Após decisão britânica, Bolsa cai 3%; Europa fecha com perdas de 12%

RIO – Com a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia — uma surpresa para investidores do mundo inteiro, que poucas horas antes do resultado operavam otimistas —, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) acompanha a decepção do mercados no restante do mundo e cai 3,28%, aos 49.866 pontos. Na mínima do pregão, chegou a afundar 3,9%. A queda é bem menor, no entanto, do que a registrada nas Bolsas europeias, que chegaram a fechar com queda de mais de 12%. No mercado de câmbio, o dólar comercial chegou a saltar 3,14% contra o real nesta sexta-feira, a R$ 3,450, mas acabou perdendo força no decorrer da sessão e agora sobe apenas 1,49%, a R$ 3,39. A libra, que atingiu menor valor em 31 anos contra o dólar, despenca 6,73% em relação ao real, valendo R$ 4,63 no mercado à vista. Ontem, a divisa havia fechado a R$ 4,96.

— Não temos um fluxo comercial muito forte com o Reino Unido, e a UE, que é logicamente relevante pra gente, sofre um impacto mais indireto do Brexit. Se a gente olhar o que está acontecendo com outras moedas emergentes, fica claro que no meio do caminho entre os movimentos de divisas europeias e asiáticos, tem algumas latino-americanas pelo meio do caminho. É claramente um impacto mais concentrado em países mais diretamente ligados ao mercado europeu — explicou Ignácio Rey, economista da Guide Investimentos. — De qualquer forma, continuamos sendo um mercado emergente bastante exposto à volatilidade e o Brexit foi uma surpresa ruim que complica ainda mais o cenário externo pra gente.

Um fator que pode estar influenciado na alta mais branda do dólar contra o real é a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) postergue a alta de juros do país antecipando desaceleração econômica com o Brexit.

— Não devemos olhar isso pelo lado positivo, porém, porque isso significa que o mundo vai crescer menos. A própria alta do dólar em virtude do Brexit continuará prejudicando a indústria americana, por exemplo — acrescentou Rey.

O mercado acionário global abriu e fechou em forte queda após o Reino Unido optar por deixar a União Europeia no referendo realizado na quinta-feira, puxada principalmente pelas ações bancárias. Na Europa, o índice de referência Euro Stoxx 50 recuou 8,59%, enquanto a Bolsa de Londres teve baixa de 3,15%. Em Paris, a desvalorização do principal índice foi de 8,04%, enquanto a Bolsa de Frankfurt caiu 6,82%. As maiores quedas foram registradas em Milão, onde Bolsa recuou 12,48%, e em Mardi, com perda de 12,35%.

O ouro, considerado um refúgio em momentos de aversão a risco, atingiu o maior patamar em dois anos. Os lingotes chegaram a subir 8,1%, maior salto desde o auge da crise financeira global em 2008, antes de reduzirem parte do ganho. O volume de negociação de futuros foi seis vezes maior que a média para esse período do dia.

PETROBRAS E VALE CAEM MAIS DE 6%

Entre as ações brasileiras, as ações de Petrobras e Vale registram a perda mais importante. A Petrobras ON despenca 5,89% (R$ 11,34), enquanto a PN tem baixa de 5,68% (R$ 9,12). No caso da mineradora, a ação ON registra desvalorização de 7,47% (R$ 15,36), e a PNA recua 7,08% (R$ 12,45).

No setor bancário, o de maior peso no Ibovespa, o Banco do Brasil ON cai 2,83% (R$ 15,78), e o Bradesco PN tem perda de 2,55% (R$ 24,83). O Itaú Unibanco registra desvalorização de 3,56% (R$ 28,94).

— O comportamento do mercado brasileira está razoavelmente controlado. Colocando os fatos em perspectiva, a União Europeia não é o primeiro nem o segundo principal parceiro econômico do Brasil. A alta do dólar, inclusive, é favorável para as exportações das empresas brasileiras. Ainda assim assusta. é um evento que assusta muito e tem impactos. No caso da Vale, por exemplo, embora a China consuma metade de sua produção, a mineradora despenca com a desvalorização das commodities que ocorre quando o dólar avança — afirmou Paulo Gomes, economista-chefe da gestora Azimut.

O Banco Central divulgou nesta sexta-feira uma nota em repercussão à decisão britânica. Segundo o texto, o BC está “monitorando continuamente” os mercados global e doméstico e “ caso necessário, adotará as medidas adequadas para manter o funcionamento normal dos mercados financeiro e cambial”.

Na quinta-feira, quando os britânicos ainda estavam indo às urnas, o mercado financeiro brasileiro se comportou com otimismo. A moeda americana fechou em queda de 0,94%, cotada a R$ 3,345, enquanto a Bovespa avançou 2,8%, aos 51.559 pontos.

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