Canadenses lutam para reabrir fazendas em prisões de Ontario

KINGSTON, Ontario — É fácil distinguir quem está há pouco tempo entre as condenadas à pena perpétua na fazenda de gado e porcos de Jeff Peters. Pintadas de preto e branco, as 14 vacas leiteiras da raça holstein contrastam nitidamente com o rebanho regular castanho do gado limousin nos estábulos abertos de inverno. De certo modo, as vacas leiteiras são ex-condenadas. Peters é um dos oito fazendeiros da província de Ontario que, há mais de cinco anos, aloja os animais remanescentes de uma manada leiteira que vivia em uma fazenda anexa a um complexo prisional existente na região há 85 anos. Na maior parte desse tempo, os fazendeiros — com centenas de moradores locais e algumas celebridades — vêm lutando para reabrir a fazenda e mandar as vacas para casa.

Anos de protestos semanais e levantamento de fundos não levaram a nada. Em outubro, no entanto, o Partido Liberal derrotou o governo conservador que havia fechado a fazenda. Apesar de os novos governantes ainda precisarem se comprometer de maneira mais firme, o novo membro liberal do parlamento da região de Kingston já fez campanha para trazer as atividades da fazenda de volta para a prisão. Peters e o resto dos manifestantes têm uma sensação crescente de que seus esforços serão finalmente recompensados.

Em um recente dia de inverno, em um estábulo dividido com um punhado de galinhas barulhentas, Peters alimentava um dos novos membros da manada da fazenda da prisão: Terry, uma filhote imensa.

— Eu realmente adoro quando elas são desse tamanho. Ela vai voltar para a prisão um dia desses. É uma coisa triste de se dizer a um filhote: ‘Você vai acabar em uma cadeia’. Mas a verdade é que, nesse caso, ela pertence àquele lugar — conta Peters.

O complexo prisional, a Instituição Collins Bay, tem sede em um prédio com estilo que lembra vagamente um castelo coberto com um incoerente telhado vermelho. Várias fazendas que são parte dele funcionam desde que a prisão abriu, em 1930. Em 1962, a Fazenda Anexa Collins Bay, que depois passou a ser chamada de Instituição Frontenac, foi montada para a reabilitação de presos de baixo risco. O complexo hoje abriga 551 prisioneiros em vários níveis de segurança.

Ao longo dos 48 anos em que a fazenda funcionou, os prisioneiros limparam os estábulos e alimentaram as vacas e as galinhas, e muitos ficaram acordados noites sem fim para ajudar no nascimento dos bezerros. Nos últimos anos da fazenda, uma operação de processamento e embalagem feita pelos presos forneceu leite e ovos para todas as prisões federais de Ontario e Quebec, bem como para algumas cadeias de províncias.

Nunca ficou claro por que os Conservadores fecharam essa e mais cinco fazendas nas prisões em todo o Canadá em 2010, além de algumas discussões sobre os custos. O movimento seguiu outras medidas, como proibir que os prisioneiros tivessem noites da pizza, pelas quais eles mesmos pagavam. Pareciam ter a intenção de eliminar qualquer noção de que a vida na prisão era boa. O ministro responsável pelas cadeias naquela época, Vic Toews, declarou que os programas nas fazendas eram ineficazes para reabilitar os prisioneiros. “

— Menos de 1% aprendeu qualquer habilidade relevante — disse aos repórteres.

Para Peters, a rejeição das fazendas pelo ministro foi uma declaração de guerra.

— Foi um insulto que perdurou. Desde então, eu me senti determinado a consertar o que achamos que é um grande erro — afirma Peters, de 64 anos, sentado à mesa de jantar de sua casa de fazenda de madeira em South Frontenac, a cerca de um quilômetro e meio ao norte de Kingston.

Outras pessoas nesta cidade de cerca de 160 mil moradores no Lago Ontario – mais conhecida por ser um local que abriga cinco prisões, edifícios de pedra e a Universidade Queen –, também ficaram insatisfeitas. A região da fazenda de 338 hectares está hoje cercada de shoppings, concessionárias e condomínios residenciais de subúrbio, e muitos residentes temiam que as terras tivessem o mesmo destino.

Grupos que trabalhavam com os prisioneiros, como a ordem da Igreja Católica Sisters of Providence, uniram-se em uma campanha para proteger o que acreditam ser uma maneira efetiva de reabilitação. Muitos manifestantes acharam que faltou uma visão mais ampla na hora de fechar as fazendas.

— Mesmo gente que eu conheço que era do partido conservador em maior ou menor escala afirmou que não fazia sentido fechar as fazendas das prisões. Alguns gostavam da ideia de os presos fazerem trabalhos braçais para ajudar a pagar os custos do sistema prisional — diz Dianne Dowling, que tem uma fazenda de corte e leite em uma ilha do Lago Ontario.

Pat Kincaid passou 47 anos na cadeia por vários crimes, e saiu há sete – o que ele atribui aos 3 anos e meio que passou trabalhando com as vacas na fazenda. Ele começou limpando os estábulos e gradualmente ganhou mais autonomia, trabalhando de manhã até a noite na maioria dos dias. Ele se lembra da euforia que sentiu quando um bezerro, que aparentemente havia nascido morto no meio da noite, finalmente começou a respirar.

— As vacas me ensinaram a ter paciência. Elas me ensinaram a ter responsabilidade. Me ensinaram como tomar conta de alguém que não iria me apunhalar pelas costas — afirma Kincaid, de 64 anos.

Ele hoje trabalha como zelador, e diz, brincando, que se a fazenda da prisão reabrisse “iria roubar um banco e esperar sentado pelos policiais para poder voltar para Frontenac”.

Os protestos iniciais terminaram depois de um bloqueio sem sucesso de dois dias dos caminhões trazidos para levar as vacas para um leilão e com a prisão de cerca de 24 pessoas acusadas de tentativa de crime. Mudando de tática, os manifestantes formaram uma cooperativa para comprar as vacas da fazenda, na esperança de que elas sejam devolvidas um dia.

Entre aqueles que as compraram, ao preço de 330 dólares canadenses cada (R$ 800), está a escritora canadense Margaret Atwood e Conrad M. Black, o antigo barão da imprensa canadense. Black se tornou uma espécie de defensor dos direitos dos prisioneiros depois de passar 37 meses na cadeia por obstrução da justiça. A cooperativa conseguiu dinheiro suficiente para comprar 23 vacas.

Desde o fechamento, Peters levou para sua fazenda bezerros, vacas prenhas e algumas que não dão mais leite. As vacas leiteiras foram distribuídas entre os fazendeiros que, sob o rígido sistema de controle de laticínios do Canadá, possuem quotas para produzir leite. Entre as vendas de bezerros machos, mortes e nascimentos (os novos bezerros têm os nomes dos manifestantes que foram presos), a manada agora tem 29 vacas.

Um oficial do governo recentemente visitou a fazenda em Collins Bay.

— Entendemos o valor do programa de fazendas nas prisões e acreditamos que possa ajudar muito na reabilitação, na empatia e no treino de habilidades e a promover a segurança pública. Vamos avaliar o custo e a viabilidade de reabrir o programa — escreveu Ralph Goodale, ministro de Segurança Pública, por e-mail.

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