Já na mira da Justiça, Cristina Kirchner sofre cerco duplo por relação com sócios

BUENOS AIRES – Em mais um capítulo do inferno astral que o kirchnerismo está vivendo nos tribunais argentinos desde que deixou o poder, em dezembro, o juiz Claudio Bonadio — que investiga supostas operações de lavagem de dinheiro e falsificação de documentos cometidas pela sociedade Los Sauces, pertencente à família Kirchner — ordenou pelo menos 11 inspeções em propriedades da ex-presidente Cristina Kirchner ou ligadas a ela. O cerco judicial ao kirchnerismo é cada vez maior: nos últimos seis meses, foram presos os ex-secretários de Transporte, Obras Públicas e o empresário Lázaro Báez, sócio da ex-família presidencial. No total, a Justiça já iniciou processos contra 17 ex-funcionários kirchneristas, incluindo a própria Cristina.

No mesmo dia, a Câmara Federal de Justiça confirmou o indiciamento de Báez e ordenou ao juiz Sebastián Casanello que lidere uma investigação das concessões estatais de obras públicas feitas nos governos kirchneristas ao empresário, que somam cerca de US$ 650 milhões. Apesar de não nomear diretamente a ex-presidente, a decisão pede que sejam investigados todos os funcionários responsáveis pelos contratos, entre eles Cristina.

As buscas solicitadas por Bonadio foram realizadas nas cidades de Rio Gallegos, Calafate e El Chaltén, na província de Santa Cruz, terra natal do ex-presidente Néstor Kirchner e atualmente governada por sua irmã, Alicia Kirchner. Além de imóveis da sociedade Los Sauces, criada em 2006, a Justiça também vasculhou o escritório do contador de Báez e a prefeitura de Calafate. Segundo meios de comunicação locais, foram recolhidos documentos e computadores.

Ex-presidente fala em perseguição política

A denúncia foi apresentada em abril pela deputada e ex-candidata presidencial Margarita Stolbizer. Sua advogada, Silvina Martínez, disse ao GLOBO que, com base nas provas obtidas, há convicção de que Cristina, após a morte de Kirchner (em outubro de 2010), passou a comandar uma organização dedicada a lavar dinheiro proveniente de obras públicas superfaturadas, através do aluguel de imóveis.

— Foi a maneira encontrada pelos Kirchner para receber propina de empresários amigos, favorecidos em licitações. Existiu uma organização criada para lavar dinheiro através destas sociedades.

A sociedade Los Sauces alugou a grande maioria de seus imóveis a Báez e Cristóbal López, que foram, por sua vez, os principais beneficiários de concessões de obras públicas durante os governos Kirchner. Esta semana, Stolbizer pediu a Bonadio e ao juiz Julián Ercolini, encarregado do caso Hotesur — outra sociedade da família Kirchner, dedicada à administração de hotéis de luxo (que alugou quartos a empresas de Báez) — que incorporem o crime de enriquecimento ilícito a ambas as denúncias.

De acordo com Silvina, entre 2010 e 2013, Los Sauces recebeu mais de 100 milhões de pesos (cerca de US$ 7 milhões) “em propinas” de empresários amigos. No ano passado, Bonadio, que durante alguns meses esteve encarregado do caso Hotesur, ordenou inspeções em hotéis da família e no escritório de Máximo Kirchner, filho de Cristina e deputado. O material encontrado ainda está sendo analisado por peritos judiciais. As duas sociedades pertencem a Cristina, Máximo e Florencia Kirchner, a filha mais nova da ex-presidente.

Em meio ao avanço de processos, Cristina permanece refugiada na província de Santa Cruz, e seus filhos evitam aparecer em público. Máximo tem um papel praticamente irrelevante no Parlamento e, desde que chegou ao Congresso, não apresentou um só projeto de lei. Já a ex-chefe de Estado reduziu suas viagens a Buenos Aires e utiliza as redes sociais para reagir às ações da Justiça.

“Faz tempo, décadas diria, que não se via um abuso de poder e perseguição política semelhantes. Este não será o primeiro, nem tampouco o último caso que inventarão. Poderão fazer mil inspeções, poderão televisioná-las, poderão me prender, seu claro objetivo”, escreveu ontem no Facebook em reação às operações determinadas pela Justiça.

A ex-presidente já é alvo de processo por Bonadio no caso de supostas irregularidades no Banco Central e está sendo investigada por Casanello, que tem em seu poder o caso da “rota do dinheiro K”. O juiz foi o responsável pela ordem prisão contra Báez e as inspeções, até debaixo da terra, em campos do empresário e sócio dos Kirchner.

Além de Cristina, também foram alvo de processos pela Justiça o ex-vice presidente Amado Boudou, o ex-ministro do Planejamento e deputado Julio De Vido, e o ex-chefe de Gabinete Aníbal Fernández, entre outros.

— As denúncias sobre corrupção nos governos Kirchner deixaram a população em estado de assombro. Não porque não se pensasse que a corrupção tinha existido, mas sim por descobrir uma metodologia bastante inédita — opinou a analista política Graciela Romer, para quem a popularidade de Cristina, que deixou o poder com entre 35% e 40% de popularidade, despencou. — Seus seguidores são hoje uma minoria.

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