Análise: ‘É triste, mas Tia Eron não é Joana D´Arc’, por Alan Gripp

RIO – Lamento dizer, mas Tia Eron (PRB-BA) não é mais nova heroína do Brasil. A deputado baiana, que citou Umberto Eco e Platão, numa performance hilária, quis mesmo foi salvar a sua pele. Como foi lembrado ontem nos corredores do Congresso, “peça qualquer coisa a um deputado, menos que se suicide”, dizia Tancredo Neves.

Ainda mais sintomático foi o surreal voto de Wladimir Costa (SD-PA), mais um dos soldados “solidários” de Paulinho da Força. Costa nem disfarçou. Dez minutos depois de bradar em defesa de Eduardo Cunha, anunciou sem nenhum constrangimento o seu voto na direção contrária. Arrependimento? Não, instinto de sobrevivência.

Os dois episódios de ontem ajudam a prever o que acontecerá amanhã. O destino de Cunha está praticamente selado. E, como vimos, não porque a Lava-Jato está promovendo algum tipo de revolução ética no Congresso ou coisa que o valha. Mas porque, como bem disse o jornalista Paulo Celso Pereira, um político acompanha o caixão de um aliado até a cova, mas não pula no túmulo.

Nem tudo, porém, é desgraça nessa constatação. Ela mostra que, apesar dos pesares, o sistema de representação política ainda funciona. Ou seja, sob pressão, quem ainda manda é o eleitor. Ou, como se costuma falar, a opinião pública.

Por outro lado, como disse Paulo Preto, outro exemplar inacreditável da política brasileira, a José Serra, não se abandona um líder ferido na estrada. Eduardo Cunha e sua política com o fígado é capaz de tudo. A mínima possibilidade de uma delação premiada dele apavora Brasília desde ontem. O jogo está só começando.

* Alan Gripp é editor de País

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