CM7

     
 
 
Manaus, 19 de outubro
Mercado financeiro
Dólar
Euro
 
 
Home / Últimas Notícias / Mundo / Depois da guerrilha, o difícil retorno à vida civil

Depois da guerrilha, o difícil retorno à vida civil

Da redação | 16/05/2016 05:20

CALDAS, COLÔMBIA — Mélida tinha apenas 9 anos quando guerrilheiros a atraíram com a promessa de comida enquanto brincava; nos sete anos seguintes, foi refém dos rebeldes, forçada a se tornar uma criança-soldado. A família achava que ela havia morrido em algum combate. Mélida, de repente, voltou para sua cidadezinha, aos 16 anos, carregando uma pistola e uma granada. Somente o avô a reconheceu, graças a uma marca de nascença no rosto.

No dia seguinte, os militares cercaram sua casa, chamados por um informante que queria uma recompensa por sua cabeça.

— Descobri que meu pai havia me delatado — recorda-se ela, agora com 20 anos, que pediu que seu sobrenome não fosse revelado por medo de represálias.

A Colômbia se aproxima de um acordo de paz com os rebeldes, dando fim a meio século de luta. Mais de 220 mil pessoas foram mortas, deixando o país amargamente dividido sobre qual papel, se é que há algum, os ex-rebeldes podem ter na sociedade uma vez que deixem as armas por uma vida nova fora da selva. Isso inclui milhares de combatentes rebeldes que foram criados desde a infância para integrar a luta armada. Mélida, por exemplo, diz que está presa entre dois mundos e não pertence a nenhum deles.

Os rebeldes, conhecidos como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) dizem que não recrutam crianças. No entanto, durante uma recente visita do “New York Times” a um de seus acampamentos, pelo menos seis soldados, que não pareciam ter mais de 15 anos, disseram terem sido recrutados apenas alguns meses antes.

Mélida disse que seus captores procuraram-na chamando sua atenção, dizendo que tinham sopa na canoa, e levaram-na a um acampamento distante. Ela acordou ao lado de várias outras crianças, todas com cerca de dez ou 11 anos.

O pai de Mélida, Moisés, estava fora na época e só voltou para a aldeia mais de um mês depois. Ele logo foi ao acampamento para tentar encontrar a garota, mas o comandante lhe disse que ela não estava lá

Na verdade, um comandante de cerca de 40 anos se interessou por ela. Um dia, quando ela tinha 15 anos, chamou-a para lavar as roupas em sua tenda.

— Imagine acordar ao lado de alguém dessa idade quando você é tão jovem — disse.

Aos 16 anos, pediu permissão ao comandante para visitar a família. Ficou surpresa quando ele concordou. Carregando a pistola e a granada, ela voltou para o que seria um breve encontro.

— Disse à primeira pessoa que vi que era filha do Sr. Moisés, e eles disseram que não era possível, porque ela estava morta — contou.

Mélida diz que não sabe por que seu pai a entregou aos militares no dia seguinte. Moisés deu uma explicação:

— Queria comprar uma moto.

Depois de duas semanas, Mélida foi levada para um centro de reabilitação do governo para jovens que haviam deixado as FARC. As aulas e tarefas diárias, para ajustá-los à vida civil, eram novidade para ela, que continuava pensando na guerra.

— Quando me levantava, ia pegar meu rifle embaixo da cama e percebia que não havia nada lá — contou.

À noite, ela saía do centro com um homem chamado Javier, cuja mãe, Dora, era cozinheira lá. Ele tinha uma história ruim com os rebeldes: em 2004, seu irmão foi morto por um atirador.

Esses novos laços começaram a mudá-la. Conheceu suas duas primas, María e Leila, também ex-membros das Farc que haviam deixado o centro.

Um dia, o anticoncepcional de Mélida falhou e ela ficou grávida. Sua filha, Celeste, nasceu no ano passado.

Recentemente, sua prima Leila cometeu suicídio. Mélida às vezes visita seu túmulo.

Dora diz que Mélida é forte demais para tirar a própria vida, mas tem medo que ela retorne à guerrilha.

— Ela é uma boa mãe e coloca a filha em primeiro lugar, mas também me diz que está entediada e que não gosta desta vida. Eu lhe digo que, se quiser ir embora, pode ir. Mas tem que pensar na menina. Peço que deixe Celeste comigo.

Anuncie em Nossas Pesquisas
Anuncie em Nossas Pesquisas

FAÇA SEU COMENTÁRIO SOBRE ESTA NOTÍCIA