‘Brexit é batalha entre egos’, diz biógrafa de ex-prefeito de Londres

LONDRES – Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e um dos líderes da campanha pelo Brexit, se tornou uma figura internacional durante a disputa de hoje, destacando-se nos debates e comícios que marcaram o referendo. Ele é apontado como candidato à sucessão de David Cameron, seu colega de partido. Autora de um biografia sobre o político (“Somente Boris”), a jornalista Sonia Purnell o classifica como um oportunista cuja única meta é o número 10 de Downing Street.

O desempenho de Boris Johnson na campanha pelo Brexit foi surpreendente ou quem acompanha sua carreira sabe exatamente o que esperar dele?

Ele tem se mostrado mais focado e, de uma certa maneira, mais disciplinado que o usual. Ao comparar a UE a Hitler, por exemplo, ele sabia que teria imensa cobertura da mídia, apesar de sua declaração ser irresponsável. Enxergar Boris como um político preguiçoso é um equívoco. Ele nunca se mostrou tão energético porque essa é a primeira vez que participa de uma campanha visando abertamente ao cargo de premier. E ele sabe que essa é sua última grande chance de conseguir isso.

O mais importante para ele é o lugar de Cameron, e não sua convicções contra a UE?

Conheço Boris há muito tempo e acompanho sua carreira há anos. Ele não é, no fundo, alguém que acredita no Brexit. Mas não haveria uma vaga para ele como candidato a premier no campo pró-UE, somente no campo pró-Brexit. Quando foi prefeito de Londres, era um defensor da imigração, basta relembrarmos o que ele dizia. É muito difícil você administrar Londres e não ser pró-imigração, porque trata-se de uma cidade de imigrantes. Ele próprio nasceu nos EUA, tem raízes turca, francesa e alemã e sua mulher é filha de uma indiana. Se analisarmos sua carreira política, fica claro que ele nunca teve nenhuma grande bandeira, a não ser o corte de impostos para os ricos. Às vezes é um ecologista, às vezes não. Depende de com quem está falando. É a mesma coisa em relação à UE. O discurso varia de acordo com a audiência.

A disputa entre Cameron e Johnson, que tem uma longa história de amizade, foi ficando cada vez mais ferrenha. Essa guerra pode ter afastado os eleitores?

Acho que sim. Para alguns eleitores, essa não foi uma disputa sobre a Europa e sim uma batalha entre dois egos. Principalmente por causa de Boris, que trava uma disputa centrada em sua própria personalidade. Era inevitável que ele acabasse se destacando desse jeito. Cameron até tentou se distanciar dessa briga focada entre duas figuras conservadoras, mas Boris parecia querer massacrá-lo. Ele chamou o premier de “demente”. Isso não é pouca coisa. É seu estilo, mas ele nessa campanha foi além. Cameron sempre tentou mostrar que eles eram amigos, mas agora podemos dizer que são inimigos.

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