Análise: O panelaço e o discurso contraditório para defender Lula

RIO – Quem estava distraído levou um susto. O barulho das panelas surgiu em uníssono, e em alto volume, tão logo teve início o programa de TV do PT, com o objetivo principal de defender o ex-presidente Lula. A impressão, ao contrário de outras vezes, foi a de que mais gente estava a postos.

O panelaço, que já parecia um dos mais ruidosos, ganhou força quando Lula surgiu na tela para um minuto e meio de defesa, não dele, mas do governo. Foi acompanhado de gritos de “ladrão”, “bandido”, “vagabundo” e outros impublicáveis.

É fato que o panelaço foi e continuará sendo mais contundente em bairros mais abastados, nicho principal da rejeição ao petismo. Mas também é fato que ele ocorreu com força em cidades onde antes não havia sido registrado e que a insatisfação com o PT e o governo, medida por inúmeras pesquisas, é generalizada.

Tal cenário sugere que o discurso empregado por ambos não tem sido suficiente para manter algum nível de apoio. O programa de TV, alvo da manifestação de ontem, é um bom exemplo disso.

O filme de dez minutos, à feição de João Santana, o marqueteiro que àquela altura estava encarcerado em Curitiba, insiste em relacionar a crise brasileira à recessão internacional desencadeada a partir da quebra do banco americano Lehman Brothers, em 2008. “Essa crise ainda não acabou”, diz o apresentador, em 2016.

O raciocínio fica contraditório quando Rui Falcão, presidente do PT, entra em cena. Em sua definição, o momento é de “dificuldades passageiras”. Com Lula, o descolamento com o cenário atual se acentua: “Eu digo com absoluta certeza: hoje eu tenho muito mais confiança no Brasil do que tinha quando tomei posse, em 2003”, afirma.

O silêncio de Lula sobre as suspeitas de que foi beneficiado com favores pessoais no tríplex do Guarujá e no sítio de Atibaia é ainda mais eloquente. Como costuma se dizer em Brasília, são casos de fácil compreensão para o eleitor e, até aqui, sem explicações convincentes.

Com uma recessão inédita à vista, inflação e desemprego nas alturas e infindáveis denúncias de corrupção, o PT e o governo terão de enfrentar ainda o desafio de construir um discurso que os ajude a atravessar a crise e a se livrar das panelas.

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