Após queda de avião, França faz varredura no Charles de Gaulle

PARIS — A queda do avião da EgyptAir reavivou o temor da iminência da ameaça terrorista na França e recrudesceu a vigilância contra novos atentados e também nos aeroportos. Às vésperas do início da Eurocopa 2016 e do Tour de France — competições internacionais de futebol e de ciclismo que ocorrerão em solo francês em junho e julho próximos —, as autoridades reconhecem um nível de alerta terrorista extremo. Para o chefe da Direção Geral da Segurança Interna (DGSI), Patrick Calvar, a França é hoje “o país mais ameaçado” pelo Estado Islâmico (EI) e também pela al-Qaeda, “que quer recuperar sua força”. Ontem mesmo os parlamentares prorrogaram o estado de emergência, decretado no país após os ataques de novembro de 2015, por mais dois meses, até 26 de julho.

Mesmo sem a confirmação de um atentado terrorista no voo MS804 da companhia egípcia, a polícia especializada em transporte aéreo (GTA, na sigla em francês) deflagrou uma varredura no Aeroporto Roissy-Charles de Gaulle, de onde decolou pela última vez o Airbus A320 desaparecido. A investigação visou a todas as pessoas que tiveram acesso à aeronave, que permaneceu cerca de uma hora estacionada no Terminal 1, entre bagagistas, agentes de limpeza e técnicos de pista, na busca de eventuais cumplicidades terroristas. A identidade dos passageiros e da tripulação também entrou no pente fino dos serviços de inteligência.

No ano passado, a administração dos aeroportos de Paris retirou cerca de 70 passes de acesso às zonas de segurança, em Roissy e também em Orly, de funcionários suspeitos de radicalização salafista, e cerca de 4 mil armários nos vestiários locais foram investigados. Nos dois principais aeroportos parisienses, 85 mil pessoas trabalham em áreas de segurança restritas. Desde os atentados de 2015, a vigilância nos aeroportos da capital foi reforçada com a contratação de 5 mil agentes privados, além do aumento das patrulhas de policiais e militares com metralhadoras e das 9 mil câmeras instaladas.

‘EI PLANEJA NOVOS ATAQUES’

Em depoimento no Comitê de Defesa Nacional das Forças Armadas do Parlamento, o chefe dos serviços de inteligência do país, Patrick Calvar, afirmou ter conhecimento de que o EI prepara novas ações terroristas e que seu principal alvo é a França.

— Sabemos que o EI planeja novos ataques, utilizando combatentes de suas zonas e recorrendo a rotas que facilitam o acesso ao nosso território, e que a França é claramente visada. O EI se encontra em uma situação que fará com que tente atacar o mais rapidamente e o mais forte possível: a organização vive dificuldades militares e vai procurar produzir distrações e se vingar dos bombardeios da coalizão — disse Calvar aos deputados.

O chefe da DSGI prevê uma mudança de estratégia dos radicais: em vez de atacarem por intermédio de kamikazes armados de kalashnikovs, é provável que recorram ao uso de explosivos colocados em meio a multidões, em ações multiplicadas para provocar pânico.

Por estas razões, as autoridades temem mais do que nunca a possibilidade de que sejam planejados ataques durante a Eurocopa 2016, de 10 de junho a 10 de julho em estádios de dez cidades francesas, e também no decorrer do Tour de France, de 2 a 24 de julho, que reúne aglomerações de apreciadores de ciclismo por todo o país.

Neste contexto, à parte os aeroportos, estações de trem francesas também passaram a merecer atenção especial das forças de segurança. A SNCF, a rede ferroviária francesa, elaborou um pacote de iniciativas para estar em funcionamento até o início da Eurocopa 2016. Uma das principais medidas é a adoção de uma versão dos conhecidos sky marshals, os policiais à paisana presentes em voos comerciais de vários países, como se fossem simples passageiros. Os train marshals franceses seguem a mesma lógica: cerca de 3 mil agentes, armados e sem uniforme, vão se misturar à multidão e viajar de trem como passageiros normais, para detectar comportamentos suspeitos.

Como ações mais visíveis e igualmente inibidoras, sistemas de detecção de metais e de explosivos serão instalados em 15 estações; três dezenas de cães farejadores serão recrutados, e as 40 mil câmeras de vigilância já existentes receberão um upgrade tecnológico. Além disso, seguranças da SNCF poderão revistar bagagens a todo momento. A companhia ferroviária anunciou um aumento de 50% de seu orçamento destinado à proteção de estações e trens, hoje estimado em cerca de € 400 milhões.

Os terroristas recentemente detidos na Bélgica, envolvidos nos atentados de 22 de março em Bruxelas, afirmaram que previam cometer novos ataques em solo francês, com o objetivo de obrigar o cancelamento da Eurocopa 2016. Mais um motivo para as autoridades terem redobrado sua vigilância no território.

— Não baixaremos a guarda — garantiu o premier Manuel Valls.

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