Cubanos começam a descobrir o mundo

HAVANA — O novo fenômeno de cubanos que vão ao exterior ajuda na abertura da ilha. Nunca tantos deles viajaram para outras nações, seja por trabalho, turismo ou parcerias. Na volta, trazem novidades que, aos poucos, contribuem com a incipiente globalização do país. O acesso à informação e à realidade de outras sociedades ajuda a criar um grupo mais crítico de cidadãos.

Este fenômeno se soma aos pontos de wi-fi, que há um ano começam a trazer o mundo para dentro de Cuba. As restrições contra as viagens começaram a ser abrandadas há dois anos e, apesar do crescimento, ainda persistem. Nem todos os cubanos podem sair da ilha. Só quem consegue passaporte. Militares, por exemplo, não podem, e quem está ligado à oposição enfrenta dificuldades. Porém, um número maior de cubanos consegue passaporte e dinheiro para viajar. E este grupo passa a ter acesso a mais informações.

— Nunca vi tantos cubanos viajando ao exterior, apesar de não existir um número claro de quantos são os turistas. Meu irmão viajou pela primeira vez ao México no mês passado e ficou maravilhado. Os cubanos sempre se interessaram em conhecer o mundo, e isso é importante para Cuba — afirmou o comediante Roberto Riverón, que a cada 45 dias, em média, vai a Miami e é dono do bar 3D, no Malecón cubano. — Viajar ajuda a abrir a cabeça das pessoas e facilita que tenhamos negócios e serviços com padrão internacional, como tento aplicar no meu bar.

ACESSO MELHOR À INFORMAÇÃO

As viagens têm ajudado na abertura da ilha. Riverón lembra que antes as pessoas só tinham como fonte de informação o governo cubano, agora há a internet, o relato das pessoas que foram para fora e o paquete: serviço de TV offline que, por 2 CUCs semanais (cerca de R$ 8,60), fornece programação de TV internacional gravada em um HD ou em um pendrive. O esquema inclui milhares de pessoas e conta com a vista grossa do governo. Com o paquete, os cubanos podem ter acesso a praticamente todos os filmes, shows, e programas da TV mundial.

Dados de 2014 mostram que o número de cubanos viajando para o exterior cresceu 35% em relação ao ano anterior. Os principais destinos são Miami, México e Espanha. Quem viaja estima que o movimento é irreversível:

— É como uma bola de neve, pode pará-la, mas não dá para fazê-la voltar morro acima — disse Riverón.

Em geral, os cubanos preferem ir para Miami, onde têm parentes, e à Europa. Os EUA fascinam por serem um “país proibido” por muito tempo. A hospedagem na casa da família facilita a viagem, que apenas de passagem pode custar US$ 400, caro por um voo de menos de uma hora e inacessível à imensa maioria.

— Fui em setembro ver o meu irmão em Miami e voltei em fevereiro. Só pude ir porque ele pagou a passagem. Mas é muito bom viajar, conhecer um país mais desenvolvido, abre nossos horizontes — afirmou a estudante Camelia Castro, de 23 anos.

MÉDICOS NO EXTERIOR

A flexibilidade com o turismo se soma às facilidades criadas pela Espanha para a obtenção de cidadania. Outra forma de acesso ao exterior são as missões médicas de cubanos. Milhares de profissionais já viajaram a países como Brasil, Peru, Venezuela, Bolívia e a nações africanas. Em alguns casos, os cubanos voltam para casa com uma poupança que utilizam para reformar a casa, abrir um pequeno negócio ou sair novamente de férias.

— Fiquei um bom tempo no exterior, juntei dinheiro que me permitiu arrumar a minha casa e fazer uma viagem à Europa — disse um médico que preferiu não se identificar.

Outros, contudo, lembram que as comparações não são sempre negativas para Cuba. Quando visitam parentes em Miami, por exemplo, alguns não têm vontade de ficar, pois contam com acesso à habitação e à educação na ilha, inexistente nos EUA.

— Já estive no Peru, na Bolívia, em Angola e na Nicarágua e vi que Cuba tem muitas coisas boas, nosso sistema de saúde, de educação e segurança que não existe nesses países — contou a enfermeira aposentada Marisel Aiala.

Mas se, por um lado, a liberalização das viagens permite a alguns cubanos ter uma visão mais correta de outras nações, por outro, escancaram a crescente desigualdade que surge na ilha com as transformações capitalistas. Um grupo de habitantes se ressente de não participar desta leva de mudanças, principalmente por não ter recursos.

— Há uma classe emergente em Cuba que pode viajar e conhecer o mundo. Mas não faço parte dela e não sei se vou me integrar a este mundo um dia — afirmou um funcionário estatal cubano que preferiu não se identificar e que tem sua vida em pesos cubanos e não em CUCs, a moeda conversível e com paridade ao euro, utilizada pelos turistas. — Estou fora desta festa.

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