ministro de Finanças do governo Alejandro Toledo (2000-2006), o candidato “deu o gás da jazida de Camisea — uma das mais importantes do Peru — a uma transnacional”.

— Ele (PPK) é o candidato da continuidade do governo (do presidente Ollanta Humala) — alfinetou a filha de Fujimori, que foi primeira-dama do governo de seu pai aos 19 anos.

Keiko acusou PPK de “promover o ódio e a divisão”. A resposta do rival foi a mesma que deu ao longo da campanha e que buscou manter viva a lembrança do autogolpe de Fujimori em 1992:

— Peço a todos que votem na democracia.

Na época, com a economia em ruínas e seu governo mergulhado no combate à guerrilha Sendero Luminoso, o ex-presidente dissolveu o Parlamento, medida que Keiko teve de assegurar, até o cansaço, que jamais adotaria. Na opinião do professor Steve Levitsky, de Harvard, que no ano passado organizou uma palestra de Keiko na universidade americana, “uma das diferenças centrais entre os dois é que PPK tem uma trajetória democrática e Keiko fez parte de um governo autoritário”:

— Durante a campanha, o comportamento de assessores de Keiko despertou dúvidas. Houve escândalos de manipulação da imprensa.

Para ele, “outra questão essencial é a base social de cada um. PPK é visto como o candidato da elite limenha, e Keiko dos setores mais humildes”. Perguntado sobre o perfil populista da candidata, o professor fez algumas ressalvas:

— Keiko não é populista nos moldes dos governos Perón ou Chávez, ela não tem interesse em atacar as elites.

O futuro do Peru não será o mesmo com Keiko ou PPK. O partido da filha de Fujimori conquistou a maioria parlamentar e daria a sua eventual Presidência um poder quase absoluto. Já o adversário deverá, caso derrote Keiko, buscar acordos com outros partidos e enfrentará, paralelamente, uma oposição forte no Parlamento.

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