Dilma reforça que um golpe está em curso e pede cautela sobre decisão de Maranhão

BRASÍLIA – Após a notícia de que o presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA) anulou o processo de impeachment, a presidente Dilma Rousseff reforçou durante solenidade no Planalto que está em curso um golpe de Estado. Dilma garantiu que ainda terá “muita luta”, e que está disposta a ir “até o fim” e defender a democracia. Apesar disso, ela pediu cautela. Após o evento no Planalto, Dilma se reuniu com o ministro José Eduardo Cardozo, Advogado Geral da União (AGU):

— Eu soube agora, da mesma forma que vocês souberam.Apareceu nos celulares que todo mundo tem aqui que o recurso foi aceito, e que portanto o processo está suspenso. Eu não tenho essa informação oficial. Estou falando aqui porque eu não podia, de maneira alguma, fingir que eu não estava sabendo da mesma coisa que vocês estão. Mas não é oficial. Não sei as consequências. Por favor, tenham cautela. Nós vivemos uma conjuntura de manhas e artimanhas. Por favor.

A presidente continuou:

— Está em curso um golpe de Estado. Como dizem os alemães, que dividem os golpes entre quentes e frios. Golpes quentes são os armados, e golpe frio é o que se usa de argumentos aparentemente legais para depor uma presidente legitimamente eleita.

Por causa dos fortes gritos do Salão Nobre do Planalto, que estava lotado para o lançamento de cinco novas universidades, a presidente pediu silêncio para que pudesse continuar seu discurso.

— Gente, eu não tenho garganta. Eu vou pedir, companheiros, eu vou pedir então um pouquinho de silêncio. A minha voz está fraca. Eu tenho um limite para falar mais alto. Depois nós tornamos a gritar – disso Dilma, que emendou:

— Pelo amor de Deus, gente. Eu estou tentando… (falar).

Diante da euforia da militância e de parlamentares com a decisão de Maranhão, Dilma ressaltou que o governo tem uma disputa “dura” e “cheia de dificuldades” pela frente:

— A gente tem que saber que temos pela frente uma disputa dura, uma disputa cheia de dificuldades. Peço encarecidamente aos senhores parlamentares e a todos nós uma certa tranquilidade para lidar com isso. As coisas não se resolvem assim, vai ter muita luta, muita disputa.

Enquanto no terceiro andar do Palácio do Planalto, onde ocorria o evento com a presidente a plateia ia ao delírio por conta da decisão do presidente interino da Câmara, no quarto andar do Planalto o clima também era de vibração. Quem aguardava para entrar em audiência com o ministro Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) não conseguia esconder a alegria com a decisão.

— Foi um grande passo contra o golpe — comentava ao telefone um interlocutor de Berzoini.

Tomados pela surpresa, funcionários da Secretaria de Governo sorriam, alguns se abraçavam e perguntavam se Maranhão poderia fazer isso.

MILITANTES OCUPAM O PLANALTO

Logo após o fim da cerimônia, militantes petistas e representantes de movimentos sociais, incentivados por deputados do PT, ocuparam o Salão Nobre do Palácio do Planalto. Eles pretendem ficar entrincheirados no local em resistência ao processo de impeachment da presidente. Assim que a solenidade acabou, os militantes começaram a gritar: “Aha, uhu, o palácio é nosso!” e “ocupa, ocupa e resiste”. Uma grande bandeira do PT foi aberta no local.

— Enquanto não parar essa palhaçada de impeachment vamos ficar aqui. O que está acontecendo é pior do que 1964 — disse a enfermeira aposentada Edva Aguilar, filiada do PT.

Em clima de comício, a deputada Fátima Bezerra (PT-RN) discursou com um megafone na mão, em pleno Salão Nobre do Planalto, logo depois que a presidente Dilma Rousseff deixou o local. Já o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) preferiu a prática usada em mobilizações de rua, de ter cada frase sua repetida pela platéia, para que todos pudessem ouvi-lo.

— Esse fato que aconteceu hoje (decisão do Waldir Maranhão) não teria acontecido se pessoas como nós não estivessem na luta, na rua, fazendo mobilização. A luta continua — disse Pimenta aos militantes.

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