BB cai 5% na Bolsa e perde quase R$ 3 bi em valor com saque ao Fundo Soberano

RIO – As ações ordinárias (com direito a voto) do Banco do Brasil despencaram 5,25% nesta terça-feira, a R$ 15,98, com o anúncio de que o governo fará saque aos recursos do Fundo Soberano para aliviar a situação fiscal do governo federal. Antes do anúncio, o papel chegou a subir 3,8% pela manhã. Com o desempenho da ação, a maior queda diária desde março, o BB perdeu R$ 2,92 bilhões em valor de mercado na Bolsa, passando a valer R$ 45,8 bilhões.

Segundo seu último relatório de administração, referente ao segundo semestre de 2015, 7,84% da carteira do Fundo estão aplicados nos papéis do banco estatal, em um total de R$ 1,55 bilhões. Como o Tesouro terá que vender esses papéis para embolsar o dinheiro, os investidores antecipam uma desvalorização e as ações caem — embora o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tenha dito que a venda será feita com cuidado para preservar o preço do ativo.

A ação do BB tem peso de cerca de 2,4% no principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), e seu tombo acabou esfriando a valorização da Bolsa. O índice de referência Ibovespa, que chegou a subir 1,36% pela manhã, acabou fechando em alta de apenas 0,03%, aos 49.345 pontos. No câmbio, o dólar comercial caiu 0,16%, a R$ 3,576 na venda.

Na avaliação de Paulo Gomes, economista-chefe da Azimut, o mercado se decepcionou um pouco com o escopo do pacote de medidas anunciado pelo governo hoje e esteve apreensivo com a votação sobre a mudança na meta fiscal.

— Foi uma alta que, na prática, representa uma queda relativa, já que, nos EUA e na Europa, os índices todos subiram acima de 1%. Na minha opinião, o mercado ficou um pouco decepcionado porque faltaram medidas que trouxessem cortes mais substanciais de gastos no curto prazo. No geral, foram anunciadas medidas de mais de longo prazo que não terão efeito imediato. Além disso, algumas delas dependem da aprovação de emenda constitucional, como que é o caso da desvinculação das despesas com saúde e educação — disse.

Segundo Gomes, a devolução de R$ 100 bilhões do BNDES para o Tesouro, por sua vez, esbarra em algumas interpretações jurídicas de que isso constituiria antecipação de receita por meio de banco público, assim como fez a Dilma

— Além disso tudo, acabou pesando a incerteza sobre a aprovação da mudança na meta fiscal hoje — completou.

Para Luiz Roberto Monteiro, operador da corretora Renascença, a queda do BB foi um exagero por parte dos investidores:

— A reação dos investidores do BB me parece exagerada, porque me parece claro que o governo não vai vender isso diretamente no mercado. Há outras maneiras de se fazer isso, como o “bloc trade”, que estabelece um pool de investidores para negociar de forma separada.

Na Bolsa, a Petrobras ON subiu 0,45% (R$ 11,09), enquanto a PN avançou 0,35% (R$ 8,53). Na Vale, houve perda de 2,91% (ON, por R$ 14,02) e 1,3% (PN série A, valendo R$ 11,35).

Entre os bancos, setor de maior peso no Ibovespa, os outros bancos perderam força com o tombo do BB. O Bradesco PN subiu 0,29% (R$ 24,52). O Itaú Unibanco PN teve baixa de 0,10% (R$ 30,15). A unit do Santander recuou 0,39% (R$ 17,96).

Embora as medidas propostas pelo governo não tenham provocado euforia na Bolsa, Álvaro Bandeira, economista do Modal Mais, viu com bons olhos o pacote. Ele observou, porém, que o teste será a aceitação das propostas no Congresso.

— Tudo o que foi anunciado vai na direção correta, e foi uma largada importante para o governo, que precisa cortar gastos e rever alguns pontos. O teto para o crescimento das despesas é fundamental, por exemplo, com a única ressalva de que isso tem o potencial de indexar a economia. Quanto ao fundo soberano, na minha opinião, ele sequer deveria existir, então o uso desses recursos é uma estratégia interessante — afirmou Álvaro Bandeira, economista do Modal Mais, ponderando, porém, que o mercado financeiro ainda guarda certa cautela com o que foi anunciado. — Agora temos que ver como tudo isso será votado no Congresso, se o plano vai ser descaracterizado ou não. Isso é um risco e, junto com a reação dos investidores na ação do BB, pode ter mascarado na Bolsa a boa avaliação geral das medidas.

Bandeira observou que a falta de detalhes sobre a reforma da Previdência ou da menção a novos impostos não foram pontos negativos:

— Quanto à Previdência, já estava mais ou menos acertado de que as mudanças vão requerer diálogo com sociedade para que não provoque traumas. Logo, embora esse problema precise ser tratado, não esperávamos nenhum anúncio concreto sobre isso. Com relação a novos impostos, foi importante isso ficar de fora nesse primeiro momento porque o governo precisa mostrar primeiro que ele está interessado em cortar no lado dele. Depois, acredito que não vai ter como escapar de um aumento da carga, pela gravidade fiscal.

Nos mercados europeus, a valorização do dólar frente ao euro impulsionou as ações, com os investidores apostando cada vez mais que os juros americanos voltarão a ser elevados em junho. Essa percepção já havia se consolidado na semana passada, com a divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, banco central americano). Ontem, declarações de dois membros do Fed reforçaram o movimento. O dólar sobe 0,18% em escala global contra uma cesta de dez moedas.

O presidente do Fed de Filadélfia, Patrick Harker, afirmou na noite de segunda que ele é capaz de antever de duas a três altas do juros ainda este ano e que, se a economia americana demonstrar força suficiente, uma elevação já em junho seria apropriada. A declaração foi similar à do presidente do Fed de São Francisco, John Williams, também ontem.

O índice de referência do continente europeu, o Euro Stoxx 50, subiu 2,63%, enquanto a Bolsa de Londres avançou 1,35%. Em Paris, a valorização foi de 2,18%. Em Frankfurt, a alta foi de 2,18%.

Em Wall Street, a divulgação de dados melhores que o esperado sobre a venda de moradias no país provocou a maior alta em mais de dois meses. O Dow Jones avançou 1,22%, enquanto o S&P 500 subiu 1,37%. O Nasdaq valorizou-se em 2%.

ver mais notícias