Autoridades afegãs dependem da produção de ópio

GARMSIR, Afeganistão – Os Estados Unidos gastaram mais de US$ 7 bilhões nos últimos 14 anos para combater a produção desenfreada de papoula que fez do ópio afegão a maior marca do mundo. Dezenas de milhares de dólares a mais foram gastos em programas de controle e contenção da corrupção e no treinamento de uma força policial confiável. Muito dinheiro e milhares de vidas foram perdidas para a principal motivação da guerra: colocar o governo afegão no comando de centros distritais e impor o Estado de direito.

Mas aqui, em uma das únicas áreas da província de Helmand que é pacífica e firmemente controlada pelo governo, as hastes verdes e os bulbos inchados do ópio cresciam firmes e fortes, no raio de visão de edifícios públicos, durante a última temporada da papoula – sinais de um narcoestado local administrado diretamente por autoridades do governo.

No distrito de Garmsir, o cultivo da papoula não é apenas tolerado, mas o governo local depende dele. As autoridades impuseram um imposto aos agricultores praticamente idêntico ao que o Talibã usa em territórios sob seu controle. Parte das receitas segue para os altos escalões e chegam até Cabul, garantindo que o controle local seja mantido com apoio de seus superiores e que o ópio continue sendo plantado. E Garmsir é apenas um exemplo do envolvimento oficial no tráfico.

Em várias visitas ao interior do país no ano passado, longas entrevistas com produtores de ópio, anciãos locais e autoridades afegãs e ocidentais mostraram que, mesmo que o governo apoiado pelo Ocidente seja bem-sucedido, o ópio parece ter chegado para ficar.

Mais do que nunca, autoridades do governo afegão estão diretamente envolvidas no seu comércio, expandindo a competição com o Talibã — que vai além da política e se transforma em uma luta pelo controle do tráfico de drogas e de suas receitas. Em nível local, a situação muitas vezes parece uma guerra entre quadrilhas de traficantes, mesmo agora que tropas americanas voltam para a batalha em nome do governo, particularmente em Helmand, no sul do Afeganistão.

— Existem fases de cumplicidade do governo, começando com o estabelecimento dos agricultores e, depois, com a cooperação com eles. A última fase é predatória, quando o governo essencialmente assume o negócio por completo — disse David Mansfield, pesquisador que conduziu mais de 15 anos de trabalho de campo sobre o ópio afegão.

PROCESSO ENRAIZADO

A administração do presidente Ashraf Ghani transformou o combate à corrupção em seu principal compromisso. Um porta-voz de seu governo, quando perguntado sobre o envolvimento oficial com o tráfico de ópio, inclusive em Garmsir, insistiu que há “tolerância zero” para tal comportamento.

— O presidente foi decisivo ao agir contra o envolvimento de autoridades do governo em atos ilegais, incluindo a tributação do ópio — disse o porta-voz Sayed Zafar Hashemi.

Mas, em Garmsir e em outros lugares no cinturão do ópio de Helmand, o sistema está bem estabelecido e é muito consistente. Ele depende de uma rede de líderes de aldeias e dos empregados de agricultores que coordenam o abastecimento de água, conhecidos como mirabs. Estes homens inspecionam as terras cultivadas e coletam dinheiro em nome das autoridades, tanto do governo local quanto de Cabul.

As conexões chegam até o governo nacional, reconhecem alguns funcionários em particular. Em certos casos, o dinheiro é passado para senadores ou membros da Assembleia com ligações regionais; em outros, funcionários do Diretório Independente de Governança Local, agência que supervisiona os governos provinciais e distritais, ficam com a renda, segundo autoridades. Alguns dos líderes mais importantes da polícia e da segurança regionais — incluindo aliados do exército e da inteligência americanos — estão intimamente ligados ao comércio de ópio.

No entanto, grande parte do dinheiro quase sempre fica no local, com as autoridades provinciais e distritais. No caso de Garmsir, o governador de distrito e o chefe de polícia ficam com a parte do leão, de acordo com funcionários e agricultores — e a polícia também participa dos lucros.

Os agricultores disseram que pagam cerca de US$80 por cada hectare de papoula cultivado. Em 2015, isso significou quase US$ 3 milhões somente no distrito de Garmsir. E a quantia que pode ser ganha só está aumentando. Especialistas dizem que imagens de satélite feitas na última temporada de plantio no sul de Helmand mostraram que o cultivo de ópio acontecia abertamente e às vistas das forças armadas e da polícia.

— Ao longo dos anos vi o governo central, o governo local e os estrangeiros todos falando muito a sério sobre a papoula. Na prática, ninguém faz nada e, nos bastidores, o governo faz acordos secretos para enriquecer — disse Hakim Angar, ex-chefe de polícia da província de Helmand.

ACORDOS LUCRATIVOS

A cumplicidade do governo no comércio de ópio não é nova. Os facilitadores do poder, que muitas vezes trabalham para o governo, há tempos operam nos bastidores, produzindo, refinando e contrabandeando ópio ou heroína através das fronteiras pouco controladas do Afeganistão. Este tipo de corrupção é visto em todo o país.

A tributação em nível distrital nos principais centros de cultivo do ópio, no entanto, é menos comum. A maioria dos que falam sobre o assunto o fazem em condição de anonimato com medo de represálias. Quem fala abertamente, costuma ter recursos suficientes para enfrentar o contra-ataque oficial.

O distrito de Nad Ali, próximo da capital provincial de Lashkar Gah parece menos organizado que Garmsir ou Marjah. Em abril, passando por fazendas em áreas controladas pelo governo, grande parte da plantação de papoula havia sido arada por causa da colheita precoce ou porque as plantas estavam tão doentes que os produtores não viram razão para mantê-las.

Os agricultores de Nad Ali disseram que a arrecadação dependia de uma série de fatores, incluindo a relação com o comandante da polícia local, a proximidade do centro distrital e a saúde das culturas. Em alguns casos, as equipes enviadas pelo governo para erradicá-las coletam o dinheiro. Em outros, isso ficou a cargo da polícia local ou nacional.

Os pagamentos variavam entre US$ 180 e US$ 200 para cada hectare, de acordo com seis agricultores.

— Todos os nossos pés de papoula foram afetados pela praga. Os pagamentos dependem do quanto é cultivado e da parcela que foi destruída pela doença — disse um agricultor de Loy Bagh, na área de Nad Ali.

O sistema em Garmsir, no entanto, parece mais controlado. Mais distante da capital provincial do que Marjah ou Nad Ali, o distrito goza de maior autonomia do que a maioria dos controlados pelo governo.

Entrevistas realizadas em março passado, antes que a praga aparecesse, mostraram um sistema de adaptação confortável. Os agricultores não estavam felizes em pagar ao governo, mas a maioria via o fato como inevitável.

— Sabemos que as autoridades vão exigir dinheiro — disse Juma Khan, agricultor de 35 anos de Garmsir, dando de ombros.

O sistema começou a enfrentar problemas em maio, quando dois membros do parlamento tomaram conhecimento do processo. Quando seu pedido de participação nos lucros foi negado, eles denunciaram o esquema.

Autoridades em Cabul rapidamente demitiram o governador do distrito, o chefe de polícia e o diretor da inteligência, acusados de dividir o lucro. Em uma pequena cerimônia, o vice-governador de Helmand devolveu maços de dinheiro aos agricultores em frente à sede do governo provincial e prometeu acabar com esta exploração.

As autoridades afirmaram que todo o dinheiro havia sido devolvido aos agricultores e que os responsáveis foram afastados do poder — mas nem tudo era verdade.

O governador do Garmsir – que, em uma entrevista, negou ter criado ou coletado estes impostos – foi discretamente transferido para Washir, um distrito vizinho. Voltou alguns meses depois e assumiu seu antigo posto. Funcionários do governo em Cabul disseram que ele havia sido inocentado de qualquer delito após uma investigação minuciosa.

Uma visita posterior revelou uma segunda inconsistência: os agricultores disseram ter recebido apenas metade do dinheiro de volta. Mesmo assim, foi uma boa quantia. Afinal de contas, tinham perdido quase metade de sua colheita por causa da praga.

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