Donald Trump, um candidato em campanha contra a imprensa

WASHINGTON – Poucos políticos americanos foram tão favorecidos pela mídia como Donald Trump. E, ao mesmo tempo, poucos políticos se mostraram tão hostis à mídia como Donald Trump. O virtual candidato republicano à Casa Branca, que na segunda-feira revogou as credenciais dos repórteres do “Washington Post” — principal jornal da capital americana —, coleciona desentendimentos e perseguições à imprensa que, segundo especialistas, podem colocar em risco os jornalistas do país e intensificar uma onda global contra a liberdade de expressão.

— Odeio algumas destas pessoas (jornalistas), eu os odeio. Mas nunca iria matá-los. Eu nunca faria isso — disse Trump no fim de dezembro, dando uma mostra de sua opinião sobre a imprensa livre, um dos pilares dos Estados Unidos.

O americano Gene Policinski, diretor do Instituto Newseum (dedicado à imprensa) e do Institute of the First Amendment Center (defensor da Primeira Emenda da Constituição americana, que protege a liberdade de religião, expressão, imprensa e associação), afirma que, na História do país, poucos políticos entraram em enfrentamento aberto com a mídia. Ele diz, porém, que, no mundo atual, quando políticos como Trump — e antes dele, Barack Obama — conseguem atingir diretamente a população com as redes sociais, ficou “menos perigoso e prejudicial” para eles abrir uma batalha contra a imprensa.

— Ter em um grande partido um candidato que tantas vezes desprezou o papel dos meios de comunicação e atacou a figura do repórter é prejudicial. Banir importantes veículos de mídia, impedindo seu direito de informar, é ameaçador. Mas o grande perigo, se Trump for eleito, é seu objetivo declarado de enfraquecer as decisões judiciais que tornam difícil, senão impossível, uma figura pública processar com sucesso a imprensa sobre alegada difamação — disse Policinski ao GLOBO.

Impacto internacional

O especialista afirma que a imprensa deve agir como o “cão vigilante” da sociedade. Ele acredita que o risco à integridade dos jornalistas poderia ocorrer nos momentos dos discursos ou de grande convulsão, como é esperado na Convenção Republicana de Cleveland, em julho, quando o magnata deverá ser oficializado candidato. O evento poderia repetir a convenção democrata de 1968, quando 20 jornalistas foram agredidos em Chicago. Outros estudiosos temem impactos internacionais:

— Líderes autocratas de todo o planeta devem estar sorrindo de orelha a orelha a cada gesto de Donald Trump, que concorre ao cargo mais poderoso do mundo, contra a imprensa livre — afirma Carlos Lauría, diretor do Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ) e coordenador para as Américas do organismo sediado em Nova York.

Lauría afirma que este posicionamento de Trump pode dar mais força a atos contra a imprensa livre cometidos em países como Turquia, Rússia, Etiópia, Equador e Hungria. Além disso, internamente, as atitudes de Trump, diz ele, podem causar autocensura e um risco desnecessário a jornalistas, que podem ser hostilizados por seus apoiadores.

O CPJ e outras instituições já emitiram notas de repúdio aos atos do candidato, visto como ameaça “real e negativa”. E não foram poucos episódios desse tipo em 12 meses de campanha do magnata — completados no dia 16 de junho, três dias após Trump proibir o “Washington Post” de acompanhar seus eventos alegando que o jornal foi “desonesto” na cobertura após o atentado de Orlando.

Sua campanha também proibiu veículos como “Politico”, “Huffington Post”, “BuzzFeed”, “Gawker”, “Foreign Policy”, “The Des Moines Register” e o “The Daily Beast”. Trump deixou de ir a um debate alegando que a apresentadora da Fox News “o perseguia”. Expulsou Jorge Ramos, da rede de TV Univisión, de um comício. E seu chefe de campanha foi acusado de, intencionalmente, “causar hematomas” em uma repórter da “Breitbart News”. O magnata também debochou de um jornalista do “New York Times” com deficiência física. Na opinião de Trump, veículos abandonaram a integridade em nome de cliques na internet.

Mídia beneficiou magnata, diz estudo

Mas os cliques favorecem Trump. Um estudo do respeitado Shorenstein Center, da Universidade Harvard, nos EUA, divulgado na segunda-feira, indicou que o republicano foi, de longe, o mais beneficiado nas exposições positivas. Segundo o levantamento, em oito veículos, Trump obteve, apenas no ano passado, o equivalente a US$ 55 milhões (cerca de R$ 200 milhões) em “publicidade gratuita”, levando em conta a cobertura noticiosa positiva ou neutra. Este valor é muito acima dos demais candidatos. “Nossa análise subestima significativamente o valor da exposição de Trump, porque foi baseada em somente oito veículos de comunicação. O senador Ted Cruz (ex-pré-candidato republicano) pode estar certo quando diz que a cobertura da mídia de Trump equivale a US$ 2 bilhões (R$ 7,6 bilhões) em compra de anúncios”, diz o documento.

Emissoras transmitem, diariamente, discursos de Trump na íntegra — e não são tão benevolentes com outros candidatos. Seu apelo junto à população — o bilionário é uma celebridade e foi apresentador de reality shows — garante um espaço maior. E é isso que Dana Milbank, um dos principais colunistas de política do “Washington Post”, quer combater:

“Trump ganhou a nomeação (republicana) usando o que os britânicos chamam de tática ‘gato morto’: Jogar o animal morto sobre a mesa, e então as pessoas só vão falar disso. Trump manteve-se assim um passo à frente dos cães de guarda da mídia”, escreveu, defendendo o fim das coberturas ao vivo de seus discursos e das entrevistas por telefone na TV, além de uma rigorosa verificação de seus discursos.

— Há episódios recentes da História americana que mostram que um presidente pode ser muito prejudicial para a imprensa. Falo de Richard Nixon, que não parou de usar subterfúgios, como espionagem e intimidação, para tentar controlar a mídia — diz Juan Carlos Hidalgo, analista do Centro Global de Liberdade e Prosperidade (Cato), em Washington.

Especialistas temem impactos mesmo no Judiciário. Afinal, se vencer em novembro, Trump não apenas controlará o país mais poderoso do mundo: ele poderá indicar juízes para a Suprema Corte, bastião da Constituição e, assim, da imprensa.

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