Gim Argello usou até igreja para movimentar parte da propina de R$ 5,3 milhões, diz MPF

SÃO PAULO e CURITIBA – O Ministério Público Federal (MPF) disse nesta terça-feira que as propinas pagas ao ex-senador Gim Argello (PTB-DF) chegaram a mais de R$ 5,3 milhões. Este seria o montante recebido por ele para barrar investigações relacionadas às empreiteiras UTC e OAS na CPI da Petrobras, instalada em 2014. O ex-senador Gim Argello (PTB-DF) foi preso preventivamente na manhã de hoje 28ª fase da Operação Lava-Jato. A Força-Tarefa frisou que esta operação não investiga outros políticos envolvidos no esquema. (PF EXPLICA OPERAÇÃO. ASSISTA)

Segundo os procuradores, Argello recebia dinheiro para não convocar empreiteiros para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito. Por enquanto, há apenas indicativos de pagamentos feitos pela UTC e pela OAS, mas também estão sob investigação pedidos de propina dirigidos a outras empreiteiras envolvidas no esquema criminoso na Petrobras.

Além de delações que indicavam a participação de Argello no esquema, a Polícia Federal disse que houve interceptações de ligações telefônicas e outros materiais apreendidos que comprovam o crime de corrupção.

O dinheiro era recebido por partidos e grupos políticos indicados pelo então senador — foram citados DEM, PR, PMN e PRTB. Ao lado do PTB, eles formaram em 2014 a coligação “União e Força”, pela qual Gim Argello era candidato a senador pelo DF. De acordo com a Força Tarefa, não há indícios de que os partidos beneficiados sabiam das negociações e da origem ilícita dos recursos.

Para o procurador Athayde Ribeiro Costa, é uma “gravidade e audácia” de Gim Argello ter usado a CPI para cometer crimes.

— O crime foi dotado de inusitado atrevimento porque foi uma corrupção para cobrir corrupção mesmo depois da deflagração da Operação Lava-Jato. O caso de hoje revela uma corrupção qualificada, uma corrupção ao quadrado, uma metacorrupção. É gravíssima a conduta de usar uma CPI para praticar crimes que deveriam ser investigados.

Além disso, R$ 350 mil foram pagos pela OAS à Paróquia São Pedro, em Taguatinga, no DF, frequentada por Gim. Em mensagem enviada em 14 de maio de 2014, data em que a CPI foi instalada no Senado, Leo Pinheiro, então presidente da OAS, enviou uma mensagem a executivos do grupo ordenando um pagamento no valor de R$ 350 mil para a conta bancária de uma paróquia do Distrito Federal, apontando como centro de custo a “Obra da Renest” (referência à RNEST, refinaria da Petrobrás).

O pagamento à paróquia, segundo o MPF, é associado a uma pessoa identificada como “Alcoólico”, que seria o apelido de Gim Argello, por ser um trocadilho com a bebida “gim”. O apelido apareceu em troca de mensagens entre Léo Pinheiro e Otávio Marques de Azevedo, do Grupo Andrade Gutierrez, outra empreiteira envolvida na Lava-Jato.

De acordo com o delegador Igor Romário de Paula, a força-tarefa da Lava Jato vai investigar se a Paróquia São Pedro usou o dinheiro doado pela OAS a pedido do ex-senador Gim Argello (PTB-DF). Há a desconfiança de que a igreja foi usada como um canal.

— A gente não afirma que é um canal, porque a gente ainda não fechou o outro lado. Mas é mais do que uma suspeita — disse ele.

Ainda para o delegado, o fato de igrejas receberem frequentemente doações em espécie, facilita a lavagem de dinheiro.

— Pode ser um mecanismo para lavar dinheiro — complementou De Paula.

O delegado também comentou que é difícil acreditar que Gim Argello agia sozinho para evitar a convocação dos empreiteiros na CPI e CPMI, mas que a investigação parte de informações passadas por Ricardo Pessoa e Leo Pinheiro e estes desconhecem como ocorria a influência dentro da CPI.

— Dentro da CPI ainda não se sabe como (Argello evitava as convocações) — explicou o delegado.

Com os depoimentos do ex-senador e dos assessores Paulo Roxo e Valério Neves, presos temporários ligados a Argello, a força-tarefa pretende esclarecer esta lacuna.

Durante a coletiva, o procurador da República Carlos Fernando Santos de Lima explicou que um ofício foi enviado à Paróquia São Pedro pedindo explicações sobre o recebimento e uso do dinheiro.

O procurador também explicou que, nesta fase, não foram identificadas nos documentos pessoas com foro privilegiado.

— Não temos, nos documentos da Lava-Jato, documentos de qualquer pessoa com foro — disse salientando que esta investigação ocorreu após a separação dos processos entre quem tem foro (com o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República) e quem não tem (com Curitiba).

DELCÍDIO E RICARDO PESSOA DELATARAM

Gim Argello apareceu nas delações do senador Delcídio Amaral (sem partido-MS) e do dono da empreiteira UTC, Ricardo Pessoa na Lava Jato. Segundo o Ministério Público, há evidências do pagamento de propina a Gim de R$ 5 milhões pela UTC e de R$ 350 mil pela OAS.

Os integrantes da Força-Tarefa destacaram, no entanto, que as investigações da nova fase não se baseiam apenas nos acordos de colaboração, mas também em provas materiais como dados telefônicos e mensagens apreendidas no celular de Léo Pinheiro, da OAS.

O ex-senador participou das duas CPIs da Petrobras que funcionaram em 2014. Além de ter sido vice-presidente na comissão mista, foi indicado para a comissão exclusiva do Senado. Nenhum executivo foi convocado, nem sigilos foram quebrados.

Nesta terça-feira, a Polícia Federal cumpriu 22 mandados judiciais, sendo dois de prisão temporária, um de prisão preventiva, 14 de busca e apreensão e cinco de condução coercitiva. A sede da empreiteira OAS, na região central de São Paulo, é um dos alvos de busca e apreensão da nova fase.

Os presos temporários são Paulo Cesar Roxo Ramos e Valério Neves Campos, ambos ligados a Argello. Eles foram apontados pelo MPF como operadores do esquema e responsáveis pela indicação de partidos que receberiam o dinheiro. Presos em Brasília, eles e o ex-senador serão levados a Curitiba ainda na tarde desta terça-feira.

O filho de Gim, Jorge Argello, Júnior foi levado a depor coercitivamente. Além dele, depõe também Roberto Zardi Ferreira Jorge, Gustavo Nunes da Silva Rocha, Dilson de Cerqueira Paiva Filho e Marcos Paulo Ramalho, todos funcionários da OAS. Esses dois últimos estão sendo ouvidos na Polícia Federal em São Paulo.

OUTRO LADO

Em nota, a OAS informou “que estão sendo prestados todos os esclarecimentos solicitados e dado acesso às informações e documentos requeridos pela Polícia Federal, em sua sede em São Paulo, na manhã desta terça-feira. A empresa reforça que está à inteira disposição das autoridades e vai continuar colaborando no que for necessário para as investigações”.

A UTC, também por meio de nota, disse que não comenta investigações em andamento.

O PMN afirmou que a atual direção nacional do partido apóia integralmente as ações no juiz Sérgio Moro, que não conhece Gim Argello, que o partido não tem nenhum senador em seus quadros e que jamais houve contato com ele para tratar sobre temas de CPI. O partido informou ainda que as doações tiveram como destino a direção estadual, no Distrito Federal, e tiveram o seguinte destino:

R$ 335.000,00 à candidata e presidente do PMN-DF à época, Jaqueline Roriz (PMN-DF)

R$ 537.000,00 ao candidato Joaquim Roriz Neto

R$ 200.000,00 (duzentos mil) foram doados para o partido PRTB/DF (partido de Liliane Roriz, irmã de Jaqueline Roriz)

FR$ 50.000,00 (cinquenta mil) para a candidata deputada distrital Cátia Lúcia.

O partido divulgou a nota em dezembro passado, quando a delação de Ricardo Pessoa veio a público, e manteve seu posicionamento.

Já a direção nacional do PR afirmou que “não interfere ou participa dos assuntos e decisões de campanha da legenda nos Estados. As doações e CNPJ das campanhas eleitorais estaduais não dizem respeito ao PR. Elas têm CNPJ e responsabilidade civil próprias. A direção nacional do PR, como é de conhecimento público, não comenta iniciativas ou decisões do Poder Judiciário”.

Procurada, a assessoria de imprensa do DEM afirmou que não vai se pronunciar sobre o caso.

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