Colombianos comemoram cessar-fogo definitivo com as Farc

RIO – A voz de Rodrigo Londoño, o Timochenko, falhava em um discurso emocionado ao anunciar o “último dia da guerra” na Colômbia, ontem, em Havana. Na cerimônia, o líder máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, apertaram as mãos, sorrindo, após assinar o acordo que determina o cessar-fogo definitivo e bilateral, depois de mais de três anos de negociações. Um dos pontos mais importantes e surpreendentes do pacto foi a aceitação, por ambas as partes, do mecanismo de validação do acordo final pela Corte Constitucional — que agora debate a constitucionalidade de uma consulta popular.

— Isso significa, nem mais nem menos, o fim das Farc como grupo armado — disse Santos, garantindo que o acordo final será assinado na Colômbia. — Foram mais de 30 anos de tentativas de pôr um ponto final ao conflito, e hoje demos o passo mais definitivo nessa direção. Felizmente, viramos esta trágica e longa página da nossa História.

Com isso, as Farc renunciam a mais de meio século de luta armada, que deixou 260 mil mortos e seis milhões de deslocados. A data para a assinatura definitiva, no entanto, não foi definida — Santos esperava fazer o anúncio no dia 20 de julho, dia de independência do país, mas analistas são mais céticos. Mesmo assim, Timochenko garantiu que será em um prazo “relativamente breve”.

O pacto, denominado “Fim do conflito”, inclui o abandono de armas — em três fases —, garantias de segurança e luta contra as organizações criminosas classificadas como “sucessoras do paramilitarismo”. Foram estabelecidas 23 zonas de concentração de guerrilheiros para a progressiva reintegração à vida civil, à qual serão incorporados “sem armas e como civis”. As áreas também não poderão ser utilizadas para “manifestações de caráter político”. Após a assinatura do acordo final, a guerrilha tem 180 dias para a deposição de armas.

Para Maria Victoria Llorente, diretora-executiva da Fundação Ideias para a Paz e membro do conselho consultivo do Instituto Igarapé, o grande desafio agora diz respeito às zonas onde as Farc atuam e têm influência em atividades como a mineração ilegal e o narcotráfico.

— O grande desafio é controlar não só as zonas de localização das tropas, mas os territórios onde a guerrilha tem uma presença preponderante — afirmou Maria Victoria ao GLOBO, lembrando que o país tem um longo histórico de desarmamento de grupos ilegais. — Trata-se do acordo de desarme mais preciso e pormenorizado que a Colômbia fez até agora. Cumpre praticamente todos os padrões internacionais existentes, com participação da comunidade internacional no processo.

Essa é a quarta tentativa de selar o fim do conflito, após três grandes fracassos: em 1984, 1992 e 1999, com os presidentes Belisario Betancur, César Gaviria e Andrés Pastrana, respectivamente. No centro de Bogotá, centenas de colombianos comemoraram após acompanhar o ato em um telão.

— Tenho 76 anos, vivi esta guerra durante toda a minha vida, e nunca pensei que chegaria o momento em que se assinaria a paz — disse Graciela Pataquiva, professora aposentada, com os olhos marejados. — Posso dizer que já posso morrer em paz.

Em Havana, estiveram presentes o presidente Raúl Castro e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, além de chefes de Estado da região, como o venezuelano Nicolás Maduro e a chilena Michelle Bachelet.

— É um passo gigantesco porque a paz na Colômbia é a paz de toda a região — disse Maduro.

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