Ação do BB chega a cair mais de 4% com anúncio de saque ao Fundo Soberano

RIO – As ações ordinárias (com direito a voto) do Banco do Brasil passaram a despencar no fim da manhã desta terça-feira, depois de o presidente interino Michel Temer anunciar o saque aos recursos do Fundo Soberano para aliviar a situação fiscal do governo federal. Segundo seu último relatório de administração, referente ao segundo semestre de 2015, 7,84% da carteira do Fundo estão aplicados nos papéis do banco estatal, em um total de R$ 1,55 bilhões. Como o Tesouro terá que vender esses papéis no mercado para embolsar o dinheiro, os investidores antecipam uma desvalorização e as ações caem — embora o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tenha dito que a venda será feita com cuidado para preservar o preço do ativo. O Banco do Brasil ON, que chegou a subir 3,79% pela manhã, agora despencam 2,72%, valendo R$ 16,42. Na mínima, ela chegou a cair mais de 4%. O volume de negociação com o papel na Bolsa está 213% maior que a média dos últimos 20 pregões.

A ação do BB tem peso de cerca de 2,4% no principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), e seu tombo acabou esfriando a valorização da Bolsa. O índice Ibovespa agora sobe 0,46%, aos 49.557 pontos, após ter registrado sete quedas consecutivas.

— Não há dúvida de que qualquer processo de venda de ativos tem que levar em conta a evolução dos preços e a demanda por esses ativos. Sobre o Fundo Soberano, a decisão é imediata, mas o processo de venda das ações vai ser cuidadosamente avaliado de maneira a não criar movimentos bruscos no preço das ações — ponderou Meirelles, em entrevista a jornalistas em Brasília.

— A reação dos investidores do BB me parece exagerada, porque me parece claro que o governo não vai vender isso diretamente no mercado. Há outras maneiras de se fazer isso, como o “bloc trade”, que estabelece um pool de investidores para negociar de forma separada — disse Luiz Roberto Monteiro, operador da corretora Renascença. — Mas, no geral, a avaliação dos investidores foi positiva, pois o governo não anunciou aumento de carga tributária, o que alguns temiam.

No câmbio, o dólar comercial opera em baixa de 0,94% nesta terça-feira, sendo negociado a R$ 3,549 na venda. O câmbio devolve parte da alta da moeda americana na segunda-feira, quando ela saltou 1,81% ante o real, encerrando a R$ 3,582 na venda, maior valor de fechamento desde 18 de abril (R$ 3,598). Contribuiu para a valorização do dólar ontem a divulgação da gravação de uma conversa de Romero Jucá que sugere um “pacto” para conter a Lava Jato. Ontem mesmo, Jucá foi exonerado do cargo de ministro do Planejamento, e os investidores continuam monitorando hoje a repercussão do caso

Na Bolsa, a Petrobras ON sobe 2,53% (R$ 11,32), enquanto a PN avança 2,94% (R$ 8,75). Na Vale, a alta é de 1,10% (ON, por R$ 14,60) e 1,91% (PN série A, valendo R$ 11,72).

Entre os bancos, setor de maior peso no Ibovespa, os outros bancos passaram a cair com o tombo do BB. O Bradesco PN agora desvaloriza-se em 0,53% (R$ 24,32). O Itaú Unibanco PN tem baixa de 0,06% (R$ 30,17). A unit do Santander, porém, ganha 0,11% (R$ 18,05).

— Tudo o que foi anunciado vai na direção correta, e foi uma largada importante para o governo, que precisa cortar gastos e rever alguns pontos. O teto para o crescimento das despesas é fundamental, por exemplo, com a única ressalva de que isso tem o potencial de indexar a economia. Quanto ao fundo soberano, na minha opinião, ele sequer deveria existir, então o uso desses recursos é uma estratégia interessante — afirmou Álvaro Bandeira, economista do Modal Mais, ponderando, porém, que o mercado financeiro ainda guarda certa cautela com o que foi anunciado. — Agora temos que ver como tudo isso será votado no congresso, se o plano vai ser descaracterizado ou não. Isso é um risco e, junto com a reação dos investidores na ação do BB, pode ter mascarado na Bolsa a boa avaliação geral das medidas.

Bandeira observou que a falta de detalhes sobre a reforma da Previdência ou da menção a novos impostos não foram pontos negativos:

— Quanto à Previdência, já estava mais ou menos acertado de que as mudanças vão requerer diálogo com sociedade para que não provoque traumas. Logo, embora esse problema precise ser tratado, não esperávamos nenhum anúncio concreto sobre isso. Com relação a novos impostos, foi importante isso ficar de fora nesse primeiro momento porque o governo precisa mostrar primeiro que ele está interessado em cortar no lado dele. Depois, acredito que não vai ter como escapar de um aumento da carga, pela gravidade fiscal.

Nos mercados europeus, a valorização do dólar frente ao euro impulsiona as ações, com os investidores apostando cada vez mais que os juros americanos voltarão a ser elevados em junho. Essa percepção já havia se consolidado na semana passada, com a divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, banco central americano). Ontem, declarações de dois membros do Fed reforçaram o movimento. O dólar sobe 0,18% em escala global contra uma cesta de dez moedas.

O presidente do Fed de Filadélfia, Patrick Harker, afirmou na noite de segunda que ele é capaz de antever de duas a três altas do juros ainda este ano e que, se a economia americana demonstrar força suficiente, uma elevação já em junho seria apropriada. A declaração foi similar à do presidente do Fed de São Francisco, John Williams, também ontem.

O índice de referência do continente europeu, o Euro Stoxx 50, sobe 1,76%, enquanto a Bolsa de Londres sobe 0,94%. Em Paris, a valorização é de 1,69%. Em Frankfurt, de 1,56%.

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