‘Ele era só uma criança’, diz mãe de menino de 11 anos morto por guarda

SÃO PAULO — Muito abatida, a mãe do menino Waldik Gabriel Silva Chagas, de 11 anos, morto por guardas civis metropolitanos (GCMs) na zona leste de São Paulo, na noite de sábado, repetia a todo momento, durante o velório, que o seu filho era só uma criança.

— Ele não faz maldade com ninguém. Mesmo se tivesse feito tinham que ter abordado, levado para a delegacia. Fizesse alguma coisa, mas não matar. Ele era só uma criança, tinha chance de reverter ainda — disse Orlanda Correia Silva, de 47 anos, que chegou ao local por volta das 11h acompanhada de familiares.

A mãe conta que o filho não tinha nenhum registro na polícia, mas admite que nos últimos tempos o menino vinha dando trabalho para a família.

— Ele ficava muito na rua, uma ou duas vezes dormiu fora, a gente ficava procurando e no dia seguinte ele chegava dizendo que tinha dormido na casa de um colega — diz Orlanda.

Ela conta que ficou sabendo da morte do menino quando estava no trabalho, avisada por uma das filhas. Segundo ela, ele saiu escondido de casa naquele dia.

Orlanda foi chamada para prestar depoimento no Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) na madrugada de domingo e diz que quer justiça para o filho.

— A gente quer justiça. Ele não tinha arma, eles não atiraram contra os guardas.

À polícia, os guardas civis disseram que faziam o patrulhamento em Cidade Tiradentes, quando foram acionados por motoqueiros, cujos dados não foram anotados, que disseram ter sido vítimas de assalto por parte de dois homens que estavam em um chevette prata.

Os guardas localizaram o carro e começaram a persegui-lo. Eles disseram que os ocupantes do carro teriam começado a disparar e houve revide. A viatura teria então batido em um outro carro cujos dados também não foram anotados pelos GCMs.

Os dois homens abandonaram o carro na rua Regresso Feliz e fugiram a pé. Um PM aposentado, que mora nesta rua, viu que havia um menino atingido por um tiro na nuca no banco de trás e preservou a área.

Waldik chegou a ser socorrido com vida, mas morreu logo após dar entrada no hospital Tiradentes.

O caso foi registrado na 46º DP, mas foi encaminhado ao DHPP. O GCM responsável pelo disparo foi autuado em flagrante por homicídio culposo e após pagamento de fiança foi liberado.

O advogado Ariel de Castro Alves, membro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos, disse que a história contada pelos GCMs está “muito suspeita” e que a hipótese de homicídio doloso, quando há intenção de matar, deve ser considerada.

— A hipótese de homicídio doloso deve ser considerada, já que nenhum tiro atingiu a lataria ou os pneus do carro. E sim o tiro foi efetuado em direção à cabeça das pessoas que estavam sendo perseguidas, atingindo a criança de 11 anos.

Segundo ele, uma perícia preliminar identificou que houve apenas um disparo, efetuado de fora para dentro do carro e que nenhuma arma foi localizada dentro do carro.

— Mais um caso que preocupa bastante. Existem várias contradições. Sequer existe comprovação de que os ocupantes do carro estavam efetivamente cometendo crimes. Na prática, mais uma criança foi assassinada por agentes do estado, agora por guardas municipais.

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