Artigo: Os jihadistas nigerianos podem ser derrotados?

Em dezembro passado, Muhammadu Buhari, presidente da Nigéria, declarou que “tecnicamente, ganhamos a guerra” contra o Boko Haram, grupo insurgente que aterroriza o país já há sete anos. O discurso de Buhari veio depois de os militares terem expulsado o Boko Haram do território que tinha conquistado entre 2014 e 2015. Mas, cinco meses depois, está claro que foi prematuro o pronunciamento da vitória do presidente.

Hoje, o Boko Haram já não ocupa extensas regiões da Nigéria. Em vez disso, virou um grupo de bandidos bem organizados. O avanço dos militares transformou a ameaça do Boko Haram, mas não a eliminou. Na verdade, vencer o grupo pode ser uma meta quixotesca. Mas existem maneiras concretas para a Nigéria minimizar a ameaça imposta pelos militantes.

O Boko Haram não é sombra do grupo proselitista que foi há 15 anos, ou do exército semiguerrilheiro de dois anos atrás. Com os combatentes frequentemente mortos pelos militares, o Boko Haram tem recorrido a sequestros em massa e extorsão para reabastecer as fileiras. Os membros do núcleo-duro inspirados puramente pela devoção a uma visão jihadista estão sendo reforçados por crianças-soldado, recrutas forçados e criminosos.

Como a ideologia se tornou menos importante para o recrutamento, outros incentivos — dinheiro e empregos, permissão para saques e dispor de mulheres — tornaram-se os maiores atrativos. Como resultado, o grupo agora parece gastar tanto tempo com o banditismo quanto com a luta contra “a educação ocidental”. Quando funcionários do Conselho de Segurança Nacional entrevistaram prisioneiros do Boko Haram, eles disseram que a maioria dos militantes “nunca leu o Alcorão”.

Isto não significa que Boko Haram não é perigoso. O grupo ainda tem o potencial de atacar regiões dos vizinhos da Nigéria — Camarões, Chade e Níger. E a promessa do Boko Haram de fidelidade ao Estado Islâmico, feita em março de 2015, poderia atrair jihadistas estrangeiros à África Ocidental.

Algo deve mudar se a Nigéria quiser resolver adequadamente o problema colocado pelo Boko Haram. Os militares não podem permanecer em pé de guerra para sempre sem transformar o país num Estado policial. Os três estados do Nordeste da Nigéria mais afetados pela insurgência estão em estado de emergência há três anos. Os militares estão sobrecarregados. Em julho de 2013, o tenente-coronel Sambo Dasuki, assessor de Segurança Nacional do então presidente Goodluck Jonathan, revelou que militares foram enviados a 28 dos 36 estados da Nigéria.

Muitos políticos e especialistas em contraterrorismo dizem que os militares, sozinhos, não podem derrotar o Boko Haram, e que o desenvolvimento econômico é necessário para parar o extremismo violento. Como o general Martin Luther Agwai, ex-chefe do Gabinete de Defesa, disse: “É uma questão política; é uma questão social; é uma questão econômica, e até que estas questões sejam abordadas, os militares não vão poder dar uma solução.” Pode ser verdade, mas medidas para melhorar a economia vão levar anos, ou mesmo décadas para ter efeito. No curto prazo, a Nigéria tem que encontrar outra maneira.

Por agora, o país pode usar o programa de desradicalização para acabar com a fonte de jovens desencantados que o Boko Haram recruta. Em seguida, os militares podem continuar lutando contra os ideólogos inveterados que não são suscetíveis a depor as armas voluntariamente. Mas eles não são toda a solução. A estratégia degradará significativamente a capacidade do Boko Haram de realizar ataques terroristas maciços, mas não vai garantir a harmonia. O Boko Haram pode eventualmente tornar-se semelhante ao Exército de Resistência do Senhor, de Uganda: um grupo de veneração religiosa, errante, que ataca periodicamente. Isto seria um problema, mas não seria uma ameaça existencial para o país.

Max Siollun é escritor nigeriano

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