Janot faz apelo para que MP atue sem partidarização

BRASÍLIA. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, fez um apelo nesta terça-feira para que procuradores e promotores atuem dentro dos limites institucionais, evitem radicalização e partidarização de investigações criminais. Num movimento oposto ao do juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, Janot pede aos colegas que mantenham a serenidade, valorizem a unidade interna e não dêem guarita às paixões das ruas, que estariam ameaçando levar o país a desintegração social.

“Não podemos permitir que as paixões das ruas encontrem guarida entre as nossas hostes. Somos Ministério Público. A sociedade favoreceu-nos, na Constituição, com as prerrogativas necessárias para nos mantermos alheios aos interesses da política partidária e até para a defendermos de seus desatinos em certas ocasiões. Se não compreendermos isso, estaremos não só insuflando os sentimentos desordenados que fermentam as paixões do povo, como também traindo a nossa missão e a nossa própria essência”, disse Janot.

O procurador-geral fez o apelo numa mensagem de quatro páginas endereçadas aos membros do Ministério Público. No texto, intitulado União e Serenidade, Janot pede que procuradores evitem personalismo e messianismo e, num recado direto aos investigadores da Operação Lava-Jato, disse que a investigação é importante e necessária, mas não pode ser vista como a solução dos problemas do país. Segundo ele, a operação “não salvará” o Brasil.

“Conclamo todos os membros do Ministério Público ao cumprimento dos seus deveres para com país. Devemos dar combate incessante à corrupção, seja onde for e doa a quem doer, mas há de se preservar sempre as instituições. A Lava Jato certamente não salvará o Brasil, até porque se tivéssemos essa pretensão, já teríamos falhado antes mesmo de começar.

Janot pede ainda humildade e sabedoria e, como contraponto, cita como exemplos Abraham Lincoln, Nelson Mandela e Wiston Churchil. Os três tiveram que enfrentar divisões, radicalizações e combates sangrentos, mas apostaram na pacificação da sociedade e hoje servem de parâmetros no processo civilizatório. O procurador, aliás, abre a mensagem aos colegas com uma declaração feita por Lincoln em 19 de novembro de 1863, durante a Guerra da Secessão sobre o risco de vencer uma guerra a qualquer custo, como estaria acontecendo agora no país.

“Encontramo-nos atualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo a prova se essa Nação, o qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar”, questionava Lincoln diante da guerra que tinha como centro o fim da escravidão. Segundo Janot, “Lincoln, como grande estadista, sabia que, por mais justa que fosse a sua causa, vencer a guerra a qualquer custo não seria uma alternativa válida. O país, após o conflito, deveria sobreviver ou não haveria verdadeira vitória”.

O procurador lembra ainda que Mandela, mesmo “brutalmente injustiçado” decidiu “seguir por um caminho que não levasse seu país a se desintegrar em uma guerra fratricida e de consequências imprevisíveis”. Janot também parafraseou Churchill, que “guiou seu país numa terrível guerra pela sobrevivência e liberdade”.”Desejo que, unidos no cumprimento do próprio dever, tenhamos, nas nossas mentes e nos nossos corações, a ideia firme de que se o Ministério Público brasileiro durar mil anos, possam os homens dizer de nós: “Este foi o seu melhor momento”.

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