As desventuras de um estrangeiro para produzir vinho na China

PEQUIM — Visionário (ou louco, para muitos), um executivo inglês abandonou a carreira no mercado financeiro e os confortos da cidade grande para dedicar-se a um projeto no mínimo curioso: produzir bons vinhos no interior da China — um país sem qualquer tradição nesta seara. Comprou terras na Costa Norte da província de Shandong, para onde se mudou, a quase três horas de carro de Xangai, não muito distante da Coreia. Plantou 13 tipos de uvas diferentes, construiu as instalações da vinícola, saiu em busca de mão de obra especializada e ergueu um imponente castelo escocês no meio do nada. Este seria o quartel-general da sua companhia, a Treaty Port Vineyards.

As belas aventuras e as múltiplas agruras de Chris Ruffle mostram uma síntese da China: um país em franco crescimento, o eldorado no imaginário coletivo ocidental, que ainda tem o desafio de enfrentar os problemas de uma nação em desenvolvimento. Foram parar no livro “A decent bottle of wine in China” (“Uma garrafa honesta de vinho na China”, em tradução livre), que ele acaba de lançar na capital. A ideia inicial era fazer uma espécie de diário de viagem, na mesma linha de “Um ano na Provence”, de Peter Mayle. Mas muitas histórias tornaram-se sombrias.

— Hoje, deixa eu bater na madeira, acho que a coisa se estabilizou. Me arrependi várias vezes. Tentei ver o lado positivo sempre, mas não foi fácil — disse ao GLOBO, em conversa em uma livraria de Pequim, onde veio promover o livro e seus vinhos.

O empresário sentiu na pele uma China que poucos estrangeiros viram, e nem todos os chineses conhecem. Levou seis anos para produzir a primeira garrafa, e três para ter o seu “autêntico” castelo — que acabou ficando sem a bandeira da Escócia no mastro da fachada principal. Por restrições locais, acabou substituída por uma bandeira vermelha com um dragão. Enquanto viu a economia do país crescer a dois dígitos, o mercado consumidor explodir e o gosto por vinhos aumentar, descobriu que o seu potencial bom negócio era ameaçado várias vezes pela burocracia, regras (escritas, ou não), tempestades e diferenças culturais. As dezenas de tributos a que o empreendimento estaria sujeito cairiam de maneira significativa depois de um farto jantar regado a boa bebida com autoridades locais.

— Quanto mais copos e mais longa a conversa, a lista de impostos ia sendo cortada, item por item, a lápis, até cair pela metade — conta.

‘NÃO HÁ O QUE FAZER’

Chris perdeu toneladas de uvas e vinho porque o francês que contratou para administrar a produção pedira demissão logo após a primeira safra, e porque os barris que mandou fazer na China, sob encomenda, para acomodar a bebida foram entregues com atraso e defeitos de fábrica. Pediu o dinheiro de volta. Depois avisou ao fornecedor que só pagaria a diferença que faltava se as peças fossem consertadas. Viu a sua conta no banco congelada e a ameaça de um processo judicial. Perdeu a briga.

A excentricidade do castelo custou-lhe dinheiro, tempo e noites em claro. Acostumados ao passo acelerado das construções contemporâneas, os trabalhadores locais têm o hábito do concreto, não da pedra, como queria Chris. Durante a obra, fizeram greve de um ano. Foram embora antes de concluir o serviço. E, recentemente, ele soube que, a despeito do fato de a região estar se tornando um pequeno polo viticultor, não há como impedir a passagem de uma autoestrada que cortará um pedaço da visão idílica que achou que poderia manter para sempre. Na China, é assim. O progresso não pode parar. Chegou a procurar uma autoridade local.

— Afundado num sofá, com um cigarro na mão, ele me disse que não havia o que fazer. Quando falei em pôr uma faixa na propriedade com algo na linha “Abaixo a autoestrada. Pela proteção ao meio ambiente”, avisou que não era boa ideia. Ia criar confusão e alguém podia se machucar.

Segundo Chris, a corrupção também pesou nestes anos. Hoje menos, mas, quando importa uísque escocês para servir no castelo — onde hospeda turistas, organiza casamentos, festas e mantém um restaurante — tem que deixar duas garrafas para “análise” do pessoal da aduana.

Como outros lao wai, como são chamados os forasteiros, Chris tem uma tumultuada história de superação para contar. Hoje, 12 anos depois, da biblioteca decorada com itens trazidos diretamente da Escócia, sente o cheiro das uvas fermentando no subsolo, onde estão as barricas, e finalmente aproveita o que construiu. Ele reconhece mudanças importantes: o investidor estrangeiro tem mais facilidades que antes e a corrupção diminuiu. Desde que assumiu o poder, em 2012, o presidente Xi Jinping lançou uma grande cruzada contra a corrupção no país. Milhares de funcionários públicos foram afastados ou presos.

Depois dos primeiros prêmios de excelência — ainda restritos aos concursos chineses — para os seus vinhos, tem na lista de clientes membros do Partido Comunista (mais discretos com as compras desde as políticas de combate à corrupção) e sonha em expandir os negócios. Agora, segundo ele, há concorrência. Franceses também estão de olho na China para fazer vinho. A produção local esteve limitada por muitos anos a três gigantes nacionais. Sobre a qualidade do produto, ainda distante do que os conhecedores considerariam muito bom, diz que persegue um novo tipo de vinho com a cara da China, que possa ser harmonizado com pratos do país.

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