Investidor jovem busca alternativa a bancos

SÃO PAULO – O gerente comercial Eduardo Stefanini, de 30 anos, já tinha o hábito de poupar e deixar todas as suas aplicações no banco. No entanto, estava insatisfeito com as alternativas oferecidas pelo seu gerente e resolveu buscar alternativas. Chegou à conclusão de que precisava de um assessor financeiro e, ao mesmo tempo, queria uma alternativa pouco burocrática. Foi quando decidiu transferir suas aplicações para uma assessoria financeira, que a partir de seu perfil de investimento, define como os recursos serão investidos e faz o ajuste automático dessas aplicações de tempos em tempos.

— Um banco te oferece uma certa segurança, mas a comunicação é muito deficitária e as taxas são altas. Eu optei por uma assessoria financeira porque não tenho tempo para me dedicar a uma nova área de conhecimento. Leio bastante e tiro dúvidas com eles, mas não tenho toda a expertise para determinar qual carteira de investimento é melhor para mim — disse.

Para tirar dúvidas, em vez de telefonar e esperar ser atendido por um gerente, envia mensagens aos consultores. Considera que as respostas são rápidas e, quando a dúvida é mais complexa, recebe uma ligação. Essa interação e agilidade nas respostas, na sua opinião, é essencial.

DISPOSIÇÃO PARA APLICAR NO EXTERIOR

O exemplo de Stefanini, de deixar de aplicar em produtos oferecidos pelos gerentes de bancos e buscar mais alternativas, é muito mais comum na faixa etária conhecida como millennials ou geração Y. Levantamento feito pela gestora Franklin Templeton mostra que os jovens de 25 a 34 anos estão muito mais dispostos a contar com uma assessoria financeira, têm maior propensão ao risco (até porque estão mais longe da aposentadoria) e estão mais dispostos a investir em ativos no exterior.

Marcus Vinícius Gonçalves, presidente da Franklin Templeton Brasil, considera que essa mudança de comportamento tende a alterar a forma como as empresas da área financeira abordam esse público. Segundo ele, a comunicação terá de ser mais direta e as alternativas devem contemplar novas ferramentas tecnológicas, como plataformas 100% virtuais. Outro fator a ser levado em conta é que, embora esse investidor seja mais aberto ao risco, grande parte das opções disponíveis contemplam aplicações de valores mais elevados, muitas vezes inacessível para quem está em início de carreira.

— A gente já tinha a ideia que, para chegar nesse público, a abordagem precisa ser diferente. E também tem uma visão mais empreendedora. Por ter mais tempo, ele pode abrir mão de liquidez e obter maior retorno por isso — disse, acrescentando que investimentos em infraestrutura e fundos de participações em empresas (private equity) poderiam ser uma opção, mas não há carteiras em que a aplicação inicial seja acessível a esses millennials.

Algumas dessas características já foram percebidas pela Verios, gestora de recursos que desenvolveu uma carteira de investimento completamente virtual. A maior parte dos clientes está entre 30 e 40 anos. Felipe Sotto-Maior, presidente da empresa, reconhece que, como o investimento inicial é de R$ 50 mil, a entrada de um público em início de carreira é limitada.

— A nossa solução é toda online e, por ter uma estrutura mais eficiente, o custo é menor. É para um investidor que não tem tempo para estudar a fundo todo o mercado financeiro e por isso busca por consultores. E somos transparentes em relação às taxas, que é de 0,95% sobre o total investido — afirmou.

ALGORÍTIMOS DETERMINAM AJUSTES NA CARTEIRA

A partir de um questionário, é determinado o nível de risco do cliente e a carteira mais adequada para ele. Esses investimentos são feitos com base em uma série de estudos e algorítimos em um sistema conhecido como robot advisor. De tempos em tempos, é feito um ajuste nas posições de investimento, para o cliente continuar dentro do seu perfil de risco.

— Há um custo para mudar a carteira, de custódia, corretagem. O ideal seria fazer todo dia esse rebalanceamento, mas os custos inviabilizariam a rentabilidade, então o robot advisor vê o melhor momento, quando o benefício do ajuste é maior que o custo, e faz a mudança. Isso ocorre de uma a três vezes por ano.

A Magnetis também oferece uma solução parecida. O presidente da fintech (empresa de tecnologia financeira), Luciano Tavares, afirma que boa parte do público que utiliza a ferramenta tem entre 20 e 29 anos. O serviço de consultoria financeira é gratuito. Basta responder ao questionário e receber uma sugestão de carteira. Se o cliente quiser, pode utilizar essa mesma plataforma para realizar os investimentos sugeridos.

— Esse tipo de consultoria já é mais difundido fora do Brasil. Por aqui, os investidores buscam muito os bancos. O advisor de patrimônio não é tão popular. O que a gente fez foi automatizar esse serviço, reduzindo o custo — explicou, dizendo que é cobrado 0,4% ao ano sobre o valor investido.

PRESTAÇÃO DE SERVIÇO ONLINE

Segundo Tavares, mais de 10 mil clientes já receberam essa recomendação de carteira — o sistema completou um ano em março, mas ele não revelou o quanto de fato já investiram. O tamanho médio da carteira é de R$ 130 mil.

— O nosso principal papel é fazer com que essa carteira fique sempre equilibrada. Nossos clientes acabam sendo mais jovens porque são os mais confortáveis em ter um prestador de serviço online — completou.

Ao escolher uma opção virtual, no entanto, Golçalves, da Franklin Templeton, lembra que é importante verificar o histórico da empresa para não correr riscos desnecessários. Ele lembra que recentemente começou a discussão sobre a sustentabilidade de algumas fintechs nos Estados Unidos, em geral as que oferecem concessão de crédito. O presidente da mais famosa delas, a Lending Club, renunciou ao cargo por suspeita de fraude.

— Algumas estavam concedendo crédito sem uma boa análise e isso pode gerar bolhas. É importante aliar a riqueza de dados das estruturas tradicionais, como os bancos, com o uso dessa tecnologia e visão empreendedora. Isso seria o melhor dos mundos — afirmou.

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