Jovens afegãos criam pontos de doação a desconhecidos em Cabul

CABUL – Quando o Muro da Bondade finalmente apareceu em Cabul, pareceu uma ideia cuja hora certa ainda não havia chegado. O conceito é simples: pintar um muro em cores brilhantes, normalmente azul do céu, e decorá-lo com frases sobre como doar aos pobres deixa mais rico quem dá — assim como a quem recebe — e colocar pregos no muro para que as pessoas que passam por ali possam pendurar roupas para quem precisa.

As mensagens nos muros variam – paz, bondade, poesia – mas todos têm esta mesma ordem: “Se você não precisa, deixe aqui; se precisar, leve”.

No final do ano passado, o primeiro Muro da Bondade de que se tem notícia apareceu em Mashhad, no Irã. Nos três meses seguintes, o conceito se espalhou para outras cidades iranianas. Depois, foi ao Paquistão e chegou, enfim, a Xianmen, no sul da China.

Assim que a ideia desembarcou no Afeganistão, espalhou-se rapidamente. Muros para doação apareceram em todos os lugares – nas cidades de Mazar-e-Sharif, Lashkar Gah e Herat, e nas províncias de Faryab, Takhar e Baghlan. Kunduz, a cidade ao norte que ainda tenta se recuperar da devastação sofrida durante a tomada pelo Talibã no ano passado, tinha quatro muros.

Mas em Cabul ninguém parecia interessado na ideia, até que uma menina de 16 anos chamada Halima Behroz viu uma notícia na televisão sobre o muro iraniano.

— Vamos fazer um — ela disse ao seu irmão, Abdul Latif, de 17 anos.

Grafiteiro que vaga pela cidade em grupo escrevendo frases sobre a paz e rabiscando murais, Abdul tinha alguma experiência pintando muros. Ele reuniu Halima e sua equipe — cerca de 20 estudantes com idades entre 14 e 17 anos — para lançar o Lantern Charity Group (Grupo de Caridade Lanterna).

Os jovens antes pediram a permissão dos pais para o projeto. Eles são de famílias de classe média cujos pais apoiam a educação tanto para meninos como para meninas – e mais da metade são meninas.

Entre elas, está Sakina Saidi, de 14 anos. Ela tem dois irmãos mais velhos (“Eles não me dizem o que fazer”) em Cabul, um pai que administra um quiosque de comida no Kuwait e manda dinheiro para casa para pagar a mensalidade de sua escola particular.

O pai de Sakina disse ao grupo que dobraria os fundos obtidos pelos jovens para começar. Então, eles tiraram dinheiro do bolso e das poupanças e logo tinham sete mil afeganes (US$100). Era o suficiente para as tintas spray e os pregos, além do transporte de ônibus da equipe até o muro.

— Meu pai é legal — conta Sakina.

Mas o dinheiro provou ser o menor dos problemas. O dono de um prédio em uma área movimentada na região central de Shar-e Naw, que possuía um convidativo muro vazio em uma rua cheia, recusou-se a deixar que eles usassem o local, dizendo que as pessoas podiam se reunir ali e atrair um homem-bomba. A Universidade de Cabul também não os aceitou afirmando que a ideia iria desfigurar uma propriedade do governo.

Em uma capital inquieta, os jovens ouviram muitas objeções por causa da segurança. Mas estavam aqui, um grupo de estudantes, sem medo. Qual era o problema dos adultos? O último homem bomba, afinal, havia explodido três semanas antes; não era como se acontecesse todos os dias. E Cabul é uma cidade de cinco milhões de pessoas.

Finalmente, na Rua Darulaman, o diretor da escola de segundo grau Habibia permitiu que usassem uma faixa do muro em volta da instituição, uma escola pública, mas de elite, onde o presidente Ashraf Ghani estudou. Eles pintaram o muro de salmão, com inscrições azuis como “Humanidade é meu sonho”, uma frase famosa do poeta que os afegãos conhecem como Maulana, mas que o resto do mundo chama de Rumi. Ele era um Persa do século XIII, mas nasceu em Balkh, que hoje pertence ao Afeganistão.

O diretor da escola, Sayed Shah Bakabuli, não ficou totalmente convencido:

— Dei a permissão porque sei que é por uma boa causa, mas ainda tenho minhas preocupações de que, Deus não permita, seja usado por bandidos.

Mas os jovens tinham outros problemas. Depois que colocaram os pregos, voltaram no dia seguinte e descobriram que alguém havia roubado todos eles.

— Acho que precisavam de pregos — disse Abdul, mas logo recuperou a compostura. — Ok, arrumaremos outros.

Então, por um longo e frustrante período, tinham um Muro da Bondade, mas não muita bondade. Quase ninguém deixava roupas. Outros jovens passavam por ali e zombavam deles.

— Eram provocadores procurando briga — contou um membro do grupo, Ali Roman, de 16 anos, cujo objetivo na vida é ser negociante e ficar rico. Assim, ele terá mais dinheiro para dar aos pobres.

Um dia em março, o grupo tinha poucos clientes, tanto para dar quanto para pegar, no muro da Rua Darulaman, que começa em uma favela miserável, ao lado do fétido Rio Cabul, e termina no velho palácio real, um monumento aos anos da guerra civil com marcas de tiros e bombas. Uma nova fileira de pregos ostentava duas camisetas, uma camisa e um par de calças de camuflagem, além de uma jaqueta.

Então veio o zelador da escola, Muhammad Hashen, de 50 anos, que pegou a camisa para um de seus quatro filhos.

— Não sei quem fez isso, mas é ótimo — afirmou ele, explicando que seu salário era de apenas seis mil afeganes por mês, então ele não podia comprar muitas roupas.

Muros da Bondade em outros lugares foram muito mais bem aceitos. O primeiro do Afeganistão, na cidade de Mazar-e-Sharif, ao norte, está constantemente cheio, com celebridades e funcionários do governo se acotovelando para ser vistos pendurando doações. Tahir Qadiry, executivo de uma televisão local que teve a ideia, colocou prateleiras para sapatos e planeja por estantes para livros também.

Os jovens humanitários de Cabul estavam recentemente discutindo os enigmas de seu Muro da Bondade e tiveram uma ideia. Eles iriam em massa às casas dos moradores ricos.

— Vamos pedir que nos deem suas roupas — contou Sakina.

Assim, eles poderão encher o muro e talvez as coisas comecem de verdade.

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