Artigo: Je suis cansada de tudo isso

PARIS — Quando me mudei para a Europa, há doze anos, minha maior preocupação era saber se falaria um francês decente algum dia. Praticamente todos os norte-americanos que eu conhecia vieram me visitar, muitos dizendo que também sonhavam em morar ali. Não me preocupava muito com os partidos políticos de extrema direita ou com a União Europeia. Certamente não temia o terrorismo.

Parece que foi há séculos.

Um dos fatos mais perturbadores sobre os ataques em Bruxelas, na terça-feira passada, foi a pouca surpresa que causaram. Um dia antes, o ministro do Interior da Bélgica tinha ido a uma rádio nacional para avisar que seu país enfrentava uma ameaça palpável e iminente.

No dia seguinte, membros do Estado Islâmico detonaram bombas em um dos saguões de partida do Aeroporto de Bruxelas e em uma das principais linhas do metrô da cidade. Juntas, mataram pelo menos trinta pessoas e deixaram 300 feridos.

Uma mulher de 47 anos contou ao jornal francês “Libération” que, depois de ver a explosão no metrô, fechou os olhos e disse a si mesma: “Então é isso. Estou no atentado de que estamos falando há meses.”

Uma amiga belga comentou que, no jantar daquela noite, a filha de 14 anos explicou:

— Na escola a gente sabia que Bruxelas seria o próximo alvo. Os terroristas só esperaram a gente baixar a guarda.

A foto mais simbólica da violência mostrava os sobreviventes caminhando em um túnel, às escuras, pelos trilhos do metrô. A imagem representa bem o atual pesadelo europeu: você está lá, fazendo compras, indo para o trabalho, fazendo o check-in no aeroporto – e, de repente, não está mais.

É difícil se ajustar a essa nova realidade. Um médico de pronto socorro me confessou que, antes dos ataques em Paris, em novembro passado – quando diversos grupos usaram coletes suicidas e Kalashnikovs para atirar nos clientes de vários cafés e em uma casa de shows –, muitos de seus colegas nunca tinham visto ferimentos a balas. E os poucos casos que tinham atendido geralmente eram casos de suicídio com fuzis de caça.

Para os europeus, Bruxelas era um lugar sem graça em que ninguém pensava muito — a não ser que tivesse que fazer uma conexão ali. Havia até uma brincadeira no qual o maior desafio era dar o nome de dez belgas famosos.

“Bruxelas, a capital antifanatismo atacada por fanáticos”, dizia a edição de quarta-feira do “Libération”. “Bruxelas é aquela prima que, para todo mundo, basta saber que continua existindo”.

Logo após um atentado, é fácil dizer que tudo parece diferente. As pessoas estão horrorizadas. Os pais deixam os filhos em casa, com medo de mandá-los para a escola. Nos jornais, as manchetes dizem “A Europa em Guerra”. Começa a busca tristemente familiar por um bordão. Desta vez, preferi as batatas fritas belgas arrumadas para parecer a mão de alguém mostrando o dedo do meio e, logo abaixo, a frase: “Je suis cansado de toda essa…”, concluída com um palavrão.

Em breve, porém, para a maioria, a vida volta ao normal. Inauguraram algumas lanchonetes especializadas em sucos no meu bairro; a loja de departamentos Le Bon Marché está fazendo uma exibição com o ícone norte-americano da moda, a excêntrica Iris Apfel. A Europa ainda tem várias belas capitais cortadas por rios.

Os franceses, em especial, estão decididos a agir como se nada tivesse mudado muito. No fim de 2015, assustada pelas notícias que diziam que as escolas poderiam ser alvos dos próximos ataques, mandei um e-mail para o comitê de pais e mestres do colégio dos meus filhos, sugerindo que, dada a ameaça, deveríamos nos reunir para discutir como melhorar a segurança.

Quando quase ninguém respondeu, fiquei pensando se não estava tendo uma reação exagerada tipicamente norte-americana. Um pai me explicou, na calçada mesmo, que as escolas devem ser lugares abertos. O próprio diretor falou que, a princípio, não via razão para mudanças. Poucos meses depois, um grupo de pais se organizou para lidar com um tipo de crise bem diferente: a garotada do segundo ano ainda não tinha aprendido a conjugar o verbo “être” (ser/estar em francês).

A verdade é que a Europa parece, sim, um lugar diferente do que era há um ano. E não é só por causa da ameaça de bombas em malas: tem também a crise que vem atingindo o continente todo de uma vez. Mais de um milhão de imigrantes e refugiados chegaram aqui nos últimos quinze meses, a grande maioria da Síria, Afeganistão e Iraque – e não importa que essas pessoas estejam fugindo de uma violência muito pior do que a estamos vendo na Europa, também perpetrada pelo Estado Islâmico. Os partidos de extrema direita estão se fortalecendo cada vez mais por demonizá-los.

PROVA DE FOGO

Tudo isso serve de teste para saber se a União Europeia – que a maior parte das pessoas aqui já chegou a ignorar – vai se manter unida. Em junho, os britânicos decidem se continuam no bloco. Em pesquisa recente, a maioria dos franceses manifestou o desejo de fazer a mesma coisa.

Embora os governos anunciem novos – e preocupantes – poderes para frear o terrorismo, não conseguem entrar em um acordo para compartilhar informações vitais, não sabem como os membros das células terroristas franco-belgas se comunicam entre si e não concordam em como transliterar os nomes estrangeiros para rastrear os suspeitos de uma fronteira a outra. Salah Abdeslam, que ajudou a orquestrar os ataques de Paris, conseguiu sair do país logo em seguida. Quatro meses depois foi encontrado escondido em Molenbeek, bairro onde foi criado, em Bruxelas.

Esse é um dos fatos mais difíceis de aceitar: europeus atacando suas próprias pátrias. Cerca de 5 mil cidadãos da União Europeia lutam na Síria, a maioria originária de basicamente quatro países: França, Alemanha, Reino Unido e Bélgica, onde levava uma vida comum. Abdeslam, aparentemente, só foi pego porque a polícia reparou em um pedido de entrega de pizza excepcionalmente grande. O plano dos três homens que perpetraram o atentado no Aeroporto de Bruxelas se atrasou um pouco porque a empresa de táxi mandou o carro errado para levá-los até lá.

Até as motivações são reconhecíveis: segundo o ProPublica, um militante belga que estava treinando na Síria ligou para a mãe para perguntar o que o pessoal de Molenbeek andava falando sobre o amigo de vinte anos que se explodiu no Stade de France:

— O que estão falando dele? Estão elogiando? Dizendo que foi corajoso?

Os europeus estão mais vigilantes. Um amigo em Berlim contou que, em uma viagem recente que fez para Dusseldorf, tanto os passageiros como os funcionários ficaram nervosos quando ninguém apareceu para pegar uma mala deixada perto de uma das portas do trem. Um esquadrão antibomba aguardava na parada seguinte e informou aos passageiros que todos seriam levados para uma área de segurança. Foi então que o velhinho turco, dono da mala, acordou e a abriu para revelar uma pilha de roupas.

Apesar de tantos alarmes falsos, é difícil não se manter vigilante. Toda hora eu me pego fazendo os cálculos existenciais mais triviais: vale a pena se arriscar indo ao cinema? Devo deixar as crianças pegarem o metrô para ir à escolinha de futebol? O dia a dia adquiriu tons contraditórios: em um minuto você está no ônibus, apreciando a vista do rio; no outro, já está de olho no cara que leva uma mochila exageradamente grande.

Com isso, a vida dos europeus de pele escura, na casa dos vinte e poucos anos, ficou difícil. A discriminação já era problema antes do terrorismo; agora, os atos grotescos de um punhado de pessoas pioraram a vida de milhões. Ouvi a história de um passageiro do metrô de Paris que, exasperado pelos olhares desconfiados que recebia no metrô, começou lentamente a esvaziar a bolsa que levava só para garantir aos outros passageiros que não tinha bomba nenhuma.

Conforme a “fantasia europeia” se desfaz, quase não recebo mais visitas de estrangeiros. Uma prima que veio de Nova York outro dia disse que sua viagem a Paris era um ato solidário. Minha mãe quer que eu deixe a França de vez.

Os franceses estão aprendendo a viver com mais segurança. Há guardas fazendo revista – ou pelo menos dando uma boa olhada – na entrada de teatros, cinemas e lojas de departamentos. Os alunos do ensino médio podem fumar no pátio da escola porque é arriscado demais deixá-los sair. Há uma grande polêmica em relação à proposta do governo – que, aliás, parece pouco poder fazer para acabar com os ataques – de tirar dos terroristas condenados à nacionalidade francesa.

Desde o atentando em Bruxelas, os europeus começaram a exigir medidas mais práticas. Já estão consultando especialistas em segurança israelenses. E se discute um compartilhamento maior de informações entre os governos. A manchete de capa de quinta-feira do “Le Parisien” foi: “O que precisa mudar agora” – mas a verdade é que, para todo mundo aqui, muita coisa já mudou.

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