No mundo islâmico, divisão profunda sobre o papel do Alcorão nas leis

Enquanto países no Oriente Médio, em especial a Síria e o Iraque, sofrem com uma ameaça impulsionada principalmente pelo fundamentalismo religioso — personificado principalmente no grupo terrorista Estado Islâmico (EI) —, outras nações de maioria muçulmana se dividem profundamente sobre o quanto os ensinamentos do Islã devem influenciar suas leis internas. Numa pesquisa com habitantes de dez países conduzida pelo renomado instituto americano de pesquisas Pew, há países nos quais somente 9% defendem que o Alcorão deva ser adotado estritamente em sua legislação, enquanto outros chegam a 78%.

A pesquisa foi conduzida com dez mil habitantes espalhados em países africanos, do Oriente Médio e do Sudeste Asiático. Nela, cada um — seja muçulmano sunita ou xiita, ou ainda cristão — teve de responder a uma pergunta: “As leis em nosso país devem ser influenciadas pelos ensinamentos do Alcorão?”.

Os que mais demonstraram apoio à adoção estrita das leis islâmicas em sua legislação são o Paquistão (78%) e os territórios não reconhecidos da Palestina (65%). Os dois países têm população islâmica em sua quase totalidade: 97% e 100% se declararam muçulmanos, respectivamente.

A adoção da sharia, que impõe uma série de condutas legais e conservadoras em política, economia, negócios, família, sexualidade, questões sociais e apostasia, já é aplicada com diferente profundidade em dezenas de países — alguns mais brandos, permitindo a adoção pessoal, e outros muito mais estritos, como a Arábia Saudita. Outros dois países mostraram ter uma maioria que defende a adoção estrita dela: a Jordânia (54%) e a Malásia (52%).

Enquanto a maioria nos quatro países defende a adoção de leis que incluem a punição a crimes como adultério, consumo de álcool e drogas e homossexualidade, os demais mostram uma maioria com ponto de vista mais secular, defendendo a laicidade do Estado. São eles Senegal, Nigéria, Indonésia, Líbano e Burkina Faso. Enquanto os dois primeiros ainda possuem mais pessoas que declaram apoio à lei islâmica estrita do que se dizem a favor de uma legislação secular, os demais têm a maioria contra a sharia ou que não quer impor sua religião sobre as próprias leis.

Países com maior convivência têm população mais tolerante

No Líbano e em Burkina Faso, países onde cristãos e muçulmanos de diferentes orientações convivem em boa proporção — apesar de recorrentes confrontos sectários —, a maioria dos questionados defendem que não haja qualquer papel do Alcorão nas leis. Na Turquia, que tem maioria muçulmana, mas desde o início do século XX tentou se estabelecer como um Estado secular, a divisão é proporcional: somados, 74% dos consultados são querem a adoção da sharia.

Na Nigéria, onde tensões provocadas por confrontos civis e grupos radicais como o Boko Haram têm convulsionado a nação africana, a divisão de metade de muçulmanos e metade de cristão cria uma polarização: 42% são totalmente contra a sharia, e 27% totalmente a favor. Apenas 17% se indicam muçulmanos sem desejo de incluir as leis religiosas no país. Os terroristas afiliados têm tratado de inflamar as tensões — com uma cruzada que traz no próprio nome a mensagem de “A educação ocidental é pecaminosa”, o grupo queima escolas e sequestra meninas para torná-las submissas ao islamismo sunita de corrente mais radical, no Nordeste do país.

Se o combate à educação laica é tão importante para o Boko Haram, isto se torna claro em outra estatística: enquanto 29% dos que não concluíram o ensino médio defendem um país laico, 48% dos que o fizeram disseram ser contra a adoção de leis pautas pelo Islã. Processos semelhantes acontecem em Turquia e Burkina Faso, onde a diferença percentual dos que apoiam o Estado laico salta cerca de 20 pontos a partir do momento em que eles completam o ensino médio.

No geral, um padrão que se repete é o da tolerância da juventude: seja na Jordânia, na Turquia ou em Burkina Faso, os índices mostram uma proporção maior de defesa à laicidade por parte daqueles que têm entre 18 e 29 anos.

(Colaborou Breno Salvador)

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