Willian, do Chelsea, sobre a seleção brasileira: ‘falta ganhar um título’

Nos últimos jogos do Chelsea, você tem sido escalado como meia central. Onde se sente mais à vontade?

Vivo uma temporada muito boa. Eu me acostumei a jogar pela direita, mas não vejo problema em atuar centralizado. Jogar no meio é mais difícil, às vezes pego a bola de costas. Pelos lados, consigo mais espaço, fico no mano a mano com o adversário e tenho mais chance de fazer a jogada individual. Gosto de dar o passe que deixa o companheiro na cara do gol. Mas uma das minhas melhores características é arrancar, ir para cima do adversário.

A pressão na seleção aumentou após a Copa?

O fardo é sempre pesado na seleção. O jogo com a Alemanha entrou para a história. Mas cobrança sempre houve.

Esta geração tem uma dívida? Como se colocar na história de outra forma?

Nossa geração é boa. Basta ver quantos estão nos principais clubes do mundo e fazendo a diferença. Mas para ficar marcado de outra forma, só vencendo. Não tem jeito. O que aconteceu na Copa do Mundo é difícil acontecer de novo, uma fatalidade. Mas a imagem do jogador brasileiro na Europa não está manchada. Eles continuam buscando jogadores no Brasil. Hoje, a gente vê o que o Douglas Costa tem feito no Bayern, o Philippe Coutinho no Liverpool… E o Neymar no Barcelona, nem se fala. Isso aumenta o respeito pela seleção.

Incomoda o comentário de que “a geração é fraca”?

Isso é opinião pessoal, tem que respeitar. Eu tenho a minha: a seleção tem grandes jogadores. Falta ganhar um título.

Esta geração pode ganhar a Copa de 2018?

Pode. Claro que é difícil falar que o Brasil vai ganhar. Qualidade há. Antes, temos que continuar evoluindo, passar pelas eliminatórias. A parte coletiva hoje é fundamental. É raro ver jogador decidindo sozinho no futebol de hoje.

Times e a seleção brasileira têm sofrido no aspecto tático em torneios internacionais. Estamos desatualizados?

Na seleção, o Dunga e a comissão técnica vêm evoluindo no aspecto tático, passando coisas novas. O time está ganhando padrão. Os treinos são intensos, dinâmicos como a gente faz nos clubes da Europa. Não há diferença. Mas ficamos pouco tempo juntos na seleção. É pouco tempo para deixar a equipe perfeita.

Você já parou para pensar: “Não tinha outro jogo para o Suárez voltar ao Uruguai?”

(risos) Pois é, podia ser um pouco depois… Ele faz a diferença, é um dos melhores do mundo.

O Inglês é o campeonato mais difícil do mundo?

Não tenho dúvida. A intensidade do jogo não tem comparação com nada do que eu já tinha vivido. Você joga uma partida e parece que jogou duas. Um 2 a 0 ou 3 a 0 em qualquer outro campeonato é jogo finalizado. Aqui, o resultado está sempre aberto. Tudo pode mudar rápido… O Leicester (líder do campeonato) surpreendeu, ninguém esperava. E é um ótimo time. A Premier League tem dessas coisas.

Em que aspectos o futebol inglês fez você evoluir?

Ganhei muita experiência, aprendi a pensar mais rápido porque a marcação é muito forte. Aprendi também a driblar mais rápido e a ter um posicionamento tático melhor.

O campeonato é forte e os clubes têm dinheiro. Como explicar o desempenho ruim em competições europeias?

É difícil entender. Não falta qualidade. Talvez por jogarmos um tipo de futebol diferente, muito corrido, lá e cá. Acabamos tendo dificuldade em jogos mais cadenciados. Pode ser também pelo desgaste dos jogos no Inglês, com muita correria. A gente costuma ficar dois dias só se recuperando após as partidas. Se não dosar nos treinamentos, você sente na hora do jogo.

O que aconteceria com um time brasileiro que tentasse jogar a Premier League?

(risos) Difícil falar. No começo talvez sofresse um pouco. A adaptação é difícil. Depois poderia se dar bem.

Por que o Chelsea campeão do ano passado faz temporada tão apagada?

Estamos sem perder desde dezembro, mas pagamos pelo início ruim.

Fala-se que a relação com Mourinho se desgasta na terceira temporada. O ambiente era ruim até a demissão?

De jeito nenhum. Mourinho é dos melhores treinadores, pelo currículo, pelos títulos. Ele exige, cobra muito. Mas eu não tenho nada a criticar. Ele sempre confiou em mim e me ajudou a melhorar. Nunca vi nada de ruim no ambiente dos jogadores com ele. Há fases em que as coisas não dão certo. Em muitos jogos, a gente jogava bem, nossa bola pegava na trave e o adversário fazia o gol.

Pato tem pouco tempo de contrato. Como mostrar serviço num futebol tão duro?

O início será difícil para ele. Eu converso muito com Pato. Falo que, no começo, não se preocupe com gols. Preocupe-se em correr; se for preciso, dê carrinho na lateral do campo. E fique preparado para entrar a qualquer momento.

A fúria que Diego Costa exibe em campo é retrato de uma personalidade difícil?

Não. Ele é muito brincalhão, tira sarro sempre. No campo, é o tipo de centroavante que não pipoca para zagueiro nenhum. Não significa que seja má pessoa. É o estilo dele.

Jogar no Brasil está em seus planos? Em que clube seria?

Às vezes me vem à cabeça encerrar a carreira no Brasil, outras vezes penso em ficar na Europa. Tem tempo, tenho 27 anos ainda. Se voltasse, seria para o Corinthians. Nasci corintiano. Comecei lá e saí muito jovem.

Você jogaria num mercado como a China por uma proposta milionária?

Eu pensaria, sim. É um mercado que cresce, creio que tenha bons projetos, e a parte financeira também é importante.

Você saiu do país aos 19 anos e passou por Ucrânia e Rússia. Muitos jovens desistem e voltam. Como administrou a mudança?

Foi difícil. Eu não era casado, então, primeiro minha mãe foi comigo, depois meu pai. Muito jogador não resiste. Eu pensei em voltar. O que me moveu foi o desejo de subir na carreira, chegar num grande clube europeu, jogar na seleção. Hoje, me sinto realizado.

ver mais notícias