Conquista de Trump deve unir republicanos ao seu redor

WASHINGTON – Mais uma vez contrariando todas as previsões, Donald Trump conseguiu, ainda em maio, obter o número necessário de delegados republicanos para ser indicado candidato à Casa Branca. Todos os analistas — e o próprio magnata — imaginavam que isso aconteceria somente na convenção, em julho, ou então após as primárias da Califórnia e de Nova Jersey, em 7 de junho. Mais do que uma questão de calendário, isso mostra a força que o bilionário tem neste momento, justamente quando sua provável oponente — a democrata Hillary Clinton — aparece mais fraca na campanha.

— As pessoas que nos apoiam nos permitiram superar a barreira — afirmou Trump na Carolina do Norte, numa espécie de agradecimento acompanhado no palco por delegados que declararam apoio ao empresário.

Odiado pela cúpula republicana e em grande parte da campanha atacando a estrutura partidária, Trump, por ironia, conseguiu chegar ao número de 1.238 delegados — um a mais que o necessário, segundo levantamentos de veículos como AP e CNN — justamente graças aos membros do partido que podem votar livremente na convenção. Mas a adesão ao bilionário não tem ocorrido por ideologia, mas por pragmatismo: o movimento indica que a legenda está se unindo em torno do nome dele à medida que as pesquisas mostram que Trump realmente tem chances de vencer e fazer o grupo voltar ao poder depois de oito anos de governo do democrata Barack Obama.

— Há uma piada nos meios políticos que diz que os democratas estão caindo de amores (por Hillary), enquanto os republicanos estão caindo em fileiras (por Trump) — afirmou ao GLOBO o estrategista republicano Geoffrey Kabaservice, autor de livros sobre o partido. — Quanto mais ele consegue mostrar que pode derrotar Hillary, mais o partido fica propenso a apoiá-lo, apesar de ainda haver muitos desafios a serem superados.

Kabaservice lembra, ainda, que a nomeação neste momento gera desafios extras para os democratas. Hillary tem aparecido em disputa apertada com Trump nas pesquisas eleitorais, tem que enfrentar a acusação de que “violou” as normas de e-mail sigilosos quando era secretária de Estado de Obama e deve enfrentar novos ataques de Bernie Sanders, seu oponente pela indicação democrata.

— Mais do que nunca, Sanders vai explorar que, segundo as pesquisas, ele é o melhor nome para barrar Trump — ressalta o estrategista.

Bilionário ironiza crítica de Obama

Obter os delegados necessários é fundamental para Trump evitar qualquer manobra de última hora para tirar sua nomeação. Até o início do mês, esta era a estratégia da cúpula do partido: dividir os resultados das primárias para que o bilionário chegasse a Cleveland sem “o número mágico”, o que permitiria uma convenção aberta e a escolha de um outro político como candidato, com o argumento de que Trump era rejeitado pela maioria dos delegados. Mas não funcionou. No total, o bilionário venceu 16 postulantes, alguns renomados — Jeb Bush e John Kasich — e jovens lideranças, como Marco Rubio.

— Não tenho dúvidas que todo o partido vai se unir em torno de Trump. Isso sempre acontece — afirmou ao GLOBO Clifford Young, presidente para a área de relações públicas para os EUA do instituto de pesquisas Ipsos. — Prevejo uma disputa muito apertada: cada um começará com 50% de chance de vitória.

Parte do sucesso de campanha de Trump se deu com polêmicas, como a proposta de construir um muro na fronteira entre o México e os EUA, proibir muçulmanos no país, deportar 11 milhões de imigrantes ilegais, insultar mulheres, ironizar deficientes e fazer promessas populistas, como “imprimir mais dinheiro”, além de defender armas nucleares para Japão e Coreia do Sul se contraporem à Coreia do Norte. Estas declarações geraram fortes reações — que, em vez de afetá-lo, o fortaleciam. E isso aconteceu ontem, novamente. E desta vez com ninguém menos que Barack Obama e os outros seis presidentes mais poderosos do planeta.

— Muitas das propostas que ele (Trump) faz mostram uma ignorância nos assuntos internacionais ou uma atitude sem preparo, apenas para ganhar manchetes e tuítes — afirmou Obama, no Japão, onde participa do encontro do G7, que reúne as sete nações mais ricas do mundo.

Obama acrescentou que Trump gera “preocupação” nos líderes mundiais, que não sabem se devem levar o que ele diz a sério. Trump, mais uma vez, ironizou esse posicionamento.

— Que bom que os líderes mundiais estão preocupados! — provocou o magnata.

A reação de seus oponentes foi forte. Sanders, que quer se firmar como melhor candidato anti-Trump, pode enfrentar o bilionário antes das prévias de 7 de junho. O republicano disse, na noite de quarta-feira, que teria interesse em participar de um debate com o senador, considerado socialista por defender valores social-democratas. “O jogo começou. Mal posso esperar para debater com Donald Trump na Califórnia antes do dia 7 de junho”, escreveu o senador em sua conta do Twitter.

Hillary, que por sua vez desistiu de debater com Sanders antes da primária da Califórnia, disse não acha que um debate entre Trump e o senador vá acontecer:

— Não soa como discussão séria. Eu estou ansiosa para debater com Trump na eleição geral.

Ela criticou o bilionário:

— Foi confirmado que Donald Trump conquistou o número de delegados que precisava. Isto significa que teremos um canhão incontrolável, sem mira certa, ao alcance do trabalho mais poderoso do mundo.

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