No lugar da esperança, a desconfiança e a descrença

SÃO PAULO — Os botões altos da camisa estariam invariavelmente abertos e Lula teria em sua mão um cigarro, em 1980, quando discursasse aos metalúrgicos em greve, com olhar severo dirigido à multidão. Ao lado dele no palco, abaixo, na segurança do ato, no piquete em porta de fábrica, distribuindo o jornal operário ou preparando o café que alimentaria o vigor do líder, estariam os peões, gente cuja origem era a mesma do ex-presidente, mas cujo futuro seria bem diferente. Em 2002, o documentarista Eduardo Coutinho colheu o depoimento de duas dezenas desses anônimos personagens, então eufóricos e esperançosos com a eleição do petista. O material gerou o filme “Peões”. Catorze anos depois da chegada de Lula ao poder, O GLOBO localizou sete dos entrevistados e descobriu que, entre eles, a esperança foi abatida por escândalos de corrupção, e que é forte a decepção com o PT. Entre os velhos “peões”, Lula já não é unanimidade.

— Não acredito mais em nada do que falei no filme. No fim, o pessoal em que a gente acreditava… Apareceu tanta coisa errada… A gente é mesmo massa de manobra. A elite do PT depois (do poder) passou a nem conhecer a gente, mas agora que estão pedindo impeachment da Dilma, fritando o Lula, quer o trabalhador na rua. A gente é manobrado — resume João da Silva, o João Chapéu, de 79 anos.

Em “Peões”, um Chapéu sorridente contava que a mulher se zangava com sua atividade sindical, que o levou à demissão. Com o passar dos anos, diz ter mantido carinho por Lula, mas nega que votaria nele de novo. As lembranças agora doem:

— A gente levou muita cacetada junto — diz, referindo-se à repressão policial às greves, o pernambucano que fugiu da fome do sertão e acabou metalúrgico no ABC “igualzinho ao presidente”.

Ao lado de operários como Chapéu, Lula passou alguns dos momentos mais difíceis. Comia pé de galinha junto da faxineira do sindicato Maria Elicélia da Silva, a Zélinha. Com o sindicalista Djalma Bom, dividiu os tragos de cachaça 51 e a cela em que ficou preso em 1980. Quando sua mãe, Lindú, morreu e ele saiu da prisão para o enterro, o abraço que recebeu foi de Lenice Bezerra da Silva, a Nice. Na menina Maria José Xavier, a Tê, identificou talento de oradora e incutiu o sonho de uma vida melhor. Ria das piadas de Januário da Silva sobre o dedo que perdera no torno e arrancava lágrimas de Maria Socorro Alves quando discursava.

Em Tê, hoje com 60 anos, os sonhos inspirados por Lula já não vivem mais. Na semana em que O GLOBO a entrevistou, ela fecharia sua lojinha de roupas na periferia de São Bernardo.

— É a crise. Chego a passar três dias sem vender nada — afirmou, olhando as abarrotadas araras.

Fundadora do PT, ela se afastou de tudo pouco depois da chegada de Lula ao poder:

— O sonho da gente era ter um partido diferente, e, no fim das contas, o PT acabou não sendo tão diferente assim.

Tê acompanha aflita as acusações de que o ex-presidente Lula recebeu favores de empreiteiras e ocultou patrimônio de um tríplex e um sítio.

— Embora eu acredite no Lula, fico vendo essas evidências… Se o Lula, que era o maioral, está ligado a isso aí, fica aquela coisa. Mas será? E completa: — O Lula precisa se explicar.

Na lanchonete em que serve salgados e pudim na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Zélinha, de 67 anos, reage com fúria toda vez que algum cliente dirige impropérios ao ex-presidente. Tais episódios têm se repetido ultimamente, para atiçar a braveza da pernambucana semianalfabeta que acompanha Lula há 40 anos. Zélinha, que não costuma comer em festas por medo e vergonha de engasgar, diz-se lulista e é taxativa ao falar que as investigações sobre o petista são “maracutaia”.

— E se ele tiver o que eles quiserem dar, ele tem direito de ter, ele tem dinheiro. Uma palestra dele custa R$ 300 mil, será que ele não pode ter apartamento no Guarujá? Até eu, que sou pobre, tenho — diz. Ela garante que ascendeu no governo Lula, quando passou de servente a dona de lanchonete e financiou uma casa.

— O Lula foi o pai dos pobres, mas foi a mãe dos ricos — define Djalma Bom.

O afastamento de Bom dos antigos parceiros começou ainda na campanha, há 14 anos, quando viu políticos como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, condenados no mensalão, no comitê de Lula.

— O PT não fez definição ideológica. Virou uma geleia, aliou-se com qualquer parceiro. Quem devia estar com Lula quando ele deixou a Presidência eram os trabalhadores, que o puseram lá. Mas quem veio junto foi Sarney.

Embora critique, Bom recusa a possibilidade de que eventuais favores de empreiteiras a Lula tenham se traduzido em vantagens a elas no governo.

— O Lula é honesto. Essa questão do Lula é vaidade, amizade com algumas pessoas. Dentro dessas questões de vaidade, eu digo que quando estávamos no sindicato tomávamos 51, depois conhaque Domec, e hoje o Lula gosta de tomar Black Label 12 anos, né? O problema é que ninguém dá nada de graça para ninguém. O Silvinho Pereira ganhou Land Rover, e os caras queriam três de volta. Vejo ingenuidade nisso.

Rodeado por fotos do ex-presidente em uma sala do Sindicato dos Metalúrgicos, onde trabalha, Januário, de 61 anos, contesta as acusações a Lula:

— Qual é o problema se o peão tem amizade com um gerente? Isso não pode ser confundido com cooptação e desonestidade. O Lula se aproximou dos empresários, mas nunca se afastou dos peões — afirma, sobre a proximidade de Lula com Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS condenado na Lava-Jato.

Em “Peões”, Januário conta que, em meio à greve, Lula recebeu um aparelho de som de um dono de montadora.

— Ele mandou devolver na hora. Com certeza, faria isso de novo hoje.

No dia em que falou ao GLOBO, Januário planejava engrossar manifestação contra demissão de metalúrgicos:

— Quando o governo faz as cagadas que está fazendo, tem que cobrar.

Toda vez que olha as próprias mãos, Nice, de 58 anos, lembra-se de Lula. Ainda adolescente, ela quase teve um dos dedos extirpados por uma máquina da fábrica. Restou uma cicatriz e a solidariedade pelo companheiro que não teve a mesma sorte. Nice foi diretora sindical e fundadora do PT. Décadas depois, deixou o partido porque “começaram a desvirtuar nossa visão de partido do trabalhador”. Mesmo frustrada com a legenda, confia em Lula:

— Dizer que é do tamanho que estão criando, eu não acredito. Se Lula estiver devendo, ele tem que pagar. Não foi por isso que nós lutamos. O que me indigna é que só mexem com o PT.

Do Vale do Cariri, Maria do Socorro, com 62 anos, diz não ser mais assídua em nada além das missas. Diz estar “longe demais para saber o que está acontecendo” nas velhas bandas operárias, de onde se retirou há anos.

— Vou ter que esperar para ver o final, por enquanto acredito nele — diz, como se acompanhasse uma novela.

Caso confirme sua candidatura para as próximas eleições, entre os eleitores que Lula terá que conquistar estarão, pela primeira vez, alguns de seus velhos companheiros do chão de fábrica.

— Ele vai ter que rebolar muito para mudar essa imagem — garante Tê.

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