Carro anfíbio: Little Croc segue firme seja na terra, seja no mar

RIO – Primeira engrenada e o conversível com cara de pelicano perdido do bando desce a rampa devagar. Mergulha o bico, salpica água para os lados, levanta uma pequena marola e segue avançando enquanto suas rodas vão perdendo contato com o chão. Neste momento, o motor principal emudece e o que era um automóvel se transforma num barco que desliza devagar, quase imperceptivelmente, em silêncio. Aí é soltar o cinto de segurança e vestir o colete salva-vidas. Bem-vindos a bordo do Little Croc, um anfíbio fabricado no Rio.

No início de 2015, ouvimos falar do misterioso carro que fora avistado navegando pela Baía de Guanabara. Pergunta daqui, pergunta dali, e chegamos ao Lucas Machado, um de seus idealizadores. À época, ele e seu sócio, Paulo Valladares, estavam muito reticentes em falar sobre o projeto, ainda em desenvolvimento, e se negaram a exibir sua criação.

Agora, o Little Croc está pronto. Ou melhor: já há três exemplares em ação. Sua primeira apresentação oficial não foi em um salão do automóvel, mas no Rio Boat Show, exposição de embarcações que teve início na sexta-feira passada e continuará aberta até o próximo domingo. Aproveitamos a mostra na Marina da Glória para navegar nessa excentricidade mecânica.

PLANETA ÁGUA

Não param de entrar curiosos no estande do anfíbio, cada um com sua questão.

— É bom para enchente — comenta um casal de paulistas.

— Se eu tivesse um desses, nunca mais usava balsa — diz um morador de Tocantins, muito interessado.

— Um anfíbio assim seria bom para nossas pesquisas na Lagoa de Araruama. Quanto custa? — pergunta um professor de biologia.

E, pela centésima vez, Lucas responde que os anfíbios Little Croc não estão à venda, ao menos do jeito convencional. A produção de cada um dos três veículos que já estão prontos custou de R$ 120 mil a R$ 150 mil, mas a ideia é usá-los inicialmente apenas para os passeios turísticos da Rio Croc Tour.

— Se alguém quiser fazer um sistema de franquia em outras cidades, podemos até fornecer lotes de seis ou oito carros — sonha o empresário.

Lucas é um engenheiro elétrico de 33 anos e já trabalhou em estaleiro. Um dia, visitando a irmã em Boston, nos Estados Unidos, viu um anfíbio de perto pela primeira vez. Era um dos muitos DUKW da Segunda Guerra Mundial que hoje sobrevivem levando visitantes pela Baía de Massachusetts. Daí veio a sacada de fazer algo parecido juntamente com Paulo, seu ex-colega de faculdade.

— Imagine só pegar o turista na porta do hotel, visitar o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e o Maracanã e, por fim, descer a rampa da Marina da Glória para uma voltinha pela Enseada de Botafogo — sugere Lucas.

O passo seguinte foi bolar o projeto. Para “a parte terrestre” era preciso achar um doador da parte mecânica. Além disso, necessitavam de um engenheiro naval e de uma oficina que topasse fabricar a encrenca.

DESEMPENHO MODESTO

A mecânica vem de jipinhos Suzuki Jimny acidentados. O modelo foi escolhido por ter tração 4×4 e mecânica simples, com eixos rígidos e molas helicoidais.

O projeto ficou a cargo do engenheiro naval João Henrique Lemos e a construção teve início na oficina de Manolo Rodriguez, inventivo mecânico de Jacarepaguá. Manolo, porém, morreu no fim do ano passado e hoje os Little Croc são feitos na Penha (há mais dois em produção, um deles com sete lugares). Trata-se de uma construção bem artesanal, com modificações a cada carro que é aprontado.

No início, era o próprio motor do Jimny, dianteiro, que tocava o hélice, por meio de uma tomada de força. Mas isso gerava muitos ruídos e vibrações.

— No fim, decidimos adicionar motores de popa independentes — conta Lucas.

O Little Croc branco, primeiro a ficar pronto, recebeu um motor Mercury 2T a gasolina.

Os dois anfíbios seguintes, pintados de amarelo, ganharam motores de popa elétricos da alemã Torqeedo. São absolutamente silenciosos, porém mais lentos, com velocidade de cruzeiro de 3 nós (5,5km/h, qual uma caminhada normal).

De toda forma, o Little Croc é uma embarcação bem lenta, apenas para passeios em águas abrigadas de lagos ou baías.

Um problema que exigiu atenção foi a entrada de água nos diferenciais e nas caixas de câmbio e transferência. Foi preciso reforçar as vedações e levantar os respiros.

Que faço o mar pra navegar

O chassi original do Jimny é descartado. Do jipinho, são usados motor, transmissão, eixos, suspensão e direção — tudo devidamente fixado no casco de fibra de vidro, que funciona como um monobloco.

O escape faz uma volta acima da linha d’água, evitando calço hidráulico no motor. Além de funcionar bem, resulta num ronquinho gostoso de carro inglês dos anos 60.

Como também ficam acima da linha d’água, as estreitas portas dispensam vedações especiais. Bancos, volante, rodas e painel completo vêm do Suzuki Jimny. A diferença é que foram postos interruptores para as bombas de porão (que retiram água que porventura entre no casco e no cofre do motor).

Para “mergulhar”, o ideal é descer a rampa lentamente, evitando um impacto forte ao entrar na água. A transição, aliás, é muito suave.

Nos Little Croc com motor de popa elétrico, não há qualquer ruído ou vibração enquanto se navega. A primeira sensação é: “Xi, está desligado…”. Depois nota-se o movimento suave e vem uma paz absoluta. Para acelerar na água, usa-se um manete instalado sobre o painel. As baterias são suficientes para algo entre 4 e 6 horas de navegação.

Como a imensa maioria dos anfíbios, o Little Croc tem desempenho modesto em seus dois habitats. Na terra, anda como um Jimny (mas pula menos, já que tem entre-eixos 30cm maior). Na água, as rodas calçadas com largos pneus 205/70 R15 criam um enorme arrasto, o que torna o Little Croc bem mais lento do que um barco comum.

As rodas dianteiras fazem as vezes de leme. As curvas são abertas e é preciso certa paciência ao atracar. Mesmo com cinco ocupantes, a linha de carga total se mantém bem acima da água. Quando há apenas o motorista/marinheiro, o anfíbio fica meio inclinado a bombordo (esquerda). Coisas de automóvel metido a ser barco.

Hora de voltar. Havendo rampa firme, nem é preciso acionar o 4×4 (recurso útil para a transição sobre areia). Faltando uns 5m para se chegar à terra, liga-se o motor dianteiro, engrena-se primeira marcha e se mantém o pé na embreagem até sentir que há atrito com o chão. Subiu a rampa? Desligue logo o motor de popa para que este não rode fora d’água. Daí é lavar o anfíbio por baixo com água doce, para evitar a oxidação do “lado automóvel” do Little Croc.

MARINHEIRO SÓ

Além dos itens de segurança de um carro normal, um anfíbio precisa ter rádio VHF para comunicação, âncora, luzes de navegação e cabos para amarração. Falhou o motor de popa? Apele para os remos…

A papelada também é dobrada: carteira B do Detran para dirigir na terra, e habilitação de Marinheiro Auxiliar de Convés para navegar. O mesmo vale para os documentos do veículo, expedidos pelo Detran e pela Capitania dos Portos.

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