Na recessão, os Steinbruch aumentam o expediente

RIO – Com a crise que se abateu sobre os negócios da família, o clã Steinbruch tem reforçado sua presença nos conselhos de administração e nas operações das empresas do grupo Vicunha, numa tentativa de colocá-las de volta nos trilhos. O mais recente agregado é Arno Schwarz, sobrinho de Benjamin Steinbruch, que em março assumiu a presidência executiva do banco Fibra, o braço financeiro. Na CSN, que completou 75 anos ontem, Leo Steinbruch, primo de Benjamin, passou a ocupar cadeira no conselho em abril do ano passado.

O engajamento não é à toa. Apesar do lucro bilionário da CSN em 2015, motivado por uma operação contábil num cenário de crise nas siderúrgicas, a fortuna dos Steinbruch tem encolhido. Em 2013, Dorothea Steinbruch, mãe de Benjamin, aparecia no ranking de bilionários da Forbes na 1.268ª posição, com fortuna avaliada em US$ 1,1 bilhão. No ano seguinte, havia recuado para a posição 1.372. Em março de 2015, quando a Forbes divulgou nova lista, deixara de figurar entre os bilionários. Ela morreu em novembro passado.

Além de Benjamin, Dorothea era mãe de Ricardo e Elizabeth. Ricardo comanda a Vicunha Têxtil, origem dos negócios da família. O grupo Vicunha foi criado em 1967 a partir da união entre fábricas dos Steinbruch e dos Rabnovich. Em 2005, os Rabnovich saíram de cena, e os Steinbruch assumiram o comando.

— Eles contraíram muitas dívidas quando compraram a parte dos Rabinovich. Querem assegurar que o desempenho melhore, pois precisam dos dividendos — disse uma fonte próxima aos Steinbruch.

Até a chegada de Leo Steinbruch, Benjamin reinava absoluto no conselho da CSN há pelo menos 15 anos. O executivo se tornou presidente do conselho em 1995, dois anos após a privatização, quando o grupo Vicunha comprou 10% da empresa.

Um ex-conselheiro duvida que o executivo, com fama de durão e centralizador, perca poder com a chegada do primo. Mas os membros da família estão mais atentos à estratégia da companhia. A empresa já cortou quase mil pessoas de sua força de trabalho este ano e busca compradores para seus ativos, ainda sem sucesso.

DE LATA DE AÇO A FERROVIA

O principal objetivo é reduzir a dívida líquida, que chegou a R$ 26,5 bilhões no fim de 2015. Além da conjuntura desfavorável na siderurgia, fontes do setor afirmam que o lado temperamental de Benjamin Steinbruch ajudou a inflar os débitos. Na época de vacas gordas, ele comprou a laminadora americana LLC, a portuguesa Lusosider e uma siderúrgica na Alemanha. Também adquiriu fatia na concorrente Usiminas e diversificou o portfólio. Hoje, a CSN produz de latas de aço a energia, além de operar porto e ferrovia.

— A CSN contraiu uma enorme dívida com essas aquisições. Agora, os ventos viraram, e a empresa precisa se ajustar. Ela conseguiu alongar a dívida, o que lhe dá algum fôlego, mas não resolve o problema — afirmou Luiz Caetano, analista de siderurgia da corretora Planner.

Paralelamente à chegada de integrantes ao conselho da CSN, a nova geração da família vem sendo preparada para a sucessão. Felipe, um dos quatro filhos de Benjamin Steinbruch, já dá expediente na CSN. Ele trabalha na área de planejamento estratégico. A irmã, Victoria, que hoje trabalha num banco de investimentos em São Paulo, é vista por pessoas próximas à família como candidata na linha de sucessão.

No banco Fibra, fundado nos anos 1980, os mais jovens começam a ocupar espaço. Mês passado, o sobrinho de Benjamin, Arno Schwarz, foi empossado como presidente da instituição. Nos últimos 15 anos, apenas executivos de fora da família ocupavam o posto. Schwarz (ex-CSN e ex-Bradesco) era vice-presidente de Risco do banco desde 2013, ano que marca a virada de estratégia.

Foi em 2013 que Benjamin Steinbruch assumiu a presidência do Conselho de Administração do banco. Ocupam cadeiras no conselho do Fibra a irmã dele, Elizabeth, e a prima, Clarice.

Além da dança das cadeiras, a estratégia de reestruturação do Fibra incluiu o reforço das provisões para calotes, que subiram de R$ 257 milhões para R$ 399,8 milhões em 2013. O quadro de funcionários foi decepado à metade: de 905 para 448. No ano seguinte, o controle da família ficaria mais marcante, pois adquiriu os 14% que pertenciam ao IFC, braço do Banco Mundial para investimento no setor privado.

APORTE NO BANCO

O braço financeiro do império Steinbruch dá prejuízo há cinco anos, acumulando R$ 1,07 bilhão em perdas. A família paga um preço alto pela aposta errada no crédito para o varejo, feita poucos anos antes de o segmento apresentar problemas. Nesse período, os Steinbruch tiveram que desembolar R$ 1,2 bilhão do próprio bolso para reforçar o caixa de um banco cuja carteira de crédito encolheu à metade nesses anos.

— O Fibra ficou bastante focado nos segmentos de financiamento de veículos e consumo que, por volta de 2011 e 2012, apresentaram problemas de inadimplência, afetando diversos bancos — explicou Alcir Freitas, analista da agência de classificação de risco Moody’s.

Hoje, o banco sustenta que seu foco são empresas com faturamento anual acima de R$ 300 milhões, sobretudo no setor do agronegócio, que já representa mais de um terço da carteira comercial do atacado.

A Vicunha Têxtil, uma das maiores produtoras globais de índigo, comandada por Ricardo Steinbruch, está no azul, mas tem assistido à queda nos ganhos e ao crescimento do endividamento. Em 2014, o lucro caiu 21%, para R$ 110 milhões. No ano seguinte, nova queda, para R$ 100 milhões. A dívida líquida subiu de R$ 561 milhões para R$ 736 milhões no período.

— A Vicunha Têxtil é o feijão com arroz da família Steinbruch. É o que eles sabem fazer bem — disse pessoa próxima da família.

Para enfrentar a recessão, a estratégia foi elevar as exportações. Em 2015, elas responderam por 46% da receita líquida. Em 2014, representavam 30%.

O desempenho destoa do resto do setor. A produção da indústria têxtil cai desde 2011, afetada sobretudo pela valorização do real. Em 2015, o dólar voltou a ficar forte, o que deve contribuir para recuperação do segmento.

Os Steinbruch têm fazendas de manga e uva no Rio Grande do Norte e em Pernambuco. O grupo apostou no cultivo de frutas, tendo os EUA como principal destino. A última tacada é a produção comercial de vinho em fazendas no Uruguai. Procurados, a Vicunha Têxtil, a CSN e o Fibra não quiseram comentar. Os irmãos Benjamin, Ricardo e Elizabeth, assim como Clarice e Leo, foram procurados por meio das empresas onde são conselheiros e não quiseram fazer comentários.

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