Estudantes viram a noite na Assembleia Legislativa de SP

SÃO PAULO. Estudantes passaram a noite no prédio da Assembleia Legislativa (Alesp) de São Paulo, Zona Sul da capital. Na manhã desta quarta-feira o policiamento foi reforçado no local e os alunos prometem não sair até que uma CPI da Máfia da Merenda seja instalada. O esquema de corrupção que atingiu 22 prefeituras do estado, envolvendo integrantes de diferentes escalões do governo Geraldo Alckmin (PSDB), inclusive o presidente da casa Fernando Capez. O cantor Chico César visitou os alunos de madrugada e cantou para eles.

Os alunos participavam num evento, na tarde de terça-feira, num auditório da Alesp e, após o evento, invadiram o plenário. Segundo a organização, 300 estudantes ocuparam o local; a Alesp fala em 70. A madrugada não registrou episódios de violência. Na manhã desta quarta-feira, o policiamemento voltou a ser reforçado no local.

Os jovens dizem que só sairão do prédio se forem atendidos.O grupo abriu uma grande bandeira preta no meio do plenário, onde se lê “Alesp ocupada”. Os jovens também gritam palavras de ordem contra o governo do Estado.

— Ocupamos com uma pauta muito clara e vamos seguir resistentes até que abra a CPI — disse Emerson Santos, presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes).

Os estudantes estão acompanhados de entidades como a Upes, além de representantes de partidos como PSOL e PT. Em sua rede social, a Upes disse que Emerson Santos chegou a ser agredido por alguns funcionários da Alesp.

Ao GLOBO, Capez disse que os estudantes quebraram alguns objetos dentro da Alesp. Ele garantiu que o grupo está conversando com a polícia militar para que todos saiam de forma pacífica.

— Não vai ter confronto. Ninguém vai retirar eles à força — afirmou Capez, para quem a ação “é totalmente política”: — Estamos conseguindo mais assinaturas para a instalação da CPI. Estamos conversando com deputados e trabalhando para conseguir as 32 necessárias (faltam seis). Assim que tiver, eu vou pautar. Não é tão simples assim. Não é dessa maneira que vão conseguir. Se quisessem CPI, aguardariam a convocação que foi aprovada hoje.

O governo do estado disse que a Alesp é um poder independente e que a CPI é uma função do Legislativo. Para o Estado se manifestar, segundo a assessoria do órgão, seria invadir a função do outro poder.

As denúncias da “Máfia da Merenda” envolvem os deputados estaduais Luiz Carlos Gondim (SD) e Fernado Cury (PPS), além dos deputados federais Baleia Rossi (PMDB) e Nelson Marquezelli (PTB) e do secretário de Transportes e Logística Duarte Nogueira (PSDB).

A “Máfia da Merenda” é acusada de fraudar licitações para fornecimento de suco de laranja para merenda escolar basicamente de três formas. Primeiro, a Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf) comprava a laranja em centros de distribuição e forjava documentos que diziam que a fruta vinha de pequenos produtores – por lei federal, 30% da merenda deve vir da agricultura familiar.

Depois, a quadrilha combinava o preço do edital com outras duas empresas, para garantir que venceriam naquela cidade. Por fim, distribuíam propina a políticos e agentes públicos para garantir a conivência nesses contratos e eventuais aditamentos.

Após ser acusado pelo lobista Marcel Ferreira Julio de ter recebido propina para sua campanha, Capez disse que seu nome está sendo usado indevidamente, “para inserir cunho político eleitoral à Operação Alba Branca”.

APROVAÇÃO DE CPI

Aprovar uma CPI contra o governo na Assembleia Legislativa não tem sido tarefa fácil para a oposição. Desde 1995, quando Mário Covas assumiu o Palácio dos Bandeirantes e deu início a uma longa hegemonia do PSDB no estado de São Paulo, a Assembleia instalou 65 CPIs. Nenhuma dessas comissões investigou diretamente o governo ou produziu relatórios que incomodassem as administrações tucanas.

Nem mesmo escândalos recentes como o cartel dos trens e do metrô e a crise de falta d’água e a proposta de fechar 93 escolas foram debatidos pelos deputados estaduais.

Nos últimos 20 anos foram alvo das investigações dos parlamentares temas como gorjeta, gordura trans, erros médicos, parcelamento sem juros e febre aftosa. Na atual legislatura, estão abertas CPIs sobre a epidemia do crack, a invasão de terrenos e a obesidade infantil.

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