De ex-prefeito de Londres a estrela do Brexit

LONDRES — Boris Johnson é uma figura que parece confundir os analistas britânicos. Para uns, ele não passa de um palhaço narcisista que sabe dominar uma plateia, mas não deve ser levado a sério. Para outros, o parlamentar e ex-prefeito de Londres é um dos mais brilhantes estrategistas a surgir na cena política local nos últimos anos e suas ambições não podem ser desprezadas. O populista Boris (ninguém o chama pelo sobrenome), ou BoJo, como preferem os tabloides, se transformou na maior estrela da campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, tema que será decidido em plebiscito no próximo dia 23. As pesquisas mostram um eleitorado dividido, com ligeira vantagem para o grupo que defende a permanência na UE, encabeçado pelo premier David Cameron. A única certeza, por enquanto, é que o embate entre Boris e Cameron vai decidir o futuro do Partido Conservador e, provavelmente, do governo britânico.

A adesão de Boris à campanha pelo Brexit — junção de Britain com exit (saída) — complicou a vida de Cameron e acentuou o racha entre os conservadores. Os dois se dizem amigos, mas têm uma rivalidade histórica. Estudaram juntos em Eton, escola só para meninos famosa por receber os membros da nobreza e por formar futuros primeiros-ministros, e na Universidade de Oxford. Cameron, mais disciplinado, saiu com notas melhores, mas perdeu feio no quesito popularidade. Boris, sua cabeleira loura desgrenhada, sua disposição para debater em público e desconcertar os rivais com piadas sempre hipnotizaram o público. Um de seus ex-chefes, Conrad Black, ex-proprietário do grupo de mídia Telegraph quando Boris era jornalista, o definiu como uma “raposa em pele de ursinho de pelúcia”.

FATOS DISTORCIDOS

Embora ele não assuma publicamente, analistas apostam que Boris quer disputar o cargo de premier. Nas últimas semanas, o político, de 51 anos, dominou o noticiário sobre o plebiscito. Ao criticar os poderes da UE, a qual considera uma instituição tirana, o ex-prefeito comparou o bloco a Hitler e Napoleão, que também tentaram criar impérios. Para ele, a crise na Ucrânia não é culpa da Rússia, e sim resultado das fracassadas políticas de defesa da UE. E para provar o quanto a soberania estaria ameaçada pelas ordens de Bruxelas, apelou, alegando que pelas regras europeias é proibido vender cachos de banana com mais de “duas ou três unidades”.

Não é verdade, mas esse tipo de estratégia não chega a surpreender. Ele começou a carreira como jornalista e ficou conhecido por distorcer os fatos. Mesmo assim, virou uma celebridade como correspondente do “Daily Telegraph” em Bruxelas nos anos 90, quando escrevia artigos de grande repercussão contra a Comissão Europeia. Na volta a Londres, mostrou ser imbatível em talk-shows e virou editor da “Spectator”, a revista semanal dos conservadores, que lhe abriu as portas da vida política. Ao ser eleito prefeito da capital, muitos previram uma administração desastrosa, mas depois de dois mandatos — sempre pedalando para chegar ao trabalho — deixou o cargo com índices de aprovação acima de 50%. Apesar das controvérsias, Boris é, em geral, recebido como ídolo quando desembarca do ônibus da campanha pelo Brexit. Suas gafes alimentam memes, como uma exibição de rugby em que deveria mostrar suas habilidades, mas acabou passando por cima de um menino de 10 anos, que ficou estirado no chão.

—Ele ajuda a campanha porque chama a atenção para a causa dos que defendem a saída da UE. O problema é que tende a exagerar as alegações, e o resultado é a perda de credibilidade. Ele é um eurocético, mas a decisão de aderir ao Brexit foi baseada no desejo de ser o próximo líder do Partido Conservador — diz Martin Smith, professor de Política da Universidade de York.

A imigração é um dos principais temas do debate em torno do plebiscito. Embora sempre tenha se declarado a favor, Boris, que tem pais ingleses, raízes turcas e passaporte americano, vem repetindo que, se não saírem do bloco, os britânicos enfrentarão o aumento descontrolado de imigrantes. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, comparou-o ao republicano Donald Trump, ao ultradireitista francês Jean-Marie Le Pen e ao político italiano Beppe Grillo, conhecido pelas piadas racistas. No Twitter, Juncker atacou: “2017 com Trump, Le Pen, Boris Johnson e Grillo? Um cenário de horror que deixa claro por que vale lutar contra o populismo”.

Na cidade de Bristol, ativistas do grupo We are Europe (Nós somos a Europa) pintaram um mural onde se vê Trump e Boris se beijando. A pintura “O beijo da morte” é uma tentativa de convencer os eleitores jovens a participar do plebiscito.

— As pesquisas estão apertadas. Não votar significa ajudar o voto pela saída da UE e por um mundo em que esses dois caras estarão no poder — disse Harriet Kingaby, porta-voz do coletivo.

Boris já definiu Trump como “ignorante” por suas declarações contra muçulmanos. No entanto, ele também foi acusado de preconceito ao sugerir que o presidente Barack Obama tem aversão ao Império Britânico devido às suas raízes quenianas. Obama defendeu a permanência do Reino Unido na UE, advertindo que é o bloco que fortalece a liderança global britânica.

No livro “Just Boris” (Apenas Boris), a jornalista Sonia Purnell, que trabalhou com o ex-prefeito no “Telegraph” em Bruxelas, o descreve como “o mais incomum, porém atraente político da era pós-Tony Blair”. A biografia, que irritou o parlamentar, retrata um homem inconsistente, que encara a vida como uma competição e tem um inexplicável poder de sobreviver a crises. Em entrevista à BBC, sua irmã, Rachel, contou que o irmão nunca aceitou derrotas. Quando era pequeno e lhe perguntavam o que queria ser, respondia: “Rei do mundo”.

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