Análise: O alívio de se ver livre de um aliado incômodo

BRASÍLIA — Em uma de suas frases mais célebres, Tancredo Neves dizia que Presidência da República não é projeto, mas destino. Ao que tudo indica, em uma semana a fortuna deve levar Michel Temer ao Palácio do Planalto. Só que a generosidade dela não se restringe à sua provável ascensão ao mais alto posto da República — para a qual o vice-presidente deu empurrões decisivos. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal que sacou Eduardo Cunha da Câmara, Temer se livrou do maior incômodo que enfrentaria na relação diária com o Parlamento.

Na noite da última quarta-feira, horas antes de o ministro Teori Zavascki conceder liminar o afastando do mandato e da presidência da Câmara, Eduardo Cunha foi ao Palácio do Jaburu e deu uma amostra de sua capacidade de pressão. Só que, desta vez, a vítima era Temer. Articulando um grupo de pequenos partidos, Cunha pressionava para emplacar um nome do PSC — sobre o qual exerce enorme influência — no Ministério da Previdência. Representantes de Temer lembraram o óbvio: a pasta terá o desafio de nos próximos meses encontrar uma solução para o principal problema das contas públicas brasileiras. Cunha bateu pé, e o clima azedou. Isso antes mesmo de Temer chegar ao Planalto.

Sempre que perguntado a respeito da onipresença de Cunha em sua residência, o vice respondia que o deputado lá aparecia sem ser formalmente convidado e que não seria do seu feitio constranger um correligionário. Mas a relação de Cunha e Temer é bem mais profunda que isso. Cunha sempre foi útil a Temer, e este, ao deputado fluminense.

Como nunca se preocupou com a própria imagem, Cunha auxiliava das sombras nas tarefas, que iam de pressionar abertamente o governo por cargos para seus correligionários até arrecadar recursos para o partido. Nos dois casos, fortalecia a ala do PMDB da Câmara, cujo líder maior é Temer. O vice, por sua vez, emprestava a Cunha o prestígio que faltava ao deputado. Foi em certa medida pela presença de Cunha nas cercanias de Temer — desde os tempos em que este era presidente da Câmara — que o meio político e empresarial do país ficou sabendo da importância do fluminense. Colado ao poder, Cunha também tornou-se poderoso.

Com o avanço da Lava-Jato, a relação utilitária começou a ficar desbalanceada. Temer precisava de Cunha para abrir o impeachment, mas ao mesmo tempo tinha de manter-se distante daquele que se tornara o símbolo da corrupção nacional. Os encontros, antes públicos, passaram a ser muitas vezes reservados. No ano passado, Cunha usou aviões da FAB para ir várias vezes a São Paulo sem agendas oficiais. Perguntado, explicou que eram visitas a Temer.

Agora, com o afastamento, o vice se livra — sem precisar sujar as mãos — de um dos maiores problemas que poderia ter na condução do país. Cunha continuará esperando que Temer o ajude a se salvar. Nos últimos meses, o deputado dizia ter certeza de que o Supremo não o afastaria do cargo. Lembrava, inclusive, que teve papel fundamental para aprovar a PEC da Bengala, que alongou o mandato dos ministros. Quinta-feira, os 11 integrantes do Supremo o mandaram para casa. Em breve, decidirão se o mandam ou não para a cadeia. É fato que Cunha poderia ser útil a Temer na aprovação de matérias de seu governo. Mas o preço tornou-se exorbitante.

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