Recessão a olhos vistos: desempregados da industria, agora empregados de rua

RIO, BRASÍLIA E SÃO PAULO – De bermuda, camiseta e chinelo de dedo, Glória Regina Messias Curi nem de longe lembra a auxiliar de professora que, até meados de 2014, era funcionária de uma universidade pública carioca. Depois de perder o emprego, mesmo com um curso incompleto de Letras com habilitação em Libras, não conseguiu se fixar novamente no mercado formal. Para garantir uma renda, Glória trocou a sala de aula pela rua, onde entrega panfletos para uma clínica médica.

A saída encontrada por Glória para sobreviver foi a mesma de milhares de brasileiros no último ano, quando a recessão destruiu 1,5 milhão de vagas de emprego formais em todo o país, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Os sinais da precarização do mercado de trabalho estão visíveis nas ruas e mudaram a ocupação do espaço público: mais ambulantes nas calçadas, mais vendedores no sinal, mais estratégias alternativas para pagar as contas no fim do mês.

— Procurei trabalho em todos os lugares. Trabalhei numa loja por seis meses. Mas, como corria um boato de que ela estava falindo, saí antes que ficasse sem receber. Depois disso, até fui chamada para entrevista, mas ninguém quer contratar uma mulher de 40 anos — reclama Glória.

Atualmente, Glória ganha R$ 40 por dia com uma jornada em oito horas, na saída da estação do metrô. Já faz isso há um ano. Mas está longe de se conformar com a situação. Sente falta do plano de saúde, das férias e do décimo terceiro, que vinham junto com a carteira assinada. Embora tenha esperanças de voltar a ter um bom emprego, Glória concentra esforços na formação do filho, um entregador de jornal de 21 anos que sonha em se tornar jornalista.

— Já tranquei a faculdade há muitos anos e não começaria do zero de novo. Agora, tenho de investir no meu filho, que na escola só tirava notas dez — conta.

Para alguns, atravessar a crise é questão de criatividade. O mineiro Pedro Henrique Santiago Ramos, de 28 anos, se mudou para Brasília em setembro, em busca de emprego. Antes, ele tinha trabalhado como garçom na churrascaria da família em Patos de Minas (MG), mas o negócio da família fechou. Na capital federal, fez bicos como servente de pedreiro, técnico em informática e topógrafo. Os trabalhos temporários acabaram, e ele retornou para sua antiga atividade de garçom nos sinais do Centro da cidade, vestido a caráter. Na bandeja, além de água e refrigerantes, guardanapos azuis para combinar com a gravata borboleta.

— Usava gravata preta, mas não fazia tanto sucesso quanto a azul. O pessoal reparou bastante, e eu passei a vender mais — diz ele.

A concorrência é acirrada: vendedores de balas e um outro vendedor de água disputam o pedaço de asfalto com Pedro, mas ele garante que já tem freguesia garantida. Entre um intervalo e outro, corre até as lojas próximas para trazer mais garrafas de água e encher o isopor que fica no meio-fio. Trabalhando diariamente “das 8h até o sol acabar”, como ele faz questão de dizer, Pedro chega a vender 60 garrafas por dia, com lucro de mais de 100% em cada uma delas. Ele compra a garrafa por R$ 0,90 e vende a R$ 2.

O cientista político libanês Nami Hanna, de 49 anos, está há 15 anos no Brasil. Aqui, se tornou professor de árabe de universitários. Ganhava entre R$ 30 e R$ 100 por hora/aula, mas no ano passado viu o número de alunos encolher. Resolveu, então, fazer uma parceria com um refugiado sírio e vender comidas da culinária árabe numa banquinha. Começaram o negócio na última semana e sonham em abrir um restaurante.

— Meu amigo faz os produtos e eu ajudo com a parte de transporte, compra dos ingredientes. Aqui é tudo caseiro. Este é o nosso diferencial — conta Nami.

Para economistas, ao perder o emprego com carteira num momento em que novas vagas são escassas, o trabalho autônomo se torna a saída para recompor a renda.

— As pessoas que vêm do mercado formal têm a possibilidade de permanecer alguns meses no seguro-desemprego, mas uma boa parte não tem acesso a esse benefício porque a regras mudaram ou já estavam empregadas sem carteira. Como muitos são chefes de família, é óbvio que têm impacto e não podem permanecer de braços cruzados. Acabam migrando para um trabalho precário, sem carteira — analisa o economista João Saboia, da UFRJ.

Na crise, a rua também vira palco. A banda Os Fluídos, formada por quatro amigos de Porto Alegre, há dois meses se apresenta na Zona Sul de São Paulo. O cachê? Quando o semáforo fecha, um deles passa o chapéu junto aos motoristas parados no sinal vermelho. E quem gosta da música, uma mistura de jazz, rock e blues, costuma colaborar financeiramente. A escolha da rua como principal palco para apresentações foi feita quando a crise começou a se aprofundar. Era uma alternativa para divulgar o trabalho e reforçar os cachês, que começavam a minguar nos bares com a retração econômica.

— A crise no mercado de música, para quem toca em bares, é permanente, mas piorou nos últimos tempos. A rua é uma forma de mostrarmos nosso trabalho, fazer contatos e reforçar o caixa — diz o guitarrista Douglas Cassenott, de 27 anos.

DE COZINHEIRO A HOMEM-PLACA

As plataformas da Central do Brasil também têm servido de porto seguro para muitos desempregados. O portfólio vai do cardápio tradicional, com doces, biscoitos e refrigerantes, a insuspeitos salames, iogurtes, chocolates quentes e até produtos como descascadores de legumes e absorventes íntimos.

Desde que perdeu seu emprego como esmerilhador em um estaleiro no Caju, há um ano e dois meses, Ulisses Sousa Ferreira se posiciona todas as tardes com um isopor repleto de gelo e bebidas na plataforma de onde partem os trens rumo a Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Diz que consegue ganhar por volta de R$ 1.400 por mês, mesmo com a concorrência mais acirrada, embora, às vezes, o movimento seja menor e o lucro fique na casa dos R$ 700.

— Depois que o estaleiro mandou todo mundo embora, não consegui arrumar mais nada. Todo mundo sabe que está “brabo”. Aqui, é o meu dinheiro certo — conta o vendedor.

Um dos aspectos enfrentados por esses trabalhadores é a exposição a risco. Panfletar é proibido no Rio, vender artigos em trens, também. Para Ulisses, lidar com essa incerteza já faz parte do cotidiano:

— Apenas de vez em quando eles pedem para a gente sair. É impossível acabar com isso.

Perder a carteira assinada também significa adiar sonhos. Natan dos Santos, de 23 anos, quer ser advogado. Mas, se nem o salário como cozinheiro de uma rede de restaurantes permitiu que ele pagasse a mensalidade, depois de ser demitido, no mês passado, as dificuldades aumentaram.

— Todos os dias passo nas lojas para ver se tem anúncio e me candidatar. Mas não tem vaga. Tenho de juntar dinheiro para pagar minha faculdade.

Enquanto a vaga não aparece, ele tem feito dois bicos. De segunda a sexta-feira é homem-placa de compra e venda de ouro e nos fins de semana faz tatuagem de henna na praia:

— Não dá para ficar parado. Meu seguro-desemprego em breve vai acabar.

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