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Modernização transforma região isolada da China

Da redação | 12/05/2016 05:20

DULONG, China – O vale estreito é um dos mais remotos e conservados da China. Macacos, ursos-marrons-asiáticos e o raro takin podem ser encontrados nas selvas locais e nos rios cor de jade. Na primavera, as encostas ficam coloridas com as flores cor-de-rosa das azaleias. Até dois anos atrás, as nevascas bloqueavam a entrada de veículos em boa parte da montanha.

Agora, neste pequeno trecho de terra no extremo leste dos Himalaias, o governo está construindo novas estradas, expandindo as telecomunicações e encorajando empreendimentos comerciais para diminuir a pobreza na região. Li Yingchun, que costumava realizar jornadas de cinco dias através das montanhas cobertas de neve para estudar em um internato, afirmou que a nova estrada asfaltada que inclui um túnel de 7 quilômetros pelas montanhas facilitou muito a vida.

Entretanto, ele teme os efeitos das novas atividades sobre o meio ambiente e a sociedade. Atualmente, uma empresa estatal já começou a construção de duas hidrelétricas no Rio Dulong. Vário hotéis estão surgindo na região.

— Onde existem estradas, existem carros. A atividade humana é grande demais — afirmou Li, ecologista de 29 anos que fez o mestrado em uma universidade estadual.

Inaugurada em 2014, a estrada sinuosa tem ladeiras vertiginosas, curvas fechadíssimas e vive repleta de pedras que caem das encostas. Ela também diminui consideravelmente o tempo de viagem pela região – que agora pode ser atravessada em apenas 3 horas, ao invés de um dia inteiro em uma estrada de terra construída 15 anos atrás e que era instransponível no inverno.

As mudanças que transformaram boa parte da China estão surgindo a um ritmo redobrado no Vale do Rio Dulong. A área é lar de quase todos os mais de sete mil membros da etnia dulong, ou drung, um dos menores dos 56 grupos étnicos oficiais da China. A principal fonte de sobrevivência na Província de Yunnan é o Rio Dulong, que nasce no platô tibetano e flui pelo vale até desaguar em Mianmar, onde se une ao Rio Irrawaddy. Em Yunnan, o rio se estende por 90 quilômetros.

As montanhas de Gaoligong sempre mantiveram o Vale do Dulong afastado, separado do vale do Rio Nu, onde vive um mosaico de grupos étnicos.

Os paredões de Gaoligong desafiaram os pilotos da Segunda Guerra Mundial que sobrevoaram Hump, transportando suprimento das bases indianas utilizadas pelos Estados Unidos e seus aliados para as forças chineses que lutavam contra os japoneses. Muitos aviões caíram na região e seus destroços podem ser visitados em um museu mais ao sul.

Esses picos já não isolam mais o vale, onde os dulong vivem a séculos em vilarejos nas encostas. Não é apenas a nova estrada e o túnel que conectam os habitantes da região ao mundo exterior. A China Mobile instalou serviço de dados móveis 4G em boa parte do vale e fez questão de divulgar a novidade em cartazes espalhados por todo lado. Uma placa que fica na estrada entre as montanhas e Kongdang, o principal vilarejo administrativo, dizia o seguinte: “Tire uma foto das lindas paisagens e transmita para o mundo todo”.

Ao lado do texto, imagens do rio cor de jade e de uma mulher da região com complexos padrões azulados tatuados no rosto, típicos na área.

Em Kongdang, os prédios são blocos de concreto e muitos foram construídos ou reformados nos últimos anos. Eles são pintados de laranja com a silhueta da cabeça de uma vaca com chifres, o totem de Dulong. A estátua de uma vaca fica na entrada da cidade.

— As mudanças foram enormes — afirmou Yang Yi, um homem da etnia han que vive no Vale do Nu e dirige uma van de passageiros há uma década. — Transportes, roupas, o dia a dia – tudo mudou. Se você viesse para cá há uma década, logo reconheceria os dulling com suas roupas tradicionais coloridas. Há uns três anos atrás, eles começaram a usar roupas modernas.

Até mesmo o presidente Xi Jinping percebeu as mudanças. Em janeiro de 2015, Xi se reuniu com sete representantes dos dulong em Kunming, a capital da província, e falou sobre eliminar a pobreza e construir uma sociedade moderna e bem sucedida, de acordo com uma reportagem do jornal oficial.

O que as autoridades do condado e da província querem vender para o resto do mundo é o turismo. O vale tem ficado famoso por suas belezas naturais e muitas agências internacionais reconhecem a Reserva Natural Nacional das Montanhas de Gaoligong como uma biosfera fundamental. A nova estrada facilitou as visitas, mesmo que o aeroporto mais próximo fique a quase um dia de distância.

Durante uma tarde recente, três mochileiros da etnia han, vindos do centro da China, descansavam no último vilarejo antes da fronteira com Mianmar. Pessoas de fora do vale, muitas das quais de outras cidades da província de Yunnan, vieram para trabalhar nos restaurantes e outros serviços que dependem do crescimento do turismo.

No vilarejo de Pukawang, ao sul da cidade administrativa, um grupo de turistas de Xangai foi ao Green Cottage, um hotel butique às margens do rio, inaugurado em outubro do ano passado por um empreendedor de Pequim – como parte de um projeto de combate à pobreza apoiado pelas autoridades locais.

Em uma encosta próxima ao hotel fica o velho vilarejo. As poucas pessoas que ainda vivem lá se sentavam ao redor da fogueira dentro de suas casas de madeira, às vezes bebendo aguardente de milho feita em casa.

O hotel ocupa metade do novo vilarejo. Suas casas e chalés foram projetados por volta de 2012.

As autoridades deram duas novas casas às famílias de Pukawang, uma onde pudessem viver e outra para alugar para que o hotel utilizasse para receber hóspedes. O hotel paga o equivalente a cinco mil yuans, ou US$800 ao ano para cada família. O hotel cobra de US$25 a US$75 por noite dos hóspedes em cada uma das 13 casas alugadas.

Em Pukawang, o hotel tentou empregar os habitantes do vilarejo – como parte do plano oficial de elevar a renda da população local – mas enfrentou dificuldades, de acordo com Yang Yubiao, da etnia bai, vindo da região de Dali.

Três dos nove funcionários do hotel são da etnia dulong, vindos de cidades no vale, os demais vieram de fora, de acordo com Yang:

— As pessoas se cansavam facilmente com o trabalho e acabaram saindo depois de dois ou três dias — afirmou. — O plano de diminuição da pobreza funcionou? Nós ajudamos os dulongs a se comunicar com pessoas de fora, a ganhar dinheiro e a viver melhor.

Mas Yang também afirmou que soube de algumas mulheres de Pukawang que se mataram há alguns anos bebendo pesticida. Ele tem uma teoria:

— Essa era uma sociedade primitiva. Agora a transformação está acontecendo rápido demais. Algumas pessoas não conseguem se adaptar.

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