Artigo: Hillary Clinton tem apenas o bocejo dos ‘millennials’

Uma candidata conquistou a indicação de um dos grandes partidos pela primeira vez na História dos Estados Unidos. Ninguém parecia dar a mínima — pelo menos entre os membros de minha geração, os “millennials”. Nem mesmo as mulheres, embora elas devessem se importar.

Talvez meus contemporâneos estejam distraídos com Donald Trump: “millennials” progressistas podem pensar que seja mais vital evitar uma era de autoritarismo do que impulsionar uma nova etapa do feminismo. Com certeza fomos distraídos por Bernie Sanders: para jovens eleitores idealistas, um revolucionário agitado e estimulante é mais reconfortante que uma política pragmática, mesmo que ela tenha dois cromossomos X.

Atualmente, nos campi das universidades, a discussão recorrente é sobre a “interseccionalidade”, a ideia de que diferentes formas de discriminação são capazes de interagir e se sobrepor umas às outras. Logo, para muitos eleitores de minha geração, ser mulher pode não parecer suficiente, especialmente se você for branca, heterossexual, rica e, por sinal, uma Clinton.

Um sobrenome como esse traz consigo uma bagagem enorme, e Hillary foi bastante criticada por políticas defendidas por seu marido durante sua passagem pela Presidência, numa época em que os eleitores mais jovens desta eleição não tinham nem mesmo entrado na escola. Detratores destacam reformas no combate ao crime e no sistema de bem-estar social que tiveram um peso maior sobre os negros do que sobre qualquer outro grupo — e pelas quais Hillary já se desculpou.

Agora, enquanto Hillary defende uma extensão das políticas dos últimos oito anos ao contrário do revisionismo radical de Sanders, muitos “millennials” estão convencidos de que ela sempre se alinhará com o centro do status quo — qualquer que seja ele no momento.

Mas há algo que eles não percebem.

Muitos “millennials” têm mais facilidade em esculhambar Hillary por seus erros do que elogiá-la por seus acertos como primeira-dama. Eles não conseguem enxergar o quão incríveis tais acertos foram para uma primeira-dama na época, e também não conseguem entender por que ela não foi mais longe — quando é impressionante que ela tenha conseguido chegar aonde chegou.

Ao contrário de suas antecessoras, Hillary não pediu aos americanos que dissessem “não” às drogas ou à alfabetização. Em vez disso, ela se esforçou para reformar o sistema de saúde. Colocar a primeira-dama num escritório poderoso na Ala Oeste em vez de relegá-la às tarefas da tradicional Ala Leste foi uma manobra inédita.

Na época, Hillary recebeu críticas da direita por ultrapassar os limites de seu papel como primeira-dama e tomar parte na política. Agora, ironicamente, ela é alvo de meus amigos “millennials” na esquerda por, bem, ter se envolvido em política.

Hillary não era vista como uma ameaça somente por ser uma mulher: ela também era muito progressista. Durante o governo de Bill Clinton, críticos a acusavam de empurrar o marido para a esquerda. Bill prometera um pacote “pague um e leve dois”. No entanto, quando a oferta desanimou os eleitores, foi a vez de Hillary retroceder. Ela era, afinal, apenas a mulher do presidente.

Hoje, em outro momento irônico, as visões ideológicas de Hillary são um problema para muitos dos “millennials” pela razão oposta: ela não é, em sua visão, progressista o suficiente.

Minha geração subestima não apenas os esforços de Hillary no passado, mas também sua importância no presente. Nossas mães enfrentaram barreiras de gênero, e suas mães enfrentaram barreiras ainda maiores. Nos anos 1960 e 1970, quando muitas de nossas mães eram crianças, a carreira mais óbvia para uma mulher era a de dona de casa. Para aquelas que trabalhavam fora, os salários eram cerca de 60% dos pagos aos homens.

Mulheres da minha geração, por outro lado, cresceram sendo ensinadas — inclusive por nossas mães — que podiam fazer qualquer coisa. E na maior parte dos casos, isso se mostrou verdadeiro. Quando assistimos ao noticiário quase sempre há uma âncora, muitas vezes apresentando uma reportagem sobre outra mulher. Em qualquer ano na década de 1970, havia no máximo 19 mulheres na Câmara, e duas no Senado — incluindo um período de quatro anos sem uma mulher sequer. Em novembro, a soma de mulheres na Câmara e no Senado ultrapassou 100 pela primeira vez na História.

Nossos pais podem ter ficado surpresos — e nossas mães provavelmente ficaram contentes — com o fato de Hillary ter conseguido um escritório na Ala Oeste. Já nós vemos o dia em que uma mulher ocupará o Salão Oval como algo inevitável.

Por isso, a necessidade de que a ocupante do salão seja Hillary Clinton, ou de que isso aconteça no início de 2017 parece menos urgente. E a ideia da primeira mulher concorrendo à Presidência por um dos grandes partidos do país é recebida com um bocejo coletivo por parte dos “millennials”.

Molly Roberts se formou no mês passado pela Universidade de Harvard e é estagiária da seção de editoriais do “Washington Post”

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