Militares que apoiaram Chávez agora atacam governo com veemência

CARACAS — Dizem os especialistas militares que o fogo amigo é tão perigoso por causa do fator surpresa — e pela retaguarda descoberta. Algo parecido deve sentir o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ao se dar conta da contundência das críticas que vêm das frentes militares, todas com representantes revolucionários, numa carta aberta divulgada na sexta-feira passada:

“Que cada um assuma sua responsabilidade nesta hora crítica que padecemos. É imprescindível a união de todos para enfrentar tanta enganação, tanta humilhação, tanta mentira e a grotesca tentativa de alguns de se perpetuarem no poder”.

Um grupo de militares rebeldes, que estiveram sob as ordens de Hugo Chávez na intentona golpista de 4 de fevereiro de 1992 — quando tentaram, sem sucesso, derrubar o governo de Carlos Andrés Pérez — voltou a sair a público, agora comandado pelo ex-governador Florencio Porras. No comunicado, extremadamente duro, eles dizem ao país, e sobretudo ao chavismo, que a Venezuela vive “em completo caos, expresso na crise econômica brutal que sofremos, na delinquência que diariamente mata impunemente, no colapso dos serviços públicos e na violação descarada dos princípios constitucionais”.

Entre os signatários, estão os capitães aposentados Luis Eduardo Chacon e Ismael Pérez Sira, além do major reformado Carlos Guyón, que acusam o governo de “criar e falar de guerras e inimigos internos e externos, para cobrir sua inépcia e a corrupção de funcionários e parentes na maior fraude política da História da Venezuela”.

General faz críticas contundentes

Suas críticas se somam ainda à guerra aberta pelo general Miguel Rodríguez Torres, outro dos “heróis” de 4 de fevereiro e ex-ministro de Nicolás Maduro, contra Elías Jaua, ex-vice-presidente e um dos três delegados do governo presentes na minicúpula que acontece na República Dominicana.

— Os venezuelanos que fazem fila são produto de sua gestão (Jaua também foi ministro da Agricultura)… Não há comida, por que será? — disparou o general, que se propõe como uma via alternativa a Maduro dentro da revolução e é um dos militares de mais prestígio dentro das fileiras chavistas.

Rodríguez Torres explodiu contra Jaua depois de o chavista ter publicado uma espécie de história em quadrinhos em que o general aparecia com Henrique Capriles, Leopoldo López e María Corina Machado como se fosse mais um opositor.

— O povo espera diálogos com soluções para a escassez, a inflação e a insegurança — concluiu.

Outro general reformado de extrema importância para o chavismo, Clíver Alcalá, foi ainda mais incisivo em suas críticas contra o “madurismo”.

— Devemos eliminar a anarquia que se instalou, um pequeno grupo que veio para enriquecer — afirmou em entrevista recente para a BBC.

Fidelidade é colocada em xeque

Em outra entrevista, televisionada, o general optou pelo referendo revocatório como saída para a anarquia — inclusive adiantou que, quando chegasse o momento, não votaria pelo “filho de Chávez”.

— O exercício militar Pátria Chavista 2016 e as manobras recentes ordenadas pelo comandante em chefe buscam desesperadamente demostrar lealdade militar a Maduro — ressaltou Rocío San Miguel, presidente da ONG Controle Cidadão para a Segurança, Defesa e Forças Armadas Nacionais.

Lealdade ou ao menos fidelidade que agora são colocadas em xeque, diante das recentes declarações de dentro do próprio Exército. Além dos casos já mencionados, a saída do país de outro militar importante, Hebert García Plaza, completa um panorama nada monolítico. García Plaza — também ex-ministro de Maduro — foi acusado de encabeçar uma tentativa de golpe de Estado da qual nunca mais se soube.

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