Adversário alerta contra Keiko Fujimori: ‘Ameaça de o Peru se mediocrizar’

LIMA – O ex-ministro, ex-banqueiro de investimento, primo de Jean-Luc Godard e músico Pedro Pablo Kuczynski é a grande aposta dos setores moderados no Peru para virar presidente. Ele alerta para o risco que vê na eleição de Keiko Fujimori, filha do encarcerado Alberto Fujimori, apontada como favorita para o segundo turno do pleito presidencial, no domingo.

O que acontece no Peru? Por que um país que encarcerou um ex-autocrata está prestes a eleger sua filha?

Há uma percepção de uma onda de criminalidade parcialmente causada pela droga, e ela (Keiko Fujimori) dá a impressão, por ser a filha do seu pai, de que irá conter a insegurança. Além disso, o fujimorismo tem uma quantidade impressionante de recursos nem indagados nem explicados. Parte vem de dinheiro acumulado no exterior quando eles governavam, pela corrupção. A família do secretário-geral do partido (investigado pela agência antidrogas dos EUA) também parece contribuir muito.

O empresariado peruano aceitou Keiko Fujimori?

O grande empresariado sempre esteve apaixonado por Fujimori, e quando (seu sucessor Alejandro) Toledo entrou, os empresários ficaram em pânico, mas quando ele me colocou como ministro (da Economia), se acalmaram.

Difunde-se a ideia de que o senhor é o establishment e que Fujimori defende os pobres. Por quê?

Não sei se todos a veem assim. Eles têm uma máquina de marketing político impressionante nas zonas mais pobres. Ela sabe se vender bem, como o pai, que ia pelos povoados num tratorzinho. Também é verdade que ela é uma mulher jovem, 41 anos, e eu sou um senhor muito mais velho (77).

A idade jogou contra?

Ajudou a jogar, certamente não é meu ponto forte. Já expliquei que minhas tias viveram até os 98, mas claro, eu não sou filho de minhas tias (ri).

Quando começou o segundo turno, o senhor estava na frente. Agora, cinco pontos abaixo. O que houve?

Houve um congressista eleito (aliado do próprio PPK) que começou a dizer coisas contra nós, e nos custou. Depois aproveitaram o fato de que fui cinco dias aos EUA e fizeram campanha em cima disso. Foram pequenos erros.

Por que a imagem de Alberto Fujimori resiste, apesar de ele estar preso?

A verdade é que eu não entendo isso. Muitos acreditam que Fujimori acabou com o terrorismo e que está preso injustamente. O Peru depois de 1990 ficou traumatizado pela hiperinflação do governo de Alan García e pelo terrorismo (do grupo Sendero Luminoso) a partir de 1980. Keiko fica pendurada na memória do pai, há a ideia de que ele restabeleceu a segurança no Peru, e como a criminalidade sobe, agora querem votar na filha.

O autoritarismo é bem visto no país?

A América Latina tem antecedentes muito conhecidos de autoritarismo, do México à Argentina, e o Peru não é exceção a isso. Apesar de haver uma nova geração no Peru que tem uma visão distinta.

Por que Fujimori é uma ameaça para a democracia? O senhor realmente teme um narco-Estado?

O narco-Estado está crescendo todos os dias, com um Judiciário que não está bem dirigido, a informalidade trabalhista, muito alta. Além disso, a droga se transferiu para cá pelo Plano Colômbia, que a tirou de lá. No fujimorismo, há vários congressistas que aparentemente estão muito próximos desse grupo.

O que acontecerá se vencerem?

Vamos ter um governo sem muita imaginação no aspecto econômico, muitos gestos duros para frear a criminalidade sem ir fundo no problema, a pobreza. A ameaça é que o Peru irá se mediocrizar.

Foi prejudicado pelo fato de ter apoiado Keiko em 2011?

Apoiei porque Chávez vinha ao Peru (apoiar Humala). Agora tudo mudou. Humala afinal não foi por esse caminho. Eu não sou antiesquerda nem pró-direita, é um mito que criaram. Gosto muito do apoio da esquerda, mas não do chavismo.

Teria apoiado Verónika Mendoza se ela chegasse ao segundo turno?

Primeiro teria falado sobre seu programa, para ver no que consistia.

Qual é sua motivação para disputar a Presidência em vez de aproveitar vida e a sua fortuna?

Quero que o Peru aproveite seu potencial. Como é possível que, após 25 anos de crescimento econômico, dez milhões de pessoas não tenham água, e ninguém se preocupe com isso, exceto quem não tem? Um país sem serviços básicos é inviável.

O milagre econômico de que se fala não chegou aos pobres?

Há frustração porque as coisas não funcionam, não houve infraestrutura. As pessoas moram no morro, não têm água nem ruas. Está tudo bem atrasado em relação às expectativas que o crescimento gera. Mas dá para fazer, temos 4% de dívida (em relação ao PIB), a Espanha está em 100%.

Foi prejudicado por participar de empresas e ter sido banqueiro?

Fala-se muito disso. Quando eu estava no First Boston, a primeira emissão de títulos da Espanha em Nova York fui eu quem fiz, a fusão do BBVA fui eu quem fiz; o primeiro fundo na Coreia, em Taiwan… Eu não era um banqueiro tradicional, e sim um pioneiro dos mercados emergentes de 30 anos atrás.

Nos debates, Keiko transmitiu mais ambição pela vitória?

Ela tem bastante entusiasmo, sem dúvida. Mas se eu lhe disser: “Senhora Fujimori, articule seu programa econômico sem escutar a gravação que lhe fazem e sem ler o cartão”, não vai dizer. Acredito que sabe se vender, assim como o velho, mas eu também sei: uma pessoa de 77 anos que concorre a uma coisa destas e está pau a pau com ela, sem ter gastado grande coisa…

Se Keiko Fujimori chegar ao poder, vai tirar o pai da prisão?

Vai tirá-lo, com certeza; vai esperar um pouco, mas vai tirá-lo.

Mas o senhor disse que também o tiraria da prisão.

Mas não falamos de indulto, e sim que cumpra o resto da pena em seu domicílio; eles estão pensando em anular o julgamento e tirá-lo pela porta da frente.

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