Serra diz que posição dos EUA na OEA retrata normalidade democrática

BRASÍLIA – O chanceler José Serra e o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Aloysio Nunes (PSDB-SP), consideraram positiva a manifestação de representantes dos Estados Unidos, que pela primeira vez, defenderam a legalidade do processo de impeachment, que levou ao afastamento da presidente Dilma Rousseff. Em um debate na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, nesta quarta-feira, Michael Fitzpatrick disse que não houve nada parecido sequer com um “golpe brando” no Brasil e que tudo foi feito dentro das regras constitucionais e democráticas.

A posição dos EUA, Argentina e Paraguai enfraquecem a campanha feita no Brasil contra o impeachment pelo secretário-geral da OEA, o uruguaio Luis Almagro, que chegou a anunciar que poderia fazer uma consulta á Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre dúvidas e incertezas jurídicas sobre o processo.

— Foi sem dúvida uma declaração positiva e correta. A posição da comissão dos Estados Unidos na OEA corresponde ao que de fato aconteceu e está acontecendo no Brasil. Os brasileiros sabem disso. A vida aqui segue absolutamente normal. Os brasileiros estão sendo conduzidos dentro de estritas normas legais e constitucionais — comentou o ministro das Relações Exteriores José Serra, ao GLOBO.

Aloysio Nunes Ferreira disse que as declarações de Michael Fitzpatrick repetem uma posição antecipada pelo presidente Barack Obama, que em viagem a Argentina no auge do processo do impeachment na Câmara, disse que o Brasil tinha instituições fortes e saberia resolver tudo dentro da democracia.

— Essa posição do Fitzpatrick na OEA já tinha sido antecipada pelo Obama. Com o tempo essa estória de golpe vai ficar cada vez mais desacreditada. Vai ficar apenas como um resíduo histérico dos apoiadores de Dilma — avaliou Aloysio Nunes.

Diante de manifestações de países como Equador, Venezuela e El Salvador, que estão chamando ao país seus embaixadores no Brasil para pedir explicações sobre o impeachment, Serra e a diplomacia brasileira vem acompanhando com cautela. Desta vez foi o presidente do Equador, Rafael Correa, que convocou o embaixador no Brasil, Horacio Sevilla, para pedir explicações sobre a crise política no Brasil com a posse do presidente interino Michel Temer após o afastamento de Dilma.

Por enquanto o Itamaraty está avaliando que são chamados para que os embaixadores detalhem a situação pós-impeachment, e não uma posição de confronto e não reconhecimento do governo provisório. Mas por meio de um comunicado divulgado na última sexta-feira, o Itamaraty diz rejeitar “enfaticamente” as declarações recentes dos governos do Equador, da Venezuela, de Cuba, da Bolívia e da Nicarágua, além da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América/Tratado de Cooperação dos Povos (Alba/TCP), sobre a ocorrência de um golpe no Brasil.

Para demonstrar o peso da parceria com a Argentina, anunciada ontem na solenidade de posse como “um dos principais focos de ação diplomática em curto prazo”, a primeira viagem do ministro José Serra viajará será a Buenos Aires, para uma extensa agenda de encontros bilaterais a partir de segunda-feira.

Ele almoçará com a ministra das Relações Exteriores, Susana Malcorra, se reunirá com o presidente Maurício Macri, com ministros da área econômica e com economistas amigos, entre eles Roberto Frankel. Na agenda com as autoridades argentinas, está a reformulação do Mercosul e a reavaliação da participação de países como a Venezuela, que desrespeita as clásulas democráticas.

— Junto com os demais parceiros, precisamos renovar o Mercosul, para corrigir o que precisa ser corrigido, com o objetivo de fortalecê-lo, antes de mais nada quanto ao próprio livre-comércio entre seus países membros, que ainda deixa a desejar, de promover uma prosperidade compartilhada e continuar a construir pontes, em vez de aprofundar diferenças, em relação à Aliança para o Pacifico, que envolve três países sul-americanos, Chile, Peru e Colômbia, mais o México — disse Serra em seu discurso de posse nesta quarta-feira.

Ao falar da viagem a Buenos Aires ao GLOBO, Serra disse que tem laços sentimentais com a Argentina, terra da avó, onde também tem muitos amigos. Admirador do estilo musical, Serra diz que canta e dança tango bem. Seu preferido é “Volver”, de Carlos Gardel.

— Se eu cantar um tango na viagem vai ser um sucesso — brincou Serra, cantarolando trechos de um dos tangos que mais gosta.

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