75 milhões de crianças precisam de apoio educacional de emergência, diz Unicef

RIO — Guerras e desastres naturais extremos provocam perdas incalculáveis em vidas humanas e bens materiais, mas também minam o futuro das nações. Relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Unicef joga luz sobre um problema muitas vezes negligenciado em situações de crise: a educação. Apenas no ano passado, cerca de 75 milhões de crianças em idade escolar (entre 3 e 18 anos) tiveram seus estudos interrompidos em 35 países que passaram por situações de emergência. Recuperar o tempo perdido é imperativo.

— A educação muda vidas nas emergências — disse Josephine Bourne, diretora global de Educação do Unicef. — Ir à escola mantém às crianças seguras de abusos como tráfico e recrutamento para grupos armados. É um investimento vital no futuro das crianças e das comunidades. Está na hora de a educação ser priorizada pela comunidade internacional como parte essencial da resposta humanitária básica, junto com água, alimentação e abrigo.

De acordo com as estimativas, uma em cada quatro crianças no mundo — 462 milhões — vivem em países afetados por crises. Delas, uma em cada seis necessita de apoio emergencial para retomar os estudos. Apenas na Síria, mais de 6 mil escolas estão fora de uso, seja por terem sido destruídas ou ocupadas por forças militares ou para servirem de abrigo. Porém, em média, apenas 2% das verbas humanitárias globais são destinadas à educação.

Para tentar contornar a situação, o Unicef anunciou a criação do fundo “Educação não pode esperar”, para levar o acesso à educação a todas as crianças em situação de emergência. O objetivo é levantar US$ 4 bilhões para dar suporte a 13,6 milhões de crianças dentro de 5 anos, antes de alcançar as 75 milhões em 2030, para cumprir um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O valor ainda está abaixo do proposto pelo relatório, que estima em US$ 8,5 bilhões anuais o investimento necessário para cobrir todas as crianças.

O fundo será lançado oficialmente no World Humanitarian Summit, que acontece nos dias 23 e 24 de maio, em Istambul, na Turquia. Dos 35 países avaliados no relatório, Colômbia e Haiti são os únicos da América Latina incluídos. Tirando a Ucrânia, na Europa, todos os outros países estão na África, Oriente Médio e Ásia.

O ator e ativista Orlando Bloom, embaixador da boa vontade do Unicef, visitou escolas destruídas pela guerra civil no Leste da Ucrânia. Naquele país, uma em cada cinco escolas foram danificadas ou destruídas, deixando 300 mil crianças em necessidade imediata de apoio educacional para darem continuidade aos estudos.

— Eu conheci crianças como uma menina chamada Liana, de 11 anos, que se escondeu no abrigo subterrâneo do colégio por quase duas semanas, no frio, sem luz ou aquecimento, enquanto as salas de aula eram devastadas acima — disse Bloom. — Agora, após sobreviverem às experiências mais aterrorizantes da vida, tudo o que querem é voltar à rotina segura da escola e planejar o futuro.

Mas a situação ainda é grave naquele país. O Unicef investiu no reparo de 57 escolas e forneceu insumos básicos, como livros, carteiras e lápis, assim como apoio psicológico, para centenas de milhares de crianças. Mas no momento, o maior temor é com a segurança das crianças.

— Para muitas crianças no Leste da Ucrânia, apenas andar até a escola pode acabar com suas vidas — disse Giovanna Barberis, representante do Unicef no país. — Desde o início da crise, mais de 55 mil minas, bombas e outros explosivos foram encontrados e removidos. Mas nós sabemos que é apenas a ponta de um iceberg. Nosso objetivo é garantir que todas as crianças possam ir à escola de forma segura, para ter aulas, estudar e brincar.

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