Especialistas discordam sobre novo diálogo de paz na Colômbia

RIO – Antes mesmo do esperado anúncio com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que deveria ter sido assinado na semana passada, o governo colombiano celebrou ontem a abertura de outra frente para a “construção da paz”: o início das conversações formais com o Exército de Libertação Nacional (ELN). As negociações com a guerrilha, a segunda maior do país, foram comemoradas por países da região, pela Unasul e pelas próprias Farc, mas ainda enfrentam obstáculos, como disputas de território e a libertação de reféns. Apesar disso, analistas reconhecem que as condições atuais e os pontos já acordados com a outra guerrilha, as Farc, favorecem um acerto — é a oitava vez que um governo colombiano tenta a aproximação.

Oficialmente, o governo colombiano mantém, desde janeiro de 2014, conversas preliminares buscando uma negociação formal, mas, de acordo com o jornal “El Espectador”, para chegar ao anúncio de ontem foram necessários mais de três anos. Um dos encontros aconteceu no Brasil. Ontem, o Itamaraty elogiou a decisão de formalizar as conversas. “É uma evolução positiva no processo de reconciliação nacional e consolidação da paz na Colômbia”, afirmou, em nota.

Analistas ouvidos pelo GLOBO estão em geral otimistas, mas não sem ressalvas.

— Uma paz para a Colômbia sem a participação do ELN seria uma uma paz frágil — disse o especialista Leon Valencia, ele próprio um ex-combatente da guerrilha. — O avanço das negociações com as Farc, em que pontos difíceis como a questão da justiça foram resolvidos, pode agilizar o processo. Só me preocupo com o início da campanha eleitoral, ano que vem. Espero que um acordo final saia antes disso.

Pedro Medellín, da Universidade Nacional da Colômbia, é mais cauteloso. Embora veja o movimento como positivo, ele acredita haver novos obstáculos, como o que diz respeito ao controle territorial:

— Vai ser um processo igualmente lento, como o das Farc, que deve demorar pelo menos dois anos.

Para Vicente Torrijos, professor de Ciência Política da Universidad del Rosario, no entanto, as negociações com as Farc “estão em ponto morto”, e o governo tenta apenas equilibrar a situação “apressadamente”, numa tentativa “desesperada” de mostrar resultados:

— O governo está improvisando, sem dar o tempo necessário para assimilar as lições do processo com as Farc. Creio que não apenas irá repetir os erros com o ELN, como irá multiplicá-los. Abre-se um novo cenário, sem regras claras e ignorando as condições que ele mesmo mesmo havia estabelecido para iniciar as tratativas — afirma, em referência ao reféns do ELN.

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