Análise: No reino do centrão e de Cunha, por Paulo Celso Pereira

BRASÍLIA — A indicação de André Moura para a liderança do governo na Câmara tem duplo significado: o reinado do centrão e a prevalência de nomes próximos a Eduardo Cunha dentro do governo. Quando Alexandre de Moraes surgiu como cotado para a Esplanada, o círculo próximo ao então vice-presidente Michel Temer minimizou o fato de o atual ministro da Justiça ter advogado para o presidente afastado da Câmara, alegando que ele era amigo de longa data de Temer e um dos mais importantes secretários de Geraldo Alckmin. Nos últimos dias, no entanto, os aliados do presidente afastado da Câmara ingressaram em peso em postos-chave do governo: outro advogado dele assumiu um cargo na Casa Civil, um assessor de seu gabinete migrou para a Secretaria de Governo e o movimento foi coroado ontem com a ascensão de André Moura.

O povoamento do entorno de Temer com tantos nomes íntimos de Cunha revela a disposição do presidente interino de ignorar a opinião pública em nome do que acha que é melhor para garantir uma maioria segura no Congresso, que o permita aprovar as duras medidas econômicas necessárias para a retomada do crescimento. Mesmo baleado, Cunha ainda é o comandante maior dos líderes de partidos que somam quase três centenas de deputados. Só que, ainda que mantenha influência sobre parte significativa do Congresso, o presidente afastado da Câmara tornou-se um elemento radioativo para qualquer parlamentar que tenha voto de opinião.

Se Temer de fato pretendia expor para o público seu governo como uma concertação com PSDB e DEM, que serviriam para conectá-lo à opinião pública majoritariamente crítica a Dilma Rousseff, a tarefa está cada dia mais longe de ser cumprida. Enquanto PP, PSD, PR, PTB e PRB — os principais partidos do centrão — têm 7 ministros, os partidos que lideraram o movimento anti-Dilma — PSDB, DEM e PPS — ficaram com cinco. Agora, a face formal de Temer na Câmara será um deputado condenado por improbidade administrativa e réu por formação de quadrilha.

A ascensão de André Moura, do diminuto PSC de 9 deputados à liderança do governo mostra que após 22 anos do centrão orbitando em torno de governos petistas e tucanos, hoje são o PSDB e o DEM que correm risco de se tornar satélites de um governo comandado pela massa de partidos médios sem programa, liderados pelo PMDB, que até um mês atrás compunham a base de Dilma.

Temer certamente irá argumentar que Moura foi escolhido pela própria base e que não faria sentido escolher como líder quem não tenha ascendência sobre os liderados. Mas é difícil imaginar que entre três centenas de deputados não fosse possível encontrar alguém influente e menos manchado para agir em nome do Planalto. Assim, restará a Temer, agora, se escudar no argumento de que o último líder do governo da gestão Dilma ficou consagrado por ter tido um assessor preso com dólares na cueca. Ele só não deve se esquecer de que a ideia de quem foi às ruas nos últimos meses era que a situação mudasse.

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